MEMORIA E DISCURSO
Cristofascismo e Bolsonarismo: entre o religioso e o político (final)

Neste último artigo sobre o tema em questão, expandiremos nossa compreensão sobre os lugares de manifestação própria do cristofascismo no bolsonarismo. O cristofascismo, não somente se estabelece num ambiente religioso, ela se expande em todas as classes sociais e ambientes culturais, sua força discursiva se amplia de forma não linear, a ideia do cristofascismo como “projeto de nação”, abarca uma dimensão muitas vezes imperceptível, mas encontra-se em constante evolução e construção.
Nessa realidade não linear, se expandem o discurso cristofascista, o problema da violência não o afeta, é justamente, a violência à interface que sustenta o bolsonarismo no cristofascismo. Pela violência e pela imposição de um imaginário de superioridade moral que o cristofascismo vai ocupando espaço e atualizando seus efeitos e desejos. O cristofascista bolsonarista, se autoconceitua com a maior normalidade como “cidadão de bem”, sem compreender o valor e o preço da cidadania, principalmente, quando esta deve ser crítica e com consciência de classe.
A relação entre cristofascismo e bolsonarismo está em junção continua e fundamentada desde uma ideia velada de violência, não é uma violência qualquer, é uma violência que encontra seu sentido na opressão e na alienação dos seus súditos. Em última instância, o cristofascismo domestica sua vítima em nome de uma pseudo-religião pura e puritana. Segundo Raphael Fecundes “Para o discurso cristofascista, o problema não é a violência. Não seria muito difícil pensar que estes traficantes sejam, em grande parte, bolsonaristas, a partir desta relação com as seitas neopentecostais que já reconheceram o presidente como um enviado de Deus. A questão, para esse projeto evangélico reacionário, é inserir o indivíduo no mercado de trabalho de forma submissa, sem consciência de classe para que possa lutar por seus direitos, e temente a Deus, o que o tornaria relativamente obediente por meio de toda ideologia que envolve o ideal cristão de submissão a Deus. O trabalhador deve ser temente a Deus e à burguesia”.
Neste sentido, a violência se torna arma de controle psicológica desde a desinformação e se concretiza plenamente na formação de uma sociedade panóptica inversa – O Panóptico inverso (o contrário) faz a inversão definitiva entre reprimir e produzir. A disciplina possível através da vigilância panóptica permite que os indivíduos sejam treinados, coordenados, habilitados. Se tornam, portanto, mais obedientes e mais perigosos para a convivência na sociedade.
Daí a necessidade de compreender as várias facetas do cristofascismo, como afirmamos anteriormente, esta se encontra disseminada de várias formas simbólicas (uso de camiseta da seleção ou na apropriação do hino nacional). É importante ressaltar, ainda, que o cristofascismo bolsonarista não pode ser sintetizado em um único modelo e nem em uma única direção. Por isso, uma síntese de análise não será possível. A cada movimento do poder teológico e político que o sustenta desde a instrumentalização moralizante da religião e do seu discurso patético de nacionalismo vazio, coloca seus gados sempre em alerta para replicar e reproduzir a percepção da mentira como verdade.
O cristofascismo bolsonarista, não foi derrotado nas urnas. Ele segue vivo no sujeito antirracional, apolítico, na alma do fundamentalista religioso sempre presente em todos os ethos sociais. O cristofascismo bolsonarista, esta latente e vivo na conduta piedosa de muitos cristãos sejam católicos e evangélicos, que frequentam os cultos religiosos, sem autocríticas e com mentalidade perversa, já que no fundo adoram um deus adepto às armas, à violência e à morte. A pulsão do Tanatos é o que alimenta de forma compulsiva o cristofascismo bolsonarista.
O governo Bolsonaro deixou como herança para a sociedade brasileira desafios marcados em grandes tragédias. Em quatro anos de governo houve uma grande desintegração política e social, além dos constantes intentos de desestabilizar as intuições democráticas. Neste sentido Jean Marc von der Weid nos ajuda a realizar uma síntese abrangente que ficará como registro para a posteridade. Bolsonaro – Segundo Von der Weid – antes de tudo representa uma ameaça ao futuro da humanidade: “Bolsonaro não é só uma ameaça para o Brasil. Pelo que ele fez ao apoiar seus seguidores na Amazônia, Cerrado e Pantanal, os grileiros de terras, madeireiros ilegais, garimpeiros trabalhando para organizações do narcotráfico e pescadores ilegais, os índices de desmatamento dispararam, acompanhados pela fumaça da nossa biodiversidade em chamas que cobrem os céus do norte e centro oeste e se espalham até São Paulo. O Brasil de Bolsonaro tornou-se uma ameaça planetária, um foco de emissões de gases de efeito estufa combinado com a diminuição da capacidade das florestas de capturar carbono da atmosfera. O aquecimento global que ameaça o futuro da humanidade agradece ao presidente, um pária internacional e não só por isso”.
Neste sentido, o conservadorismo de índole religiosa, busca disseminar um poder político e teológico para construir uma nova “ordem interpretativa” até dos textos sagrados. O ideal mitológico tornou-se um desejo tentador para uma sociedade que não aceita a pluralidade de manifestações de ideias e condutas. A instrumentalização do cristofascismo evidencia-se no desejo personalista de cunho narcisista marcado pelo discurso e gesto de Jair Bolsonaro e de seus seguidores mais ferrenhos em que encontramos desde fundamentalistas religiosos, simpatizantes do fascismo e neonazismo.
Nessa lógica perversa, o programa de “catequização” que busca implantar o cristofascismo e o bolsonarismo desde o movimento, como o “Escola sem partido” e os currículos dos “Colégios cívicos militares”, é criar uma atmosfera em que o discurso religioso possa ser interpretado fora do seu contexto e atualizado de forma arbitrária, para poder utilizá-lo de forma coercitiva impondo uma moral de ressentimento opressora ou uma moral carregada com o fantasma e as fantasias do perigo do “comunismo”.
Neste estágio de construção, o cristofascismo bolsonarista – encontrou no pentecostalismo evangélico e nos movimentos conservadores católicos propagadores de discurso “apocalíptico”- os quais em seu discurso alienador misturam – uma alta dosagem de moralismo pueril, dogmatismo escatológico e uma obsessão compulsiva por uma sexualidade puritana, doentia e transgressora -. Neste “campo de comportamento” onde se cultua uma imaginação fértil e um moralismo perverso, o cristofascismo alimenta o imaginário escatológico do bolsonarismo para semear seu projeto de “nação” especialmente nas pregações de líderes pseudo-religiosos pentecostais inescrupulosos como Andre Valadão, Silas Malafaia, Valdomiro Santiago, e de grupos conservadores católicos como a Canção Nova e na perversa figura apocalíptica e moralista do Padre Paulo Ricardo e outros pregadores do falso e monstruoso cristianismo cristofascista.
Em resumo, o cristofascismo e o bolsonarismo, continuam constantemente trabalhando inculcando e alimentando no imaginário de sua militância o valor da cultura da desinformação, o poder maléfico das armas, para construir e empoderar sujeitos abjetos e animalescos. Michel Foucault fala de uma sociedade panóptica como forma de domesticação do humano, no caso o cristofascismo e o bolsonarismo, trabalham para a implantação de uma sociedade panóptica inversa, que se enquadra nas necessidades distópicas e violentas de sua militância, que repousam, em últimas instâncias, na teologia da prosperidade e na força do poder autoritário do fundamentalismo religioso, com alta dosagem de selvageria para naturalizar o processo anticivilizatório.
Encerro esta série de artigos sobre cristofascismo e bolsonarismo, reproduzindo aqui uma pequena Carta escrita por Hannah Arendt a Gershom Scholem e que de certa forma, nos sintetiza o passado e o presente da realidade que vivemos: “É minha opinião – diz Arendt – que o mal nunca pode ser radical, mas somente extremo; e que não possui nem uma profundidade, nem uma dimensão demoníaca. Ele pode abranger o mundo inteiro e devastá-lo, precisamente porque se difunde como um fungo sobre a sua superfície. É um desafio ao pensamento, como eu escrevi, porque o pensamento quer ir até o fundo, tenta ir às raízes das coisas e, no momento em que se interessa pelo mal, se frustra, porque não há nada. Essa é a banalidade. Só o Bem tem profundidade e pode ser radical”.