NACO DE PROSA

Mesa de Café

Passam das oito da noite, lá fora, o silêncio é quebrado pelos pingos de chuva que já começam a cair sobre o telhado.
A velha casa, que já dera abrigo para uma imensa família, hoje está solitária.
Uma casa é apenas uma casa, um amontoado de tijolos, colados por cimento, mas quando há pessoas, risadas, conversas, cheiro de café e pão quentinho, aí sim podemos chamá-la de lar.
E eu posso dizer, que entre tantas pessoas no mundo, fui privilegiada por ter um lar.
Lembro que meu pai sempre madrugava para ir trabalhar, sua garrafa de café estava sempre pronta na mesa da cozinha, ao lado, uma pequena marmita.
Antes de sair, ele acendia uma vela, pedindo proteção pelo dia que vinha pela frente, beijava seus filhos na testa, arrumava seu café e marmita na caixa da bicicleta e, ia pela estrada de barro, eu o seguia até perdê-lo de vista, na primeira curva. Confesso que, naquela época, ainda não sabia rezar “direito”, mas fechava os olhos e pedia ao Papai do céu para trazer sempre meu papai para casa.
E assim eram todos os dias, quando a primeira estrela apontava no céu, eu ouvia a bicicleta dele, e quando se aproximava de casa, ele tocava a pequena campainha fixada no guidão.
Quando ele entrava, o lar estava completo, meus pais, irmãos, todos à mesa para o jantar. Sem os olhos vidrados nas telas de celulares ou na televisão, apenas o bom e velho som das conversas, e mesmo cansado, meu pai queria saber do nosso dia, o que havíamos feito, como nos comportamos com a nossa mãe, enfim… rotina.
E assim os anos foram passando, meus irmãos e eu fomos crescendo, os estudos evoluindo… o primeiro a sair de casa, como dizíamos, foi o Marcos.
Ele queria ser engenheiro, e ali onde morávamos só havia ensino até a escola básica. Claro que, vagando um quarto, o outro filho mais velho ficaria nele, automaticamente o outro irmão teria mais espaço no guarda-roupa.
Mas, mesmo assim, Marcos fazia falta, era como um corpo faltando um membro. No caso dele, um pouco além disso, pois era Marcos que auxiliava no sustento da casa, junto com papai.
Ele sempre teve cabeça de empreendedor, de querer ir longe, de se formar em algo grandioso, que trouxesse orgulho aos nossos pais. Eles não aprovaram a ideia de Marcos, mas a decisão já havia sido tomada. No dia do embarque, estávamos todos na estação, aguardando o trem que levaria meu irmão à capital.
Recebíamos cartas dele quase toda semana, contando as novidades, empolgado com o novo mundo que estava conhecendo.
As folhinhas do calendário foram passando… as estações do ano também.
Um dia, acordei com mamãe chorando, ela estava no canto da cozinha, enxugando, em vão, as lágrimas com o velho avental.
Aproximei-me e perguntei o que havia acontecido, ela afirmou que não era nada, mas eu já entendia que ninguém chorava daquele jeito “por nada”.
Infelizmente, não demorou muito para eu saber que meu pai estava acamado, pneumonia.
Nós não passávamos necessidades, mas não havia dinheiro sobrando para consultas médicas, que sempre foram caras, principalmente em emergências.
Eu não sabia o que fazer, meu pai estava com a respiração densa, muitas vezes eu o via pegando um pequeno lenço e tossindo nele.
Fiquei parada, olhando para ele, lembro que ele suava muito, parecia ter calafrios, a mamãe me alertou para ficar longe do meu pai, pois eu poderia pegar aquela doença.
Eu não entendia muito a respeito, então apenas obedeci.
Dias depois, os olhos do meu pai se fecharam, e não abriram mais.
Mesmo assim, ainda não poderia chegar perto, abraçar, recostar em seu peito ou pegar na sua mão.
Meu irmão chegou da capital. Quase que não deu tempo dele ver o caixão sendo coberto por terra. Ele estava cabisbaixo, mal falou conosco. Estava mudado, parecia até mais velho, maduro.
Naquela noite, ele dormiu no seu antigo quarto, ao lado do meu outro irmão. Mas sem dizer uma só palavra. Apenas fechou a porta e se deitou.
Na manhã seguinte, enquanto me arrumava para a escola, ele estava tomando café, absorto em pensamentos.
Sentei-me ao lado dele, e disse que era bom tê-lo em casa. Ele mastigou o pedaço de pão e engoliu com um bom gole de café preto.

  • Pequena, disse sem olhar para mim. – Não posso ficar.
    Eu apenas o olhei, sem reação.
  • Preciso voltar, terminar meus estudos, para dar um futuro melhor para a mamãe e vocês. Estou quase conseguindo, falta isso aqui ó, e juntou os dedos.
    Ainda não estava entendendo o porquê dele falar aquilo para mim, naquele momento, logo eu, que mal abria a boca para cobrar ou entender a tal cobrança.
  • A conversa que terei com a mamãe não será fácil, vou precisar de você. E tomou mais um grande gole de café preto.
    Quando vi o relógio, levantei de salto e fui para a porta, precisava ir para a escola naquele momento senão, iria chegar para a segunda aula.
    Quando voltei, passavam das cinco da tarde. A casa estava silenciosa, minha mãe estava sentada na sala, olhando para a parede, parecia que seus pensamentos estavam bem longe dali.
  • Oi mãe, onde está o Marcos?
  • Ele voltou pra capital.
  • Já?
  • Sim, os estudos não foram a única coisa que ele trouxe na bagagem.
    Eu não entendi muito bem o que aquilo significava, mas lembro que ele disse que ela iria precisar de mim. E eu estava ali, ao lado dela, mesmo sem saber o que fazer.
    As folhinhas passaram, as estações se foram, e com ela, minha mãe.
    Não havia um diagnóstico muito certo para o que ela teve, mas penso que foi saudade do meu pai. Dizem que é possível a pessoa morrer de saudade, literalmente.
    Eu estava à porta, olhando a estrada, pensando o quão rápido a vida agiu em minha vida, tirando meus pais de mim. Estava um pouco perdida.
    Quando avistei, naquela curva da estrada de barro, um rapaz, com uma pequena mala na mão e um papel na outra.
    Quando ele se aproximou, reconheci que era o Marcos.
    Seus olhos não escondiam o quanto ele havia chorado.
  • Oi pequena!
    Marcos entrou, sentou-se à mesa. Colocou a mala no chão, ao lado dos seus sapatos empoeirados e, sobre a mesa, um papel grande, com letras brilhantes.
    Aproximei-me para olhar, estava escrito: Diploma.
    Ele me olhou e, colocando o dedo sobre a palavra brilhante disse: – E agora pequena, para que serve este papel?
    Continuou passando os dedos, em cada letra do seu nome e sobrenome.
    Eu não sabia o que responder, queria abraçá-lo, e dizer que tudo ficaria bem, mas nem eu sabia ao certo se era isso mesmo que eu queria dizer.
    Com o tempo, nossos irmãos seguiram vidas opostas, casaram, tiveram suas famílias. Marcos voltou para a capital anos depois.
    E hoje, voltando à velha mesa de café, olho para a parede e observo aquele papel com letras douradas, emoldurado, ao lado do quadro dos meus pais.
    Tomei um bom gole de café e pensei: -afinal, o que vale a pena nesta vida?

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