COISAS DA BOLA
Sempre foi mais que chutar.Quem não sai de casa tem pouca história para contar.

Tudo fora feito para que aquele prélio futebolístico não fosse mais realizado, tamanha a confusão e brigarada na contenda de ida, onde vários antagonistas foram pernoitar em uma casa de saúde. Neste cotejo de volta, nem os torcedores pagos para pincharem frutas podres nos boleiros visitantes, quando estes estivessem na boca do túnel de entrada ao gramado, fez efeito. De momento eles não se avexaram. Longe, muito longe disso. Não se fizeram de submissos. Só foi o balão de couro rolar, partiram com tudo para cima. Era um bombardeio total na cidadela dos da casa, afinal! Tinham que triunfar sob pena de uma eliminação precoce.
Os visitantes em cima. Correria, mudanças de posições e centros de todo o tipo para a zona de perigo. O balão teimava em marcar presença na pequena área do quadro mandante, que se defendia nas unhas, dentes e bicão para todo lado. Não estavam vendo a cor da redonda, a pressão era tanta que, já, já os visitantes estufariam o barbante. Alguma coisa precisava ser feita. Um plano mais que depressa teria que ser colocado em prática. Mesmo, que fosse escondido do treinador. O que ele disse no vestiário, furou.
Então, se ouviu um alto assobio do capitão local. O seu guardião fingindo se cochar em dores no peito, foi ao chão para parar o prélio. O massagista, a par do tramado, entrou mansamente para o atendimento. Como previamente combinado nos bastidores, além vestiário, todos os boleiros se juntaram na rapidez no lado oposto ao banco dos regras três. Longe do técnico. Ao som do papeio do seu capitão, ouviram que tinham que mudar o esquema. O meia-cancha deles, um garraio, vazio nos ossos, estava armando uma fumaça por aquele setor. Toda a moganga passava por ele e saia redondinha. Parecia que ele tinha os pés de papel, fofo. A bola batia e morria ali mesmo. Alguém tinha que dar uma pegada no cara, ele quebraria fácil, disse o homem com a braçadeira – uma bicuda na batata da sua fina caneta tira ele do combate. Quem se atreve? Prosseguiu o capitão. No ato, afirmou o quarto beque: – deixa que eu pego o fulaninho. Promessa feita! Promessa paga.
Não demorou um tiquinho, os homens da maca tiveram que trabalhar. Na primeira bola endereçada ao meiuquinha – quando ele tentou matar – grudado no seu cangote, o quarto beque deu uma bicuda na batata da sua perna canhota. Ouviu-se o ai, ai, ai … com o meinha ficando estirado no centro do palco, aos choros. Sua batata da perna fora arrombada. Ficou parecendo a boca de um vulcão ainda adormecido, mas com uma cratera. A peleja já era para ele. Teve que entrar um que estava na cerca. O apitador, que “já fora engavetado antes do balão rolar”, interpretou como falta em dividida normal, mesmo com muitas reclamações.
Catimba daqui e catimba de lá, o capotão não rolava muito. O prélio ficou picado. O apitador não demonstrava estar no bolso, mas amorcegava, quanto mais rápido o tempo passasse, logo se livraria daquele imbróglio. A cada apito, na “manha” levava uma prosa com a boleirada, como querendo dar explicações. E o tempo passando. No quadro local, o bando levantava a perna como se fossem bailarinas, as travas das suas chancas faziam ventos no fuço dos rivais. O bom trato no balão ficou em segundo plano, nada de toque refinado na criatura, só faísca nas divididas. Touceiras ganhavam voo. Esperava-se que os visitantes começassem logo a afinar, mas ainda não. Afinaram somente após muito risco e calombo nas canelas. Rojões explodindo próximo aos corpos visitantes, pois a torcida também fazia a sua parte. O pelotão militar em posição de descanso, de costas para o gramado, estava de botuca na torcida. Lá dentro do relvado, o pau podia comer solto. Era problema do homem de preto.
Se sentindo como condenados às galés, sem escape, é que os boleiros visitantes começaram a arriar os cambitos de vez. O domínio dentro da “arena” então se inverteu. A posse do balão passou para os mandantes. Mas, o pau continuava cantando, e muito. Daquela disputa, se fazia crer de fato, que o “futebol é para homem”, mas podia se acrescer na frase, “não para qualquer homem”, só os valentes. Os ânimos de homens maus afloraram em todos os contendores. O desafio ficou perigoso e dando medo do desfecho. Cusparada na cara era a dor menos doída. No mediador, mesmo sendo um macaco veio no ramo, caviloso, uma agulha não passava pelo orifício do seu figo murcho.
Aquela batalha campal que era esperada se tornara fato, porque lá, no encontro de ida, eles tinham surrado o arqueiro daqui. Aqui, além das pauladas dentro das quatro linhas, depois do confronto “esportivo”, um quebra pau já estava armado. Mas, pelo reboliço criado pela imprensa na semana que antecedeu a porfia, o delegado de polícia já estava atinado. Chegou a pensar em prender provisoriamente na noite da véspera do duelo, os dois protagonistas de uma futura desgraça. O guarda-metas local e o centroavante rival. Já tinha a ordem de um magistrado e do alto comando militar. Mas, adotou o bom senso, montou um esquema de segurança e decidiu aguardar, para não colocar mais lenha na fogueira.
Dentro do campo, posicionado atrás da cidadela, o “dotor delega” cuidava a olho grande o golquíper local. Alguém dedara. Um trinta e oito até a boca de balas, estava enrolado em uma toalha no pé do pau da trave. O guardião queria uma vingança contra o centroavante que lhe agrediu na primeira pugna.
Quando deu um novo entrevero no meio do gramado o arqueiro correu para lá. Na esperteza, sem que ele visse, o delegado rapidamente tirou o caga-fogo dali e deixou enrolado na toalha uma garrafa plástica com água. Sabia da vingança e do pavio curto do guarda-metas. Ele queria tirar satisfações com o centroavante, que tinha pulado com os dois pés no seu peitoral no prélio de ida. Tinha ainda na caixa torácica os furos das doze travas das chuteiras marca Olímpica. Ele só esperava ouvir o último trilo do referee, e o dianteiro pagaria a fatura com mais moedas. Moedas de chumbo. Aquela pugna poderia virar em uma tragédia com muitos guardamentos. Balas era o que mais tinha por ali. A morte rondava aquele gramado.
Veio o trilo final. Rápido e malandramente, o delegado deu alguns passos e adentrou ao gramado. Na ligeireza abraçou o guardião, felicitando-o, pois, seu arco não fora derrubado nenhuma vez. Aquele abraço forte fora premeditado. Tinha como objetivo não deixar o goleiro correr em direção ao centroavante.
Olhando o focinho do delegado, com um sorriso maroto, o guarda-metas, na calmaria, falou: – eu vi que o doutor pegou o meu trabuco e deixou no lugar uma garrafa de água, inclusive já dei várias goladas. Sou grato doutor! Eu poderia ter feito uma baita cagada.
O “dotor delega” respondeu: – ainda bem! Naquela água foi colocado um “sossega leão”. Por isso você está pianinho.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.