Começo pedindo licença a Michael Foucault para usar o título de um livro seu para nomear essa modesta crônica. Se o leitor não quiser perder seu tempo, e ir direto ao seu calhamaço pra entender melhor o assunto, fique à vontade. Pra ser direto, vou falar hoje um tantinho sobre a relação entre as palavras e as coisas, ou a relação entre as palavras e seus significados.
O negócio é que a gente não sabe muito bem o que é o significado. Parece claro que usamos a linguagem para nomear a realidade, o mundo ali fora de nossas cabeças, e falar sobre as entidades nesse mundo, como elas se relacionam entre si, coisas que lhes acontecem e assim por diante. Na lição do grande pai dos estudos da linguagem Ferdinand Saussure, uma língua é um princípio de classificação, uma forma de recortar o mundo. Mas é inegável também que o significado é um tipo de entidade mental ou conceitual, isto é, há uma associação entre os significados e algum tipo de construto mental, qualquer que seja ele.
Quando dizemos que a língua é uma forma de recortar a realidade, entendemos que é apenas um aspecto curioso que no inglês exista uma diferença entre os fingers (dedos da mão) e os toes (dedos do pé). No português chamamos tudo de dedo. Alguns diriam que os falantes de inglês são capazes de ver alguma diferença entre essas extremidades do nosso corpo que nós falantes de português não vemos. Outros dirão ainda que é apenas uma peculiaridade do vocabulário de nossa língua que não precisamos fazer uma distinção que no idioma dos ingleses é preciso fazer. Como aquele mito linguístico de que há no inuíte (a língua dos esquimós) mais de cem palavras para designar diferentes estados da neve, e isso lhes concederia o superpoder de ser capaz de ver diferenças na neve que falantes de outras línguas não veriam.
Veja que nesse caso, a solução é simples. As palavras inglesas finger e toe estão associadas diretamente a certas partes do corpo inconfundíveis. Também para nós, dedo significa o que significa e ninguém tem dúvida sobre isso e ninguém fica discutindo quando vê um dedo se está mesmo diante de um dedo. Essa discussão fica interessante quando se adicionam outros elementos socioculturais, e, porque não, também políticos, nesse caldo.
Quando religiosos e conservadores esbravejam que só existe homem e mulher, macho e fêmea, e que o restante é ideologia de gênero, se esquecem que a língua é uma forma de recorte da realidade, e que essa própria negação de uma visão não dicotômica do gênero é uma visão ideológica. Ideologia é que nem bafo, só os outros têm, disse um pensador cujo nome me escapa agora. Note como entra aqui a questão linguística e semântica. Se só existem duas categorias de entidades no mundo, o homem e a mulher – dadas pela natureza, como se a natureza também já tivesse vindo com rótulos para as suas criaturas e propriedades e esses nomes não sejam construções históricas e culturais – todo o restante seria ideologia, ou invenção. Deus já deu a letra, como dizem os jovens, lá no Gênesis, cap. 2-20: “e Adão pôs nomes a todo gado, e às aves dos céus, e a todo animal do campo”. Ou seja, os homens podem nomear a realidade como bem quiserem. Ah, mas deus fez “o homem” e “a mulher”. Pois é, pena! Ele só fez dois mesmo… quem sabe se tivesse feito mais pessoas?
Reforço meu ponto. Optar por entender os gêneros como binários (macho/fêmea, homem/mulher) e não como dispostos numa espécie de contínuo, é essencialmente uma questão ideológica. Escolher olhar o mundo ou a natureza como se ele dispusesse as criaturas em dois extremos também é uma opção, uma visada. Mas a realidade certamente é muito mais complexa que isso, se pararmos para olhar com mais cuidado.
Notem, como comparação, os recortes que fazemos da vida humana ao longo do seu desenvolvimento: bebê, criança, pré-adolescente, adolescente, jovem adulto, adulto, meia-idade, idoso. Esses recortes são construções históricas. As diferentes sociedades nunca deram lá muita bola para essa fase entre a infância e a vida adulta. Atingiu a puberdade, que é basicamente o início da vida reprodutiva, já é em tese um adulto, pois já pode gerar prole, ou seja, é um adulto.
Outro exemplo: notem como a sigla GLS, que recortava o universo para além do macho/homem, mulher/fêmea, incluía apenas gays e lésbicas e posteriormente ela evoluiu para LGBTQIA+, incluindo agora outras classes de gêneros: bissexuais, transsexuais, queer, intersexuais e assexuais.
No final das contas, pensando aqui apenas do meu ponto de vista, como um linguista preocupado em como os significados se estabelecem socialmente, e se criam, se modificam também na cultura e na história, muitas vezes as discussões sobre esse tema na sociedade deixam de perceber o nosso papel coletivo nessa construção, como se tivesse de haver uma correspondência clara e inequívoca entre e a realidade, as coisas, e as palavras. A forma como as diferentes línguas nomeiam e recortam a realidade, a nossa constante necessidade de criar novos nomes ou repensar antigos usos das palavras só ilustra como a questão é mais complexa do que se imagina.