MEMORIA E DISCURSO
O Lulismo e a elite do atraso (final)

A aproximação de Luis Inácio Lula da Silva com a Elite do Atraso, o levou por caminhos inesperados e muitas vezes sem saída. O lulismo e seu sonho utópico em querer realizar a luta de classe sem conflito, não superará além do campo das narrativas do discurso político. Um sonho utópico truncado não por incapacidade do líder em questão, mas, sim, por um desejo de pacificação artificial, que segundo o cientista político Andre Singer, Lula “decidido a evitar o confronto com o capital, Lula adotou política econômica conservadora”. E, assim, fara nascer e alimentar o antilulismo com toda sua força.
O desejo de outrora, o de pacificar a elite do atraso com a classe trabalhadora, estará na expectativa em criar dois fenômenos no lulismo, em primeiro lugar, a de construir um contexto de esperança, por outro lado, o de medo. Neste contexto o projeto de poder pelo poder abrirá espaço para uma nova forma de compreensão da realidade política. Perry Anderson, destaca essas duas instâncias, ao afirmar que: “O cientista político André Singer, porta‑voz de Lula em seu primeiro mandato, mas uma mente independente e original, foi o pivô de uma análise surpreendente do Lulismo sobre a psicologia dos pobres brasileiros. Eles são, argumenta Singer, um subproletariado que compreende quase a metade — 48% — da população, movido por duas emoções principais: a esperança de que o Estado possa moderar a desigualdade, e o medo de que os movimentos sociais possam gerar a desordem”.
A partir dessas reflexões, pode-se dizer que, justamente, neste momento, aparece a importância de compreender o contexto do surgimento do lulismo. Esta denominação é antes de tudo um conceito de cunho neologista carregada de sentido e discurso de poder. Foi criado pelo cientista político André Singer. O conceito surge na campanha de 2002 para demarcar um posicionamento político e estratégico. Segundo a nota da IHU On-Line, o lulismo situa-se em um contexto histórico específico e sob uma contradição, sendo, assim: “Nascido durante a campanha de 2002, o lulismo representou o afastamento em relação a componentes importantes do programa de esquerda adotado pelo PT e o abandono das ideias de organização e mobilização. Busca um caminho de conciliação com amplos setores conservadores brasileiros. Sob o signo da contradição, o lulismo se constitui como um grande pacto social conservador, que combina a manutenção da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com fortes políticas distributivistas sob o governo Lula (2002-2010). O lulismo atual, já assumiu uma outra roupagem.
Desta perspectiva, se o lulismo se apresenta sob o signo da contradição e com a intenção de construir um pacto social conservador, é importante ressaltar, que no meio dessa contradição encontramos a presença da Elite do Atraso, aquilo que pode ser entendido como a base em que esta cimentada a história política brasileira. Para estabelecer esse diálogo, será necessário buscar a manifestação do poder, o dinamismo do poderio econômico sob a égide da Elite do Atraso. Segundo Jesse de Souza: “Desde que o Brasil é Brasil, e principalmente a partir de 2013 de modo mais insidioso e perverso, a elite econômica conseguiu consolidar, junto a seus intelectuais e sua imprensa, a ideia de que o empobrecimento da população teria sido causado apenas pela corrupção política, o que é uma mentira”
Vale ressaltar, que, Singer, nos ajuda a compreender melhor a história política brasileira fundamentada no personalismo tão próprio do lulismo. Esta característica, por um lado, vem mostrar um comportamento que influencia no déficit de participação nas decisões das coisas públicas, por outro lado, revela o jogo da figura pública como jogada individual de uma construção individual do poder: “O fato de a política brasileira ser excessivamente personalista obscurece o sentido coletivo da ação dos políticos. É necessário procurar nexos invisíveis por trás do que parecem meras jogadas individuais de poder. O que muitas vezes faz esse exercício parecer inútil é o fato de os grandes políticos brasileiros dialogarem pouco antes de tomar decisões. Penso que isso acontece porque há um déficit de participação no Brasil”. O risco próprio do lulismo de inserir-se nesta característica e suas consequências já começa a aparecer. Os partidos de esquerda vão perdendo autonomia perante o lulismo. O próprio lulismo vai anulando e minando a força interna do próprio petismo. A consequência desta realidade é preocupante para o futuro, já pensando num pós-lulismo.
Tais afirmações, vêm ao encontro para contextualizar o surgimento e o desenvolvimento do lulismo e nos leva a compreender sua gênese e sua expansão de forma mais organizada e ao mesmo tempo em uma construção cronológica aproximativa entre os eventos que chegou a produzir as diversas consequências posteriores no seu desenvolvimento. Para esta finalidade nos remeteremos a Singer, que nos informa que: “Em suma, foi em 2006 que ocorreu o duplo deslocamento de classe que caracteriza o realinhamento brasileiro e estabeleceu a separação política entre ricos e pobres, a qual tem força suficiente para durar por muito tempo. O lulismo, que emerge junto com o realinhamento, é, do meu ponto de vista, o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa cujos pontos principais foram delineados entre 2003 e 2005: combater a pobreza, sobretudo onde ela é mais excruciante tanto social quanto regionalmente, por meio da ativação do mercado interno, melhorando o padrão de consumo da metade mais pobre da sociedade, que se concentra no Norte e Nordeste do país, sem confrontar os interesses do capital”.
O economista Marcio Pochmann, salienta, que, o lulismo se enquadra no modelo desenvolvimentista, que busca uma configuração da sua identidade num projeto de inclusão “O lulismo é uma perspectiva política de modelo desenvolvimentista, neodesenvolvimentista, se constitui em torno da ascensão do governo petista e é um projeto inconcluso”, porém, fracassado em seu intento de “politização da pobreza”, a política e a consciência de classe não atingiram as camadas pobres. Pochmann, identifica e reconhece a validade da intenção, mas critica a falta de conteúdo político: “É um programa fantástico, que conseguiu colocar recursos, pela primeira vez, diretamente no bolso da população pobre. Abriu uma série de oportunidades, mas é um programa esvaziado da política. É um programa para os pobres e não um programa com os pobres, de auto-organização dos pobres. Ou seja, os pobres no Brasil continuam submetidos às prefeituras locais, que é quem faz o cadastramento e define quem entra e quem sai. Não houve a possibilidade de transformar 40, 50 milhões de pobres em atores políticos relevantes”.
Pode-se inferir, com base na entrevista de Pochmann que essa carência de politização de milhões de pobres levará a um enfraquecimento seja do petismo e do lulismo perante as elites do Atraso. O Economista, ainda, traça e fundamenta sua crítica justamente nesse vácuo produzido pelo Lulismo, “Não houve essa organização e não se tem uma ascensão social descaracterizada de valores modernos. Há uma ascensão econômica combinada com valores conservadores”. Em outras palavras, o lulismo e o petismo, terminaram alimentando e fortalecendo seus próprios algozes. As políticas públicas e sociais não produzem consciência de classe e consciência política por obras ou estratégia fantasiosa ou discursiva.
Nesse contexto histórico e simbólico a figura do Lula paz e amor ao longo prazo, tornou-se um símbolo de carnavalização que na realidade não produziu nenhuma mudança na estrutura interna da política brasileira. Pelo contrário, produziu um efeito negativo em que o “pobre de esquerda” ou “pobre de direita” chegaram a pensar que formavam parte da elite do atraso. E ao longo prazo muitos irão reforçar a longa fila do antipetismo e do antilulismo que existe na atualidade.
Justamente desta fragilidade da formação das bases políticas do lulismo e do petismo que de forma perversa a Operação Lava Jato utilizará como arma para minar a opinião pública e realizar a maior farsa jurídica descoberta na atualidade. Seja o ex-juiz Sergio Moro ou o ex-procurador Deltan Dallagnol e a empresa criminosa que montaram desde o judiciário representam a dimensão de uma justiça parcial, imoral e perversa que fez surgir e alimentar a dimensão perversa do neofascismo e de servir de voz e palanque político eleitoral para o bolsonarismo tomar o poder. Ainda, assim, o lulismo ressurgiu das cinzas e pelo jeito continua sua cruzada de aproximação com a elite do atraso, desta vez, mais sofisticado, tomara que não cometa os mesmos erros do passado, de esquecer a necessidade de uma formação política da sua ampla base política e eleitoral. Do contrário, a extrema direita voltará a se fortalecer.
O lulismo, voltou com força. Ainda, levará um tempo para analisar os impactos desta volta na arena política brasileira e as consequências que produzirá como herança para a esquerda brasileira.