COISAS DA BOLA
Causo de um guarda-metas

A década de 1960 foi maravilhosa para o Esporte Rei neste chão de Porto União da Vitória. Lá se ia o ano de 1964. Por ter levantado o caneco da Liga Esportiva Regional Iguaçu no ano de 1963, o Ferroviário E.C., de fato e de direito, teve a responsabilidade de representar estas terras um dia contestadas na lei e na bala, naquele que seria o primeiro e maior certame de futebol amador do Brasil, a 1ª Taça Paraná.
Com o esquadrão na ponta dos cascos e já escalado para o debute, de trem, o onze da Rede Ferroviária rumou para Irati. Escrita à pena, na pequena folha de papel continha o nome dos litigantes que deveriam iniciar a contenda. Era o desejo do coach Salim Yared, que devido uma moléstia estava empestado e ficou de resguardo. Azamor Antônio de Almeida ficou com a obrigação de largar o onze à campo. Não levou ao pé da letra o quadro escalado no papel. A revelia, iniciou porfiando com outro guardião. Deixou o Odnir Bertolotte na cerca. Fez jogar o Ourivaldo Paulo Schwartz. O quadro triunfou por 4 tentos a 0, quatro tentos do meia-atacante Nilson Gilson Parise Nico. Na ojeriza, se sentido traído pelo Azamor, no retorno o Ferroviário teve uma baixa. O arqueiro Odnir Bertolotte abandonou a barca. Não mais apareceu para os lados do Estádio da Caixa D’água. Começou a treinar e pelear amistosamente pelo onze da Lagoa Preta, o São Bernardo F.C.
Peleando bem nas contendas de ida e volta naquele certame inusitado, o Ferroviário já tinha eliminado os representantes de Irati e de Guarapuava. Se tornara campeão da chave Sul II. Na nova fase litigaria com o campeão da chave Sul I, o forte Real E.C., representante da Liga da capital do Paraná. Na pugna de ida na cidade de Curitiba houve um empate pelo escore mínimo. No desafio de volta previa-se uma nova igualdade, pois os dois quadros se equilibravam tecnicamente. Profetizava-se uma possível prorrogação. A vaga poderia ser decidida nas cobranças de penalidades.
Ourivaldo Paulo Schwartz era um golquíper com peito e mãos de seda. Sempre bem colocado embaixo dos três paus encaixava a redonda com muita maciez. Nunca batia roupa, mesmo naquelas que vinham fervendo, mas era fraco catador de pênaltis, não se pinchava bem e, reconhecia isso. Já o Odnir Bertolotte era um gato e muito pegador embaixo das balizas. Tinha catado muitos na carreira. Antes do batedor atirar ele já sabia o canto onde o balão ia. Pulava, voava e se pinchava no chão ou na altura. Podia as vezes não cair pregado com a peca, mas ela dificilmente ultrapassava a risca da meta.
Fato pensado, o guarda-metas Odnir Bertolotte foi procurado e assediado pelo seu amigo e guardião concorrente, Ourivaldo Paulo Schwartz, para que voltasse a fazer parte do elenco. Papo daqui e trova de lá, o Odnir Bertolotte aceitou, e para colaborar com o amigo voltou a treinar durante a semana anterior ao prélio.
Naquela tarde cinzenta e de garoa, com a plateia da Vila Ferroviária arrebentando de gente – tinha povo até em cima da caixa d’água – como se previa a contenda terminou na igualdade, em 2 tentos a 2. O cotejo iria para a prorrogação. Em uma resenha entre dois arqueiros amigos, ficou atado, que se a peleja estivesse empatada, quando faltasse um minuto para o término da prorrogação, o arqueiro Ourivaldo Paulo Schwartz daria um balão para o mato e entraria no arco o Odnir Bertolotte. Não se tem prova oficial sobre isso. Os semanários da época relatam que tal troca fora feita sem consentimento do treinador Azamor Antônio de Almeida. O Odnir Bertolotte afirma de pés juntos que a substituição foi feita à revelia do técnico, pois ele ainda estava mordido pelo arqueiro ter abandonado o esquadrão após o jogo em Irati. Do Ourivaldo Paulo Schwartz não podemos ter a informação, pois ele já deixou a vida carnal, pulou
para o outro lado da estrada da vida. Está no céu há bastante tempo. Mas, o fato é que a troca dos guapos foi realizada no último minuto da segunda etapa da prorrogação. Cuidando do tempo de jogo junto ao mesário da “Federeca Paranaense”, no último minuto o Odnir Bertolotte foi avisado. Fez um sinal para o Ourivaldo Paulo Schwartz. Este, bimbou o balão lá pelos lados dos trilhos da Rede Ferroviária. A imprensa local se desesperou. Muitos roeram as unhas e arrancaram alguns fios de cabelo com a substituição, temiam, porque o arqueiro Bertolotte entrou sem estar na quentura da disputa. Previa-se que, quem tivesse um coração meia-boca sentiria o baque. Caso do meu vizinho Lourival Coelho, que foi parar em um hospital, porque as cobranças foram de arrepiar a pelarada do corpo.
Com a prorrogação terminada em uma igualdade, os dois guarda-metas dentro do grande círculo do relvado, de costa um para o outro, no par ou ímpar escolheram a cidadela onde seriam atiradas as cobranças, como também, quem iniciaria catando. Segundo o regulamento, três pênaltis seguidos seriam batidos pelos arrematadores escolhidos pelos esquadrões.
O batedor oficial do Ferroviário, sem condições psicológicas de fazê-lo, tinha borrado o suporte (cueca-saqueira), se negou. Ninguém mais queria pegar a empreitada. O impasse persistia. Então, o beque central Joanides Vieira Polaco, bateu com a mão direita no peito, dizendo, deixem que eu bato esse parangolé. Meteu a boca no batedor oficial por ter pipocado.
As balizas escolhidas foram as da caixa d’água. Com torcedores apinhados por ali, muitos encostados corpo a corpo e outros trepados nos alambrados, não cabia nem mais uma agulha. Uma grande maioria, com os nervos à flor da carcaça, tinha tentado firmar o pulso com mais de dois dedos de cachaça. Berrando nomes feios xingavam o guardião e o chutador dos cobras da capital. Nessa torcida vibrante, nem a mãe do juiz se salvou, virou mulher da vida fácil. A cada tento do Joanides Vieira Polaco e a cada catada do Odnir Bertolotte eram gritos quase intermináveis, de golllll… e imensas salvas de palmas. Parecia que aquele alambrado deitaria já, já…
Na primeira série de cobranças houve empate em 2 a 2. O Odnir Bertolotte mergulhou e catou uma lá no cantinho. A massa já cantava vitória. Quando o Joanides Vieira Polaco bimbou por cima da trave e a bola beijou a caixa d’água até sua mãe recebeu “elogios”. Alguém poderia finar, muitos corações alteraram as batidas.
Na segunda série o goleiro Odnir Bertolotte catimbou com batedor da capital: – não cobre com medo que vou catar! Pareceu que ele ficou assustado e bateu fraco. Odnir Bertolotte se pinchou nas três cobranças caindo pregado com a peca no peito. Catou as três. O povo já contou com o ovo da galinha. Odnir Bertolotte, faceiro igual uma égua com dois potrilhos, contando com a classificação garantida, se dirigiu para o vestiário embaixo da arquibancada. Após rezar frente à capelinha, quando retirava o fardamento foi chamado aos gritos por um bando de torcedores para voltar correndo à campo. O Joanides Vieira Polaco tinha feito cagada, perdera as três batidas. Os torcedores queriam tirar o coro dele. O chamaram de vendido. A revolta ferveu dentro dele, tentou se acalmar, pois não errara de propósito. Dois arremates o arqueiro encaixou e um beijou o poste esquerdo baixo.
Mesmo no início de verão daquele dezembro, a claridade já queria se esconder quando iniciaram a cobrança da terceira série de penalidades. O guardião do Ferroviário esperou que o batedor fuzilasse para escolher o canto. Em duas teve o voo perdido, não viu a cor dos tirambaços. Na terceira ficou parado no meio da meta esperando o tiro. Devido a bomba desferida, o balão explodiu no seu peitoral e foi parar no meio do gramado. Aos gritos a massa novamente contou com o ovo da galinha. Era só o Joanides Vieira Polaco estufar os barbantes que o triunfo estaria garantido. Duas ele estufou a rede. Na terceira, respirando fundo e tentando uma preciosidade no arremate, ele bateu colocado parecendo um peido de veio, fraco. Como um felino o golquíper curitibano se jogou e de ponta de dedos mandou à corner. Novo empate, 2 a 2. Aja nervos! Mais alguém foi levado às pressas para o hospital 26 de Outubro.
Veio a quarta série das cobranças. A noite já chegaria. Dedos cruzados, catiças, mandingas e promessas aos deuses do futebol foram feitas rapidamente. O Ferroviário tinha que sacramentar o triunfo. Espreitando, “zóio no zóio” o atirador, o quíper Odnir Bertolotte esperou que ele desferisse os chutes. Dois deles fizeram “chuá” nas suas malhas, não viu por onde entrou. No terceiro arremate, como um gato, Odnir Bertolotte se espichou todo e voou rasante. Conseguiu cair com o balão pregado no peito. Foi uma ovação só. Com os corações nas mãos e mais figa nos dedos, muitos ajoelhados e outros trepados nos alambrados, viram o batedor Joanides Vieira Polaco converter as três cobranças. Sua mãe foi absolvida dos xingamentos anteriores e ele não era mais um vendido. Triunfou o esquadrão da Rede Ferroviária por 3 tentos a 2. O batedor Joanides e o guardião Odnir foram carregados nos braços pelos torcedores. A vaga para a final estava garantida. Que viesse o Agroceres, de Santo Antônio da Platina, classificado no domingo anterior. Mas, isso é para ser contado em uma outra oportunidade.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.