MEMORIA E DISCURSO

Os Cavaleiros do Apocalipse* (I)

Nos próximos artigos, nos debruçaremos sobre as figuras nefastas dos cavaleiros do apocalipse na política contemporânea. Segundo a narrativa do último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, de autoria do apóstolo João, apresenta de forma figurativa e metafórica os quatro cavaleiros do apocalipse, que representam de forma simbólica: a conquista, a guerra, a fome e a morte.
De fato, o mal, já não possui chifres, nem cospe mais fogo. O mal, na contemporaneidade se disfarça com a roupagem ideológica conservadora, fala de Deus, pátria e família ou com a bandeira sagrada do sionismo cultiva atos genocidas. Assim, a natureza do mal, é a criatividade e o culto ao terror. Em tempos de pandemia, se revelou como “não sou coveiro”, ou simplesmente, e de forma mais perversa possível imitando pessoas sem ar que caminhavam para a morte. O mal se transfigura constantemente. Nesse sentido, o mal, age na escuridão das ideias fascistas, liberal ou nos assim chamados libertários.
Como já indicado, esta é a tenebrosa realidade da arena política do século XXI, a extrema direita fez aparecer seus cavaleiros do apocalipse, alimentando-os com morte, populismo e genocídios. Contudo, entre os mais perigosos e nefastos podemos citar a figura política de Benjamin Netanyahu, Donald Trump, Jair Bolsonaro e Javier Milei. Este último, ainda, representa a síntese perversa da alma belicosa e da insensibilidade humana em potência máxima. Benjamin Netanyahu, o senhor da guerra e do genocídio do povo Palestino. Donald Trump, por sua vez representa o lado perverso do golpismo. Já, a figura belicosa e fascista de Bolsonaro, retratamos em artigos anteriores. O que estava em jogo no momento na Argentina, é a nefasta figura mais recente do Cavaleiro do Apocalipse contemporâneo, o político argentino autodenominado libertário, Javier Milei ganhador das eleições gerais no último domingo, dia 18 na Argentina.
Para o leitor se situar, é importante ressaltar, que existe um padrão nos líderes da extrema-direita contemporânea (Netanyahu, Trump, Bolsonaro e Milei), note-se, todos se conclamam defensores de um liberalismo antidemocrático, que tem como objetivo fundamental suprimir direitos sociais, que afetam principalmente a vida da classe trabalhadora. Estes cavaleiros do apocalipse se apresentam com perfil “outsider”, com discursos antissistêmicos, retroalimentando o desencanto da sociedade com a política tradicional e com as instituições tradicionais que sustentam a democracia. Neste sentido, o perfil dos cavaleiros do apocalipse, sem exceção, trata o tema da corrupção como mote de salvação, se colocando como puros e honestos, capazes de salvar seu país, livrando-o dos vícios, dos desvios e das ilegalidades. Até, que caem na tentação do poder, se tornando réus de diversos crimes de corrupção como é possível constatar na história contemporânea de Trump e Bolsonaro na atualidade.
Para compreender a atitude e a psicologia da “massa”, que alimenta e movimenta a nefasta e aberrante figura pública de um Javier Milei, que prega aberta e claramente, sem dó nem piedade a supressão de direitos em geral de minorias, um estado mínimo, a naturalização das vendas de órgãos que se resumem cruéis, proferindo frases como “essa aberração chamada justiça social”, o que assusta com tudo, é a capacidade de alcançar popularidade mesmo na classe trabalhadora – no sentido de apoio e votos -.
Retomando, os cavaleiros do apocalipse, nesse quadro têm a virtude de atrair em seu curral aqueles que se iludem com soluções fantasiosas da pobreza, da miséria, fora da política. Milei, Trump e Bolsonaro, se alimentam preferencialmente das vontades dos analfabetos políticos, que acreditam ainda em líderes políticos agressivos, despreparados e com alta dosagem de proposta de violência institucional. Seja nos Estados Unidos, no Brasil ou na Argentina, a falta de consciência crítica e leitura histórica alimentam a presença monstruosa destes nefastos personagens na contemporaneidade.
No Brasil contemporâneo, de fato, temos os melhores exemplos, aos devaneios e autoritarismo da extrema direita. O Poder Judiciário, continua tendo uma árdua tarefa para conter e combater o avanço do bolsonarismo praticante, belicoso e terrorista, dentro e fora das instituições, inclusive por indivíduos com mandato eletivo. Pela mesma razão, os projetos de inspiração fascista que os cavaleiros do apocalipse promovem, precisam ser combatidos desde o senso crítico. Exemplo disso, é possível perceber como se infiltram no imaginário coletivo pelo viés midiático um símbolo negativo e perverso como Javier Milei, um economista e operador do mercado de capitais, que já foi o mais entrevistado do país por cerca de três anos, com discurso que oscila entre Trump e Bolsonaro, para animar uma plateia apolítica, irracional, viciada em violência estrutural, que busca refúgio desde a sombra da barbárie, para saciar seus próprios desejos de autodestruição.
Desta forma, Javier Milei, é o exemplo de perversidade que alimenta a extrema direita, um discurso populista de cunho belicoso, propõe abolir o banco central, acabar com a inflação, se posiciona favorável a venda de órgãos, podendo ser “mais um mercado” lucrativo. O cavaleiro do apocalipse argentino em parte buscou esquecer suas origens, é filho de um motorista de ônibus que se tornou empresário do setor de transportes e de dona de casa. Milei, cresceu em um ambiente familiar violento sendo sustentado apenas pela avó materna e pela irmã mais nova Karina, que hoje é sua coordenadora de campanha eleitoral.
Conforme uma reportagem publicada por Il Post, o cavaleiro do apocalipse argentino e agora presidente eleito, Javier Milei, frequentou escolas católicas e universidades particulares, mas, nutre um ódio colossal pelas ideias e pessoa do Papa Francisco. Ele conhece bem a Bíblia, mas atualmente um de seus principais conselheiros é um rabino: ele disse que está estudando para se converter ao judaísmo.
Na escola, Milei, era apelidado de “El Loco”, ou seja, numa tradução literal, “o louco”, devido a sua conduta e opiniões midiáticas agressivas que o tornaria em pouco tempo o economista mais querido da televisão e depois eleito deputado federal em 2021. O cavaleiro do apocalipse bonaerense, já foi assessor econômico de Antonio Domingo Bussi, soldado durante a ditadura na Argentina (de 1976 a 1983), eleito deputado no fim dos anos 1990, depois expulso do parlamento e acusado de crimes contra a humanidade. Ainda, como destaca a reportagem, no ano e meio em que esteve no Congresso, Milei, não promoveu nenhum projeto. Uma semelhança muito próxima com a figura de Jair Bolsonaro, no que diz respeito, sobre sua improdutividade nas tarefas legislativas. Milei e Bolsonaro compartilham de certa forma a mesma característica: a inutilidade própria de um político inoperante que soube captar a lacuna existente nos ethos sociais contemporâneo.
É importante frisar, que os cavaleiros do apocalipse da extrema direita na contemporaneidade, encontram uma lacuna existencial que move as massas e que o sociólogo como Zygmunt Bauman já advertia em seus escritos dos riscos que representam: “O capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento (…) Os tempos são líquidos porque, assim como a água, tudo muda muito rapidamente. Na sociedade contemporânea, nada é feito para durar”, esse vácuo perverso gerado pelo caos social pode ser interpretado como fonte de inspiração, para que os cavaleiros do apocalipse da política contemporânea, cultivem e alimentem no imaginário dos “descartados pelo capitalismo” da possibilidade de um mundo diferente sejam elas mais ou menos parasitário. O mal também é camaleônico.
O povo Argentino, muito provavelmente, vai sentir na pele (o que já experimentamos aqui no Brasil, no fracassado governo Bolsonaro) o devaneio de um líder extremista, que muito provavelmente, escolherá favorecer os ricos, alimentar o mercado financeiro, proteger as elites políticas e empresariais que chamou de “casta” durante a campanha eleitoral. É quase certeza, que o empobrecimento, a fome e a miséria serão a marca do próximo governo. Até a próxima!

  • As fontes de referência e consulta deste artigo encontram-se em: www.ihu.unisinos.br

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