CONTEMPLANDO

Emojis

Me lembro vagamente dos longínquos tempos de ICQ e Messenger, na Idade da Pedra da Internet, em que se usava combinações de caracteres especiais para criar algo similar aos emojis. Acredito que todos os millenials (nascidos entre 1980 e 1995), passaram por isso em algum momento. Tinha algo de divertido no uso dessas combinações, especialmente para expressar emoções: 🙂 “sorriso/alegria”, 😉 “piscada”, 🙁 “tristeza ou decepção”, 😮 “surpresa”, :* “beijo”, e por aí afora. Esses símbolos eram úteis num tempo em que as mensagens pelo celular só permitiam o uso de letras e caracteres especiais.

Embora nossos dicionários ainda não apresentem uma definição do termo, o prestigiado Oxford English Dictionary o define como “imagem digital ou ícone usado para expressar uma emoção ou ideia na comunicação eletrônica”. Em 2015, esse dicionário escolheu o emoji 😂 “chorando de rir” como a palavra do ano. Gerou um rebuliço, claro. Como assim uma imagem é a palavra do ano?
As redes sociais se multiplicaram e complexificaram. Todo mundo que usa um celular hoje em dia, está em pelo menos uma delas. Não se engane, o Whatsapp também é uma rede social. Se você usa esse meio para mandar memes, áudios e vídeos engraçados, fake news ou dar bom dia para seus parentes e amigos em grupos, está cumprindo a função básica de uma rede social, que é estar em contato com seus amigos e entes queridos. Até bem pouco tempo era preciso ligar para um parente distante para saber como ele estava, e as ligações eram bem espaçadas, pois interurbano era caro. Hoje minha tia que mora em Florianópolis (SC) pode dar “bom dia” todos os dias para minha outra tia, sua irmã, que mora em Toledo (PR), pelo Whatsapp, e até ligar pra ela a hora que quiser, também pelo aplicativo, tendo que pagar apenas pelo provedor de Internet.
Tem quem ame. Tem quem odeie. Tem quem ache que está arruinando a comunicação. Tem quem ache que complementa informações, tornando as mensagens mais complexas. Todo mundo sabe os perigos de um emoji mal interpretado. Um “bom dia” é diferente de um “bom dia 12” ou de um “bom dia 😘”. O primeiro parece mais seco, o do meio é simpático e o último é mais afetuoso. O que ninguém pode negar, é que eles auxiliam a expressar emoções, pois na escrita, comunicar nossos diferentes estados emocionais não é tão simples e natural como fazemos na fala. Afinal, quando falamos, temos o tom de voz, a postura, gestos, o olhar, além de termos a reação imediata do outro às nossas palavras.
Nas redes sociais, normalmente precisamos esperar a resposta. Na escrita, muito mais do que na fala, nos valemos do jogo “crença-desejo” pragmático: acreditamos e esperamos que o outro consiga capturar nossa intenção, o que queremos dizer. Afinal, estamos sempre lutando para que as palavras consigam expressar o que se passa na nossa cabeça da melhor forma. Nesse jogo, os emojis nos auxiliam a deixar mais explícito nossas intenções expressivas dificilmente codificáveis na escrita, as emoções. Os emojis deixam a comunicação mais leve, embora possam também gerar equívocos.
De qualquer forma, eles são onipresentes na comunicação eletrônica. Há hoje mais de um mil emojis nos principais sistemas, IOS e Android. Houve quem tentasse traduzir obras literárias usando apenas eles. Foi o caso de Moby Dick (www.emojidick.com), projeto capitaneado por Fred Benenson, que recrutou ajuda online, e de Pinóquio, projeto de pesquisadores da Universidade de Macerata, na Itália, que também se valeram de voluntários online e programas de tradução. Há até um perfil no Twitter que publica versos bíblicos em inglês com emojis (@BibleEmoji).
Claro que essas traduções não são perfeitas. A limitação dos emojis para expressar e comunicar está na dificuldade do sistema de expressar coisas que as línguas humanas fazem com facilidade, como conceitos abstratos e localizar temporalmente os acontecimentos. Algo tão banal, como falar do agora, do ontem ou do amanhã, não é tão simples de ser feito com emojis. Qualquer língua tem a sua sintaxe: a forma particular com que dispomos as palavras, conjugamos os verbos, colocamos os pronomes, e fazemos variar a forma das palavras em função da posição sintática em que ocupam – só para ilustrar alguns traços comuns a várias línguas. Não há isso com os emojis. Há quem acredite que eles vão ficar mais complexos, conforme os usemos mais. Quem sabe com o tempo passem a ter uma sintaxe, possam expressar conceitos mais abstratos e assim por diante.
Há também quem acredite que eles são uma forma potencialmente universal de comunicação. Contudo, há muita variação cultural na forma como são interpretados. O emoji das mãos unidas 🙏 é um dos mais usados no Brasil, provavelmente por motivos religiosos. Pode significar várias coisas, como “graças a Deus”, “ainda bem”, “amém” e assim por diante. Mas em várias culturas, como a islâmica, o ato de rezar não está associado a unir as mãos. Alguns podem ser ofensivos para outros povos. Pense no símbolo de “ok” ou o nosso “joinha”. Este, amplamente usado pelos brasileiros, no Oriente Médio é um gesto ofensivo.
No final das contas, é uma questão de gosto e costume também. Gosto de usar para não soar rude, e deixar claro que achei algo engraçado. Tem a sua praticidade. Mandar um joinha é mais fácil do que escrever “entendi”, “combinado” ou algo assim. o que não deixa de ser uma vantagem, nessa época de comunicação apressada e constante.

Clique para comentar
Sair da versão mobile