Com o se fosse um “Ás” do pedal, pedalando por todos os cantos das cidades, faceiro que nem ganso novo, eu procurava cumprir as tarefas confiadas – fazer cobranças em firmas e em várias residências de clientes. Procurava dar o máximo de mim, pois a minha Carteira Profissional de Trabalho, de menor, que fora assinada pela primeira vez era motivo de alegria e muito entusiasmo. Eu me sentia importante, pois já naqueles idos tinha um trabalho com a Carteira assinada. Andando como sempre, como o The Flash – muito rápido – ao fazer a cobrança em uma empresa localizada perto da parte central de União da Vitória, quase passei com as rodas da bicicleta por cima de uma bolsa. Freei na hora. Apanhei aquela bolsa, e numa velocidade maior ainda, voltei para o escritório da empresa onde trabalhava. Entrei como um relâmpago na sala do funcionário que trabalhava como Caixa, com quem eu tinha uma amizade estreita. Entreguei a bolsa em suas mãos e narrei onde e como ela fora encontrada. Ao abrirmos o reco da bolsa nos deparamos com documentos e uma enorme quantia em cédulas de dinheiro. Olhos nos olhos, como que abismados, mais brilhoso ainda ficou o olho do caixa, ao dizer que era conhecido daquela pessoa, bem como, sabia onde ela morava. Disse para não me preocupar, que ele entregaria a bolsa. E ficou por isso mesmo. Anos e anos se passaram, quase sessenta. Eu, hoje conhecido nas cidades irmãs como o Escritor da Periferia, estando sentado com um de meus netos em um banco na mais antiga Praça das cidades, sem querer, pelo volume alto da conversa entre dois senhores mais velhos que estavam sentados em um banco próximo, ouvi um nome citado no proseio. Lembrei de imediato aquele nome. Era o nome que estava no documento dentro daquela bolsa que quase passei por cima com a bicicleta. Enxerido que sou, me atravessei na resenha dos dois senhores e iniciei uma prosa:
Bom dia senhores! Desculpem a intromissão, mas ouvi sem querer o nome José Passarinho dos Cantos (nome fictício) ser citado. Quem é esta pessoa? Podem me informar?
- Sou eu! Disse o senhor que aparentava ser um pouco mais velho que o outro, ainda surpreso pela minha pergunta. Sorrindo, continuou, qual é a curiosidade sobre mim?
Fui respondendo:
- Há mais de cinquenta anos, quando ainda eu era um piá, encontrei uma bolsa com documentos seus e muito dinheiro. Um amigo que trabalhava comigo em um escritório disse que lhe conhecia e ficou encarregado de devolver a sua bolsa. Veja como é a vida, depois de tanto tempo fico lhe conhecendo pessoalmente.
Procurando me fitar melhor, da cabeça aos pés, aquele senhor disse:
- Eu te conheço cara! Vi você dando uma entrevista na TV Mill falando sobre livros e futebol. Ah! Então, foi você quem achou a minha bolsa. Fez bom uso da gratificação que pedi para lhe entregar?
Fitando melhor aquele senhorzinho, respondi:
- Que gratificação? Não recebi nada, disse eu.
Aos ficarmos a par que o “disgracido”caixa daquela firma tinha embolsado a verba da gratificação, depois de muitas risadas, prosas e contação de causos parecíamos que éramos velhos e grandes amigos.
Com os olhos vidrados e prestando a atenção naquelas histórias, meu neto se deliciava com o que ouvia. Pedi-lhe que apanhasse no carro dois exemplares do meu livro recém-lançado e, após garatujar uma dedicatória, presentei àqueles dois novos amigos.
Enquanto voltávamos para casa, sentado no banco ao meu lado, meu neto me bisoiava com um olhar de caburé e, com admiração ele largou a seguinte prosa:
- Nono! Você foi e continua sendo foda, né!
Meio sem saber se o repreendia pelo palavreado ou dava risadas, disse-lhe no ato:
- Foda era o teu bisavô Acir. Eu sou fodinha… E, largamos um kkkkkkk.
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Coisas da Bola são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos ou frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.