MEMORIA E DISCURSO
O LULISMO E A ELITE DO ATRASO (I)

Abordaremos nos próximos artigos o tema: “O Lulismo e a Elite do atraso” e seus efeitos discursivos historicamente produzidos neste movimento político democrático, assim como os desafios e as perspectivas no embate político e sua constante transformação. É fundamental, neste sentido, começar fazendo uma diferença básica entre o que é lulismo e o que é petismo, já que conceitos como Lulismo e petismo, operam de forma distantes e diferentes. O lulismo, é uma “filosofia” feita com base nas ideias pragmáticas do político e estadista Luis Inácio Lula da Silva. Petismo, pertence ao campo estrutural partidário, no domínio dogmático é identitária da própria política. O petismo, não encontra ascendência sobre o lulismo. E o lulismo, por sua vez, constantemente se distancia do petismo (o petismo tem dificuldade de acompanhar os movimentos pragmáticos e dinâmicos do político Lula). O lulismo, dessa forma, pode ser compreendido como uma “ideia símbolo” que permeia todas as classes sociais no Brasil contemporâneo. O petismo, pelo contrário, vive principalmente no imaginário do militante, do filiado, com uma visão restrita de forma corporativa e burocrática em sua forma de fazer política.
Para compreender esta dinâmica é necessário que o leitor se indague desde sua memória histórica, sem as paixões ideológicas peculiares e supérflua, sempre carregada de preconceito. O lulismo não se compreende pela simple aversão ou aceitação passional ou ideológica simplória. O lulismo, certamente, ocupa um espaço importante na histórica e no imaginário da política brasileira nas últimas cinco décadas. Para compreender o lulismo, como fenômeno político, social e histórico será importante fixar como ponto de partida as constatações do cientista político Andre Singer, que, afirma: “O lulismo existe sob o signo da contradição. Conservação e mudança, reprodução e superação, decepção e esperança num mesmo movimento”.
Justamente, essa contradição que irá criar um caráter ambíguo de um fenômeno por vezes difícil de ser interpretado por simples paixões ideológicas ou por mero fanatismo político de oposição. O movimento de conservação e mudança, reprodução e superação, assim como a decepção e a esperança, demarca o território controvertido em que nos inserimos, quando falamos sobre o lulismo.
Em outras palavras, o lulismo, não se imobiliza pela raiva ou pelo simples discurso de ódio. Mas, como nos lembra Singer, “é preciso arriscar os sentidos, as resultantes das forças em jogo, se desejamos avançar a compreensão do período”. Compreender o passado, a visão política que se fundamenta no pragmatismo é o maior desafio que a teoria nos interpela a desvendar, quando se trata do lulismo no campo da sociologia, da filosofia e da ciência política.
Tendo como premissa a afirmação anterior e pensando na contradição e ambiguidade que fica evidenciado, afirmamos, a necessidade de uma análise ampla e objetiva do tema em questão. Sendo assim, para analisar um contexto histórico de cunho político é importante não esquecer a recomendação de Ricardo Borges & Vidigal em seu artigo: “Do lulismo ao antipetismo”, de que, “o comportamento social e político está diretamente relacionado ao comportamento de grupos”. Ao tratarmos de um tipo de fenômeno político e sociológico, será necessário, enquadrar essa narrativa explicitando seu significado de forma mais aproximativa possível sem perder de vista o passado e as projeções para o futuro.
Quem erroneamente pensa que lulismo e bolsonarismo pertencem a um mesmo campo de sentido simbólico ou imaginário, cometem um erro grosseiro de percepção. Encontramos a fortaleza do lulismo disseminado no campo social ou no populismo social e principalmente é um movimento com profunda raízes no campo democrático. O bolsonarismo, por sua vez, como todos já sabem e já constatamos na dolorosa experiência, pertencem ao campo do populismo belicoso e demonstra um claro desprezo pelas instituições democráticas. O lulismo pode ter muitos defeitos. Mas sempre jogou entre as quatros linhas da constituição. O bolsonarismo, sempre jogou fora das quatro linhas da constituição. Com a clara e pérfida ideia mesquinha e autoritária.
Perry Anderson, em seu artigo: “O Brasil de Lula”, situa-nos no campo histórico em que estaremos inseridos. Esta contextualização é válida para entender o desenvolvimento posterior, já que toda narrativa histórica precisa ser fundamentada para ter validade dentro do contexto e do recorte que fazemos neste trabalho. Os dois parâmetros fundamentais para compreender é interpretar o lulismo entre as quais se destacam a globalização e a os avanços moleculares e digitais: “O primeiro deles e o momento na história mundial do capital em que ele chegou ao poder. A globalização eliminou a possibilidade de um projeto inclusivo de desenvolvimento nacional, do tipo há tempos buscado pelo Brasil. A terceira revolução industrial, baseada em avanços moleculares e digitais que apagam as fronteiras entre ciência e tecnologia, exige investimentos em pesquisa e impõe patentes que não permitem nenhuma transferência imediata de seus resultados para a periferia do sistema — e menos ainda em um pais como o Brasil, onde o investimento, mesmo no auge do desenvolvimentismo de Kubitschek na década de 1950, nunca superou meros 22% do PIB e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento permanecem ainda hoje irrisórios”
Daí a necessidade de se, por um lado, no campo histórico e econômico temos essa constatação, citado anteriormente, já por sua vez, no campo político e sociológico nos encontramos com uma outra realidade, que terá como finalidade um confronto que no mínimo nos faz pensar em uma luta de classe.
Talvez, neste campo minado de conflito, o lulismo apresentará sua contraposição mais expressiva, o desejo de aproximar a classe baixa com a da classe média. Essa aproximação e dialogo, exigirá uma certa aproximação e aceitação entre ambos. Na pratica produzirá um efeito adverso a longo prazo. Para explicar a mudança na composição social da base eleitoral que reelegeu Lula em 2006 – por exemplo – é necessário compreender o sentido exato do realinhamento ideológico no interior do eleitorado brasileiro, para compreender essa realidade, será necessário, ainda, aproximar duas classes sociais opostas, Wellington Nunes em seu livro: “Análise da política brasileira: instituições, elites, eleitores e níveis de governo”, salienta que: “André Singer recorreu a tese de que teria ocorrido um realinhamento ideológico no interior do eleitorado brasileiro. Esse movimento, por sua vez, seria duplo. De um lado, ao perceber que Lula não apenas tinha cumprido sua promessa de governar sobretudo para os mais pobres, mas também havia passado longe de qualquer radicalismo político que pudesse subverter a ordem, o eleitorado de baixíssima renda (o subproletariado) apegou-se maciçamente a candidatura de reeleição. É importante ressaltar que essa camada de eleitores aderiu a Lula (daí a origem do termo lulismo), e na o necessariamente a esquerda em geral ou ao PT em específico. De outro lado, ocorreu o crescimento do antilulismo, que se concentrou sobretudo no PSDB e afastou parte importante da classe me dia de Lula e do PT – principalmente a partir da crise do mensalão”
Como acabamos de constatar, essa aproximação, contudo, produziu um efeito nada positivo. Nesse sentido, Anderson, destaca o trabalho dialético que se encontra no amago do lulismo e que de certa forma demonstra sua continua construção e o seu fortalecimento se deu de forma gradativa, já que produz uma inversão da realidade no campo político brasileiro, aquilo, que Singer (2012) chamou de o “signo de contradição” sob o qual o lulismo se ergue e se sustenta continuamente.
Uma contradição que se confrontará com um sistema social até esse momento conservada de forma homogênea, essa desconstrução do estabelecido, acarretará também no desgaste progressivo que levo até a questionada Operação Lava Jato. O que evidenciará que o lulismo se fortalece e se enraizou na força e na visibilidade de uma camada social proletária que com ou sem consciência de classe é a estrutura que sustenta o lulismo na atualidade. Perry Anderson, ainda, argumenta que: “Se para Gramsci a hegemonia em uma ordem social capitalista era a ascendência moral dos proprietários sobre as classes trabalhadoras, garantindo o consentimento dos dominados a sua própria dominação, no lulismo, os dominados haviam invertido a formula, obtendo o consentimento dos dominadores para sua liderança da sociedade, apenas para ratificarem as estruturas de sua própria exploração”.
O paradigma político, sociológico e antropológico estabelecido pelo lulismo abre espaço para pensar, refletir e questionar sua aproximação com a elite do atraso. No próximo artigo daremos continuidade.