MEMORIA E DISCURSO

O Lulismo e a elite do atraso (II)

Dando continuidade ao artigo anterior, a composição discursiva que demarca a compreensão do lulismo, nem sempre é possível delimitar com exatidão e com a devida clareza, já que continuamente opera movimentos, ora aproximativo e em outro momento de distanciamento entre o lulismo e a elite do atraso. Ainda, assim, é importante descrever as aproximações já feitas sobre o tema, para mostrar o quanto pode ser esclarecedora, o sociólogo Rudá Ricci em seu artigo: “Lulismo: três discursos e um estilo”, afirma que “O lulismo, em outros termos, é mais personalista e centralizador e busca a sua legitimação pela precisão técnica, pela negociação, pelo controle político e pela sedução do discurso afetivo da liderança partidária”. Certamente essas características formam parte do âmago político do lulismo.
Esta realidade nos leva a compreender com mais amplitude a origem do lulismo, e situa-lo desde sua faceta mais pragmática e flexível, nas palavras de Ricci: “O lulismo é, portanto, uma nova faceta da organização, mais pragmático e flexível para com as forças políticas externas, buscando recompor a correlação de forças partidárias, na tentativa da montagem de um projeto hegemônico que sustente a sua reprodução política. Mas é mais inflexível com as forças internas do partido, porque é mais controlador, mais centralizador e menos pluralista”.
A hegemonia que o lulismo implementa no campo político (e consegue através do pragmatismo estratégico) tornou-se a matriz condutora do seu agir na política que segundo Ricci consiste em que: “O lulismo compõe-se de três matrizes discursivas mais nítidas que sustentam um equilíbrio dinâmico interno, assumindo um movimento pendular que privilegia, circunstancialmente, uma ou outra concepção. São elas: o pragmatismo sindical, o vanguardismo e burocratismo partidário e o discurso técnico de gerenciamento do mercado”.
É importante compreender o alicerce histórico que fortalece o lulismo nas últimas cinco décadas. Vejamos a seguir, os três pilares:
A primeira matriz discursiva, diz respeito, “ao pragmático sindical”, Ricci, ressalta que: “A primeira matriz discursiva que compõe o lulismo é originária da prática sindical desfechada pelo que em determinado momento a literatura especializada denominou de “novo sindicalismo”. O novo sindicalismo, contudo, não chegou a forjar um bloco muito unitário de dirigentes. Relatos de dirigentes sindicais rurais revelam uma primeira divisão, ainda no período anterior à fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre a condução política de dirigentes urbanos em relação à incipiente organização sindical rural. Concentrados no sul do país e, principalmente, na região da denominada Amazônia Legal, esses dirigentes rurais haviam passado pelo trabalho organizativo das Comunidades Eclesiais de Base (CEB), pelos encontros da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelas oposições sindicais”. A base ideológica do lulismo nasce no campo progressista da Igreja Católica, com o transfundo e compreensão da doutrina social do catolicismo.
A segunda matriz discursiva, encontra seu lugar no “vanguardismo e burocratismo partidário”, neste sentido, Ricci, afirma: “A segunda matriz discursiva do lulismo funda-se na prática organizacional e no movimento político oriundo de um segmento partidário que se articulou internamente com graus diferenciados de estruturação e identidade, e cuja liderança ou força política nunca esteve diretamente vinculada à sua capacidade de representar ou mobilizar a base militante do partido. Este segmento político, cuja força reside em sua capacidade organizativa e administrativa iniciou sua projeção nacional em meados dos anos 80, a partir de um acordo político realizado no interior da Comissão Executiva da seção paulista do PT. Em outras palavras, é possível perceber que lideranças petistas carismáticas ou forjadas nas lutas sociais tiveram pouca influência em relação à estrutura organizacional e burocrática do partido, cedendo espaço político para este segmento político petista. A consequência imediata desta ação específica foi a construção da unidade de ação e controle da burocracia partidária, envolvendo especialmente as Comissões Executivas nacional e paulista do partido”. Este segmento se identifica mais e está expandido através do petismo. O lulismo interfere de forma indireta, se tornando uma espécie de Coronelismo de esquerda, cooptando os partidos de menor expressão para influenciar suas decisões.
A terceira matriz discursiva, que permeia o lulismo se concretiza “no gerenciamento técnico do mercado”, segundo Ricci: “Esta vertente, à semelhança das outras duas matrizes, rompe com uma tradição petista fundada desde os primórdios do partido e ganha importância no interior do partido em meados dos anos 90. Até então, a economia sempre esteve subordinada à construção da hegemonia política e raramente aparecia como uma dimensão autóctone, determinada por uma operacionalidade específica. Na campanha de 2002, contudo, dois documentos passaram a balizar um novo referencial de governança, inaugurada pelo lulismo: a Carta ao Povo Brasileiro e a Agenda Perdida. O primeiro documento foi elaborado pela coordenação de campanha e fazia um anúncio ao mercado. Já a Agenda Perdida consolidou uma referência para um programa de governo que articulava e aprofundava algumas das promessas contidas na Carta ao Povo Brasileiro. O rol de políticas nele apresentado acabou por fundamentar vários documentos produzidos pela Secretaria Nacional de Política Econômica do Ministério da Fazenda, na gestão Lula”. Nesta matriz, o lulismo se potencializou nas últimas duas décadas.
As três matrizes discursivas em que se ancora o lulismo, ainda segue vigente, com bastante flexibilidade. As matrizes citadas, devem ser interpretadas a luz do viés histórico já que estão demarcadas em um projeto de poder e de disseminação político/ideológico amplo. A primeira matriz, segue sustentando a suas diversas bases eleitorais, o lulismo expande seu poder político, cooptando espaço em todas as camadas sociais. O petismo não tem a mesma potência. A segunda matriz, se enquadra dentro do fazer partidário-burocrático, o PT sejam elas estaduais ou municipais, controlam suas bases aplicando as leis internas, muitas vezes de forma arbitrária e autoritária. E a terceira matriz, é o que o alavanca para uma relação ora de proximidade e ora de distanciamento entre o Lulismo e a elite do atraso. O gerenciamento técnico do mercado, ajuda ao lulismo a se infiltrar e a transitar entre um discurso de conciliação por vezes com roupagem revolucionário e outras de forma mais agressiva cooptando figuras proeminente da elite do atraso como Geraldo Alckmin, Arthur Lira, Rodrigo Pacheco entre outros figurões na atualidade.
Justamente, estas aproximações e distanciamentos que tornam o lulismo atual, dinâmico, imprevisível, seja no campo político, econômico e social. Esta imprevisibilidade que em muitas ocasiões cria tensões internas entre o lulismo, o petismo e a própria militância, que não consegue acompanhar a leitura estratégica de Luís Inácio Lula da Silva. Segundo Ricci: “O lulismo pode ser compreendido como uma tentativa de gerenciamento do Estado e da governabilidade política. Refere-se, portanto, ao campo estrito da engenharia política, não se constituindo num projeto de desenvolvimento. Enquanto modelo gerencial, o lulismo possui uma natureza sistêmica, voltada para sua própria existência, ressentindo-se de impasses exógenos, não previstos. Em outras palavras, possui uma ação marcada pelo pragmatismo que objetiva sua manutenção e reprodução enquanto força política”.
Certamente, o pragmatismo, é o que marca a regra do jogo do lulismo e não o populismo compreendido desde um viés negativo, e sim desde o populismo social que sem dúvida se torna o grande motor e propulsor dos constantes movimentos de ressignificação na força política que o lulismo utiliza em sua relação com a elite do atraso. Assim, a composição Lula/Alckmin e a aproximação estratégica com Lira e Pacheco, é um claro exemplo que reflete que na contemporaneidade o gerenciamento técnico do mercado é o grande ator desta aproximação. Lula/Alckmin, buscam através de Lira e Pacheco cooptar o último bastião do bolsonarismo: o mercado financeiro, personificado na figura de Roberto Campos Neto. Nesse sentido, a intenção é fortalecer as instituições democráticas e contra-atacar o discurso fascista da extrema direita. Para compreender esta realidade atual do Lulismo, precisamos olhar a história, os acontecimentos e as implicações que nos trouxeram até aqui. No próximo artigo daremos continuidade. Até!

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