MEMORIA E DISCURSO
Eleições municipais: votar pela civilização ou a barbárie?

No próximo dia 5 de outubro, as urnas será o palco em que os cidadãos escolherão seus representantes para prefeitos e vereadores nos 5.570 municípios brasileiros. Porém, o que estará em jogo nas eleições municipais vai muito mais além de uma simple eleição, será o palco em que entrará em confronto à civilização contra à barbárie. Para o Jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC), Gilberto Maringoni, numa recente entrevista que concedeu ao IHU-UNISINOS fez um balanço interessante do momento político atual. Vejamos alguns pontos.
. Na análise do jornalista, não existe extrema-direita moderada, e descreve situações concretas: “ O bolsonarismo trabalha muito com a questão da tensão e da violência. Não existe extrema-direita moderada, ela sempre vai para o extremo. Vemos o mesmo no fascismo na Itália, no nazismo na Alemanha e no bolsonarismo. A exaltação às armas e ao resolver as coisas eliminando o que eles veem como inimigo, faz com que a tensão que eles imprimam aos seus seguidores seja mobilizadora; isso gera engajamento. Assim, as pessoas vão para o extremo, xingam, desqualificam e têm que eliminar o outro; o que provoca engajamento. (…) A extrema-direita consegue colocar móveis muito palpáveis para a mobilização. O governo Lula é um governo de centro ou centro-direita.”.
Uma das características mais notório da extrema direita consiste em atacar direitos individuais e coletivos, segundo Maringoni “O discurso da Michelle Bolsonaro na Paulista é basicamente um discurso contra o estado laico, é muito mais do que costumes, é muito mais do que falar que o povo cristão é isso ou aquilo. Ele ataca uma das bases da República – quando eu falo bases da República, eu não estou usando retórica. A primeira Constituição da República, em 1891, ou seja, dois anos depois da Proclamação, colocava explicitamente a separação entre Igreja e Estado, a proibição de financiamento por parte do estado a templos e a igrejas a de qualquer tipo – ela faz esse ataque. O ataque aos direitos reprodutivos da mulher é um ataque aos direitos, não é uma questão de ataques a comportamentos. O ataque à comunidade LGBTQIA+ é um ataque a direitos. O discurso racista que o Bolsonaro exibiu na campanha e depois, de maneira velada ou não, vai aparecendo aqui e ali durante o seu mandato, é um ataque a direitos. Então, nessas questões que são de cunho democrático, tem uma grande diferença”.
Outra características da política contemporânea, consiste na polarização política é ideológico presente na política brasileira, Maringoni, ressalta: “A história de que existe uma polarização na sociedade brasileira – esse é o grande problema da sociedade – precisa ser examinado com muito cuidado. (…) A polarização está muito mais na superfície e acaba gerando, como existe uma contraposição, bolsonarismo versus lulismo – isso existe – e se ela é na superfície, a consequência dessa situação é a seguinte: quando tem uma polarização política, há uma posição sobre política econômica. Há a pretensão de uma posição mais expansiva, de aumento do investimento e do gasto público para possibilitar crescimento da economia. (..) Já em uma posição contrária, de mais austeridade para impedir a expansão dos gastos, dá para discutir e perceber numa racionalidade do debate, que um dos lados tem razão em uma série de pontos que outro pode divergir. Um lado pode incorporar as concepções e talvez ambos tenham a mesma sensação, sendo possível chegar a algum tipo de entendimento na política econômica ou na política dos militares. A política é feita disto, de entendimentos e possibilidades dentro do debate. (…) Agora, a polarização de grupos que estamos vendo agora, meramente eleitoral, tornou-se quase como uma briga de torcidas. E a briga entre torcidas não é algo da política, é algo que vem da adesão ao líder, da simpatia que eu tenho com determinado grupo de pessoas ou partido, e ela não permite mediação. A briga de torcida, assim como a briga de torcida real no estádio de futebol, começa com a briga de torcidas civilizada, parte para agressão verbal e vai para a violência no limite. Para essa polarização despolitizada não existe mediação, ela pressupõe a violência.”.
Para o professor Maringoni, o Lula III está mais à direita: “Do lado do lulismo, essa diretriz do Lula – de não incentivar nenhuma comemoração dos 60 anos do golpe [de 1964], mas também tentar impedir qualquer crítica – é um recuo brutal. Se formos pensar, o Lula se coloca à direita do Ulisses Guimarães na aprovação, depois da sanção da constituinte, em que ele faz aquele histórico discurso, em que disse ter ódio e nojo da ditadura; Lula está muito à direita disso. O Lula está à direita da Dilma e à direita do próprio Lula, em várias manifestações democráticas ao longo da sua carreira. Por que isso acontece? Por uma percepção do governo de que a situação precisa ser pacificada com as Forças Armadas. E a maneira com que se vê para pacificar não é de enfrentar o problema, mas de cobri-lo para colocá-lo embaixo do tapete; há um recuo nisso. Há um recuo no programa econômico do Lula.”.
. Nesse contexto descrito pelo professor Maringoni, torna-se fundamental não fixar a analise somente na conjuntura política alimentada pela polarização. É preciso, ir além da aparência e pensar à política atual de forma mais ampla. Existe evidentemente uma “pulverização ideológica e política” que propõe, por um lado civilização (lulismo), e, por outro lado, a potencialização da barbárie (bolsonarismo). Certamente, não somente o lulismo e o bolsonarismo estão nessa disputa. Pensar somente desde a perspectivas dessas duas “caixinhas”, dificultará a possibilidade de perceber a totalidade da realidade e a dinâmica do jogo político. É preciso e urgente compreender que a ideologia neoliberal, pulverizou e ampliou o distanciamento das decisões políticas da participação popular.
O que existe atualmente no Brasil, é uma forma de fazer política mais elitista, mais corporativista e menos popular. Isso, é possível ser percebido na conformação dos grupos políticos que movidos pela necessidade de sobrevivência, buscam desesperadamente envolver-se em uma espécie de pragmatismo corporativo e utilitarista. A próxima contenda eleitoral (eleições municipais em Outubro), certamente, demonstrará a existência dessa “pulverização ideológica mais ampla”. É preciso, ficar atento a este movimento de índole pragmático e dinâmico que propõe o jogo político contemporâneo. Torna-se imperioso perceber que as ideologias já não sustentam o fazer política na atualidade. A ideologia, é somente um elemento da dinâmica política. Nesse sentido, a esquerda, ainda não assimilou a mudança existente na forma de fazer política no contemporâneo. Duas ou três décadas atrás, era impossível cogitar uma junção entre direita e esquerda, hoje, é impossível fazer política distanciando-se daquilo que era o oposto. A sociedade liquida implodiu à política contemporânea, exigindo mais pragmatismo e mais flexibilidade dos atores políticos.
O grande desafio da democracia contemporânea, é a extrema-direita (ainda que as últimas derrotas da extrema direita na França e na Inglaterra, tem dado um sinal de esperança. Porém, a derrota derradeira da extrema direita precisa se concretizar nos Estados Unidos em novembro), perante essa conjuntura geopolítica, voltamos a insistir sobre a necessidade urgente para que à classe política democrática da esquerda e da centro direita, compreendam que o distanciamento entre ambos, dará lugar ao fortalecimento da extrema direita nos municípios brasileiros com mira a eleição geral de 2026. Se a direita e a esquerda democrática, demonstram maturidade e união, o resultado será o fortalecimento das instituições democráticas. Pelo contrário, a extrema direita, surfará na “pulverização ideológica e política”. A conjuntura política contemporânea, exige bom senso, leituras estratégicas preventivas e uma gigantesca capacidade de humildade dos líderes políticos que acreditam e defendem o sistema democrático. Pelo contrário, se a esquerda e a direita democrática se fragmentam nos grandes, meios e pequenos municípios, provavelmente, a extrema direita, se fortalecerá e expandirá suas raízes maléficas de autoritarismo e barbárie.
Os partidos políticos e suas lideranças que defendem ou dizem defender à democracia, precisam assumir suas responsabilidades perante os perigos que a política contemporânea nos apresenta: a volta da brutalidade como processo civilizatório e que devagar e perigosamente está se fortalecendo no imaginário popular que defende a extrema direita. Pelo contrário, esses mesmos partidos políticos que se denominam defensores da democracia deverão enfrentar a memória e o clivo da história, já que a mesma história, os julgarão no futuro, como aqueles que pensando somente em seus interesses mesquinhos ou em si mesmo, ou simplesmente no seu grupo de poder, esqueceram de defender o povo perante o perigo nefasto do projeto de poder anticivilizatorio, que de forma antiético, imoral e perversa representam a presença e o uso dos conceitos: deus, pátria, familia e liberdade na política contemporânea.
A entrevista na integra pode ser encontrado em: https://www.ihu.unisinos.br/637800-a-precarizacao-do-mundo-do-trabalho-e-o-terreno-onde-se-fertiliza-o-fascismo-entrevista-especial-com-gilberto-maringoni