MEMORIA E DISCURSO

O discurso teológico e a teologia do domínio na extrema direita contemporânea (II) *

Como enfatizamos no artigo (I), o discurso teológico do domínio, traz consigo uma força imaginária que está em ação na política brasileira contemporânea. Porém, é importante levar em consideração as observações dos professores Mayra Goulart do Departamento de Ciência Política da UFRJ e Paulo Gracino do Departamento de Sociologia da UnB, os pesquisadores, afirmam que: ”O bolsonarismo não é apenas religião. Ele também é o produto da junção de diferentes segmentos da direita tradicional”. Compreender essa simbiose conjuntural, que mistura pautas morais e pautas anticivilizatórias, nos leva a uma necessidade mais ampla de releitura histórica e social para compreender em que consiste, especificamente, a teologia do domínio.

O professor Fabio Py, em 2020, já alertava a forma estratégica que era pensada a figura de Bolsonaro, sua projeção tinha como pano de fundo o conceito teológico de “eleito”, um enviado de Deus: “Todas aparições milimetricamente pensadas para mostrá-lo como presidente seguidor de Jesus em um país proeminentemente cristão. Tais atitudes demonstram que existem dois vetores formativos desse cristofascismo de Bolsonaro. Um, tramado pelos líderes das grandes corporações cristãs. O outro, se estabelece na forma como o presidente expressa esse cristianismo autoritário. Com os dois vetores, alimenta sua hegemonia governamental com um conjunto de práticas teológicas e doutrinas com as quais sustenta sua “teologia do poder” (C. Schmidt) (…) Assim a doutrina da eleição foi atualizada sobre uma figura política do presidente genocida fornecendo a ele munições teológicas poderosas. Pois se Bolsonaro é eleito de Deus logo não cabe a homens e mulheres questionarem. Isso porque para os cristãos, os desígnios de Deus não podem ser discutidos, problematizados. Eles são anteriores a qualquer razão humana. Logo, primados de uma sabedoria maior”. Justamente nessa visão fundamentalista da religião que empodera a possibilidade de uma Teologia do domínio se tornar cada vez mais presente no fazer da política brasileira, principalmente tornando-se “arma” de atração e domínio desde a extrema direita. Tarcísio de Freitas, Michelle Bolsonaro e Silas Malafaia, estão nesse processo de construção imaginária de olho na eleição de 2026.
Brenda Carranza doutora em Ciências Sociais, nos ajuda a compreender e situar o aparecimento e a expansão da Teologia do domínio e suas raízes e finalidades dentro da política: “Para a teologia do domínio, os cristãos devem sair do apoliticismo e ocupar ativamente os espaços políticos, porque se não o fizerem, a contracultura, o comunismo e tudo o que atenta contra a religião se instalará no poder. Ao mesmo tempo, junto com o avanço da sociedade de consumo e dos meios de comunicação, emerge a teologia da prosperidade: não é tão ruim desfrutar do consumo; os costumes não podem ser tão rígidos em questões econômicas e comerciais; se Deus nos dá a possibilidade de viver bem, por que não fazê-lo? (…) Por outro lado, a ideia da batalha espiritual traz outro componente a essas concepções: os crentes devem enfrentar e perseguir todos aqueles que são contra a religião, todos aqueles que podem representar uma ameaça aos princípios cristãos. Essas teologias, que nascem nos anos setenta e oitenta, são implantadas naturalmente na direita estadunidense e seus líderes começam a ser rapidamente abraçados pelo Partido Republicano. De lá chegam missionários para a América Latina, com a ideia de que o pentecostalismo local deve ocupar espaços na política, porque, de alguma forma, acreditam, o cristianismo está em perigo”. É justamente, como já enfatizamos, essa visão teológica fundamentalista que torna a teologia do domínio atraente no campo religioso e que as igrejas evangélicas neopentecostais capturaram como forma de controle dentro do processo religioso que flerta com o anticivilizatório.
Nessa ceara interpretativa, Carranza aponta as causas e crescimento em que esta enraizada a teologia do domínio, neste sentido a pesquisadora, destaca que: “O radicalismo religioso encontra-se com o radicalismo político. O que aconteceu no cristianismo latino-americano nas décadas de 1970, 1980 e 1990 na forma de um cristianismo progressista, com recorte ideológico de esquerda, causa desconforto no pentecostalismo, pois levanta algumas bandeiras que vão contra costumes e princípios que eles consideram imutáveis. Algo semelhante acontece no Brasil. Assim como os evangélicos estão se fortalecendo por meio de sua bancada política, composta principalmente por pentecostais e neopentecostais, durante os governos petistas [2003-2016] também se fortalecem as demandas das minorias, que passam a ter representação nas comissões do Congresso e, paralelamente, a promover a discussão de sua agenda na sociedade toda”.
Carranza, ainda, descreve o lobby político e sua forma de relacionamento com as denominações desde o poder. Segundo a cientista social: “Devemos ter memória histórica. O lobby religioso responde a modelos históricos de relações com o poder. O modelo católico sempre foi um modelo cara a cara, em que os políticos vão à missa, depois tomam café com os bispos e a partir daí fazem negócios. São os políticos que vão à sacristia. Quando entra em cena o modelo pentecostal, as estratégias e os mecanismos são os do jogo político democrático. Os pastores e os fiéis se apresentam às eleições, vencem-nas, vão às comissões parlamentares e entram na dinâmica interna do Poder Legislativo. E aí o lobby político é típico do próprio modo de funcionamento dos parlamentos e das instituições como os conhecemos: o toma lá, dá cá, a troca de favores. No final das contas, em trocas desse tipo, que pouco ou nada têm a ver com direitos ou com os mecanismos democráticos de representação, cozinham-se muitas coisas”.
Neste ano de contenda eleitoral, em que o discurso religioso volta com força na arena política, é preciso a esquerda e a centro direita democrática começar a pensar a criar espaço de aproximação com grupos religiosos mais próximo da extrema direita, abrir espaço de diálogo e aproximação. A esquerda, principalmente, precisa rever seus princípios dogmáticos partidário e voltar suas estratégias eleitorais ao público religioso mais conservador. Neste sentido, Brenda Carranza, traça um roteiro interessante a ser observado: “É preciso ter em mente que o setor evangélico não é homogêneo. A plataforma de Bolsonaro agrada certos setores, mas não abrange todos. Agora, dentro do evangelismo e dos setores religiosos em geral, alguns dos quais também podem ser de esquerda, o tema do aborto é muito sensível, muito mais do que os direitos das minorias, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a homossexualidade. Que o digam os analistas, mas acho que pode ser uma afirmação desnecessária diante de um fenômeno maior: a ascensão da extrema direita no mundo. Este é o país das tempestades, então isso faz muito barulho e atinge fortemente os conservadores. (…) o voto religioso sempre tende a ser conservador. Mas não podemos nos guiar apenas por movimentos institucionais: quem apoia quem, o que o Congresso apoia, o que a bancada evangélica apoia. Essa é uma parte, mas temos que estar muito atentos ao que se discute nas bases religiosas, nas quais há uma polarização muito grande. O voto religioso pode ser decisivo e estar relacionado a uma ideia de moralidade”.
Sem dúvida, a política transita atualmente entro o discurso religioso e a postura moralista imposta e alimentada por uma visão conservadora e retrógada das ideias cristãs de índole medieval, que devagar vão corroendo e enfraquecendo a democracia. Por um lado, os movimentos religiosos de cunho conservador desde diversos setores do catolicismo e perpassando pelas igrejas evangélicas neopentecostais, insistem no saudosismo de cunho moralista, e por outro lado, principalmente desde o discurso de uma grande maioria de igrejas pentecostais, já assumidamente de cunho fascista, tem mostrado uma face ainda menos tolerante, principalmente, com grupos minoritários.
O cristianismo como religião, para os movimentos de cunho fascista, renunciou à sua vocação libertadora e tornou-se uma religião de índole obsessiva e doentia coletivamente. Ainda, é importante ressaltar, que a teologia do domínio, traz consigo uma voz conservadora e autoritária, que busca combater tudo o que “perverte ao ser humano”, não se importando com a ideia do livre arbítrio. O que realmente preocupa ou deveria preocupar a população em geral nesse cenário discursivo, esse “cristianismo supérfluo, falso, doentio” recortado pelo discurso conservador da extrema direita, silencia realidades dolorosas como problemas sociais, muitas vezes quase invisível como: a fome, a violência contra as mulheres, o racismo, a intolerância religiosa, etc. Esse discurso conservador da extrema direita, que contaminou uma parcela importante de católicos e evangélicos, não gera espaço para debates sobre problemas reais e dívidas históricas que a política contemporânea precisa pôr em pautas. Assim, a teologia do domínio, demonstra um profundo desprezo pelos direitos humanos, demonstrando um profundo desprezo por temas centrais da teologia cristã (as bem-aventuranças). Nessa arena discursiva do fundamentalismo religioso, gerado pela extrema direita, parece que as questões de cunho moral serão a única pauta e o único caminho para restabelecer a “normalidade” à humanidade. A extrema direita, insiste nas ideias moralistas como arma, pauta e propaganda em sua cruzada anticivilizatória. O perigo dessas ideias fundamentalistas, não é imaginário. O perigo é real, e está muito perto de todos nós. Até a próxima!
*As referências e citações contidas neste artigo encontram-se na página: https://www.ihu.unisinos.br/

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