Não julgue, só tente entender, se puder. Se não entender na primeira, leia de novo, a escrita é curtinha.
Sendo da burguesia ou proletariado, ninguém poderá se julgar livre de um caso deste naipe.
Um pai, ah coitado! Andava desgostoso com seu filho, que ainda virgem de tudo fora pego em flagrante pela sua mãe tocando uma siririca, enquanto “bombiava” pela fresta de uma parede a tanajura vizinha, que lavava roupas em uma tina. Triste, aquele pai campeava o seu filho que tivera um novo sumiço. Desconfiava, que ele mais uma vez tinha aprontado das suas e com medo se escondia. Tentando achar o piazão, aos gritos, aquele pai o procurava por todos os cantos:
- Onde você está filho meu? Por quê te escondes? Que cagada fizeste desta vez, que estás com tanto medo e colocou o rabo entre as pernas?
- Uma mulher que conheci na zona me passou a conversa e me deu o seu fruto proibido, e eu cheguei a me babar de tanto comer. Comemos demais, e agora ela ficou com uma congestão e está pançuda de mim – respondeu o jovem, escondido.
Só em ouvir a palavra zona, o pai amoleceu os cambitos.
Querendo colocar em pratos limpos aquela história o pai saiu na cata da fulana. Encontrando-a, cara a cara, ele quase partiu deste chão. Desesperado perguntou:
O que foi que tu fizeste com meu filho?
Ela respondeu:
- A cobra dele me enganou, eu engoli bastante ela e, olha agora no que deu!
Com aquela pança enorme, só podia dar naquilo. Gêmeos.
E, mais uma vez, que não seria a última neste mundo, papais e mamães sustentariam as crianças de um filho.
A dúvida para uma vida inteira, ficaria. Quem seria o papai das crianças, pois naquela noite na zona, antes do jovem filho, aquele pai tinha comido muito o fruto proibido daquela que seria sua futura nora.
Chuteira do amor
A contenda corria bonita. Aquele beque parecia desfilar dentro das quatro linhas. Seu toque no balão era de uma lindeza que deixaria inveja em qualquer craque da atualidade. Ele parecia que acariciava a peca. A bola adormecia no seu pé como num colo de mãe. Pela elegância com que desfilava no tapete verde era apelidado de Divina Dama.
O prélio era no relvado do Cruzeiro do Iguaçu, pela Taça Paraná de Futebol. Em um lance em que o beque fora apanhar o balão que saíra à lateral, uma voz saiu da torcida apinhada no alambrado:
Você é lindo de todo. Quero passar as mãos nestas canetas grossas e peludas.
Olhando para aquela massa de torcedores o beque encontrou a autora da frase, uma moça, linda de morrer. Fitando-a, lhe respondeu, no ato:
- Eu deixo, mas quero um beijo seu.
Ela falou:
- Somente se você me dar um pé da tua chuteira branca.
E, ficou por aquilo o diálogo. O cotejo terminou e o beque foi lavar as partes no vestiário.
Pronto para voltar para a morada, caminhando para o seu opala amarelo, surpreso ficou, quando vislumbrou a moça bonita encostada no seu possante. Iniciaram uma prosa longa. Prometeram um dia se encontrar. Ela tinha o nome de Inácia e era de Francisco Beltrão. Ele se chamava Abaltazar e morava na localidade chamada de Piolho. Sorrindo, ela exigiu que ele lhe desse um pé da sua chuteira branca, pois aí teria a certeza que ele a iria ver na sua cidade. Dando um beijo na bochecha dele, ela se despediu levando o pé direito da chanca. Ele foi para casa com um peso na consciência. Sua esposa o esperava no portão e, como sempre, pelo adiantado da hora em chegar em casa, as discussões foram na base de berreiros.
E, naquela semana seguinte, diariamente, após a lida, o opalão do beque, em alta velocidade, percorria, em ida e volta, os oitenta quilômetros até a cidade cortada pelo Rio Marrecas, para na surdina – ela também era compromissada – se deliciarem em carícias. O casamento dela e dele, que já estava por um fio, arrebentou de vez, separaram os trapos com os conviventes.
Aquela louca e fogosa paixão era jurada, para sempre. Mas, como o para sempre, um dia acaba, aquela ardorosa paixão repentina, acabaria também, velozmente. Na sexta-feira, 13 de agosto, com um pressentimento amargo, com o seu amarelão quase voando como querendo ganhar da velocidade da luz, por aquele asfalto esburacado ele foi vê-la e, não mais a encontrou. Ficou desesperado. Viu o mundo desandar sobre si. Perdeu o chão. Nunca mais a viu e não teve nenhuma informação sobre ela. Como se fosse uma fumaça, ela desaparecera do mapa. Ele sofreu, sofreu e sofreu. Comeu o pão que o dianho amassou para curar a dor daquela paixão, que para ele tinha virado um baita amor.
Vida reconstituída, meio século se passara. Na capital paranaense, naquele domingo, pelo Certame Brasileiro, os esquadrões do Furacão da Baixada e do Trem Bala da Colina, peleariam. O agora ex-beque, acompanhado de três netos chegava na Arena atleticana para se ajeitarem nas cadeiras. O estádio estava tomado.
Vindo em sentido contrário, uma senhora acompanhada com duas meninas e um guri deram de frente com eles. Vistas nas vistas, ele reconheceu na rapidez aquele olhar nunca esquecido, ela também. Ele amoleceu o garrão. Ela pareceu que ia finar. Recompostos, lentamente, foram se achegando, e sem conseguirem se conter, se abraçaram, e com as lágrimas grossas escorrendo também sobre os seus beiços, um beijo demorado foi trocado, abaixo da enorme salva de palmas dos torcedores que contemplaram aquela emoção.
Os netos e netas inquiriram a vó e o vô. A vó falou para o seu neto e netas, que aquele homem era o dono daquele pé de chuteira branca que tem lugar cativo sobre o seu bidê ao lado da cama. O vô confirmou para seus netos a história já contada para eles, que fora aquela mulher que tinha ficado com um pé da chuteira dele.