COISAS DA BOLA

Somente a família para me ajudar a esquecer um pouco da quarta enchente em minha vida

A água de forma rápida foi subindo, subindo e adentrou no meu lar. Os móveis e utensílios foram levantados. Alguns estragos foram inevitáveis. Os nervos foram para a copa dos paus. Sem outra opção, o sensato foi tentar me acalmar. Mas é difícil, ainda mais com a água tendo adentrado pela segunda vez em poucos dias. E o pior, para baixar, é no sistema conta-gotas. Hora após hora, como que esperando um dado alvissareiro consulta-se a situação hidrológica da bacia do Rio Iguaçu. E nada de bom. Tem água a dedéu para descer dos grandes afluentes e pequenos tributários do Majestoso, que ficará por tempo represada no gargalo aqui no médio Iguaçu. Que gargalo? Foi descoberto agora ou já era sabido ao longo desses quarenta nos? Mas, e nada foi feito? Esse questionamento comigo mesmo, que tendo ao longo destes anos pesquisado toda a literatura sobre o assunto, ter ficado a par dos projetos estruturais e não estruturais para a contenção ou amenização da influência das cheias, e me dei conta, novamente, infelizmente, que estamos no mato sem cachorro. Será que para nós só resta enfiarmos a “viola no saco”? Devíamos estar preparados, mas quem o está? E a pergunta que vem na mente de todos, por que nada de concreto foi feito até então? A resposta todos sabem, mas cada um tem uma. Achar um ou os culpados é rápido. Talvez, desta vez algo de concreto seja feito, essa é a esperança que não podemos perder. Pela segunda vez entre poucos dias, tendo limpado as nojeiras deixadas pelas águas podres e contaminadas, me dispus baixar dos andaimes um sofá para me acomodar e poder assistir alguma coisa para espairecer. Uma televisão suspensa por fios me possibilitava sintonizar o canal Youtube. Sentado no meio daquele sofá, assistindo um mix de vídeos musicais, eu me vi jovem de tudo na pista de danças do Clube 25 de Julho, dançando de rosto colado as músicas lentas tocadas pelo conjunto musical da época, Disparo 70. Divagando sobre aqueles idos me dei conta que o tempo tinha passado rápido demais e hoje sou um nono coruja. Assistindo Rod Stewart cantando I Don’t Want to Talk About It (Eu não quero falar sobre isso) e Gary Brooker, da banda britânica Procol Harum, tocando piano e cantando Whiter Shade of Pale (Um tom mais branco de pálido), com os olhos molhados, não da chuva, não me dei conta que o meu netinho Bernardo Getúlio e minha netinha Isabella de forma mansa e quase sorrateira, tinham sentado ao meu lado e estavam com os olhos vidrados na tela. Já no final daqueles vídeos, absorto em pensamentos fui chamado à realidade, quando Isabella comentou como aquelas músicas eram lindas. Bernardo completou, são muito lindas Nono! Tentando disfarçar o marejar dos olhos, disse para eles que iria colocar um vídeo especial e tinha certeza que gostariam, um rock progressivo. Ainda naquele mesmo mix de vídeos musicais, sintonizei Chuck Berry junto com Bruce Springsteen tocando e cantando “Johnny B. Goode”. Virou o maior “festere” das crianças. Bernardo com um taco de beisebol e a Isabella com uma vassoura simulavam dedilhar e tocar a guitarra dos dois astros. A festa ficou maior quando tentaram imitar os passos dançando igual o Chuck Berry. Foi uma farra só. Por momentos o prazer e a alegria tomaram conta de nós três, ainda mais para eles, quando narrei um pouco da vida destes astros da música dos quais sou fã. E as águas, que agora nos deixavam ilhados, por momentos, foram esquecidas.

Do escritor da periferia – Craque Kiko.

COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.

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