A escrita tem uma aura e um poder que ninguém é capaz de negar. Afinal, sabemos que escrever não é tarefa tão simples. Apesar de passarmos doze anos de nossas vidas na escola aprendendo a ler e a escrever, muitos saem de lá sem saber fazer isso direito. Há várias causas para isso, mas não é nisso que vou me deter. Quero tratar de um subproduto desse ensino precário da escrita na escola, que é o uso artificial das chamadas “palavras difíceis” e de arcaísmos, palavras que já deveriam estar aposentadas, mas que gostamos de trazer para o texto para dar a ele algum matiz de erudição.
Talvez por sermos uma nação que lê pouco, temos uma relação complicada com a escrita. Melhoramos muito nos últimos vinte anos nesse aspecto, mas o desempenho dos alunos dos níveis fundamental e médio não tem subido significativamente em testes internacionais. Nossos jovens leem pouco e mal, isto é, não sabem interpretar corretamente o que leem.
Temo que as ferramentas de inteligência artificial só virão a piorar esse cenário. Alunos usando-a para escrever, professores usando-a para corrigir… e o artesanato da escrita, a boa e velha caneta vermelha, a boa e velha reescrita, vão sendo aposentados.
Não duvido que nosso beletrismo seja derivado dessa insegurança, como se um vocábulo mais metido-a-besta pudesse compensar a falta de profundidade e clareza.
Não é raro ouvirmos alguém reclamando do juridiquês. O juridiquês, como qualquer linguagem técnica ou jargão profissional, é um mal necessário. Não é incomum que encontremos exemplares de textos jurídicos mal escritos, mas cujo uso exagerado de termos latinos e de vocabulário erudito ou arcaico pode fazer o leitor desatento achar que está diante de um texto profundo de compreensão apenas para os sábios iniciados naquele linguajar. Claro, expressões como data venia, habeas corpus, álibi, causa mortis, sine qua non etc. são por vezes necessárias, tanto que muitas delas já fazem parte do vocabulário comum de todos nós. Felizmente há movimentos dentro do próprio judiciário que defendem o uso de uma linguagem mais simples.
Caso similar acontece nas redações dos vestibulares e no ENEM. Outrossim, destarte, por conseguinte, consoante são algumas das conjunções facilmente encontráveis apenas nessas produções. Nessa situação especial de avaliação, o aluno acredita que poderá receber pontos extras por usar um vocabulário especial. Mas esse vocabulário de nada adianta se o texto apresentar outros problemas e essas palavras estiverem sendo usadas equivocadamente. O que me intriga é que essas conjunções saíram do vocabulário de jornalistas, escritores e autores de livros didáticos há muito, muito tempo. Então, por que cargas d’água jovens saindo dos bancos escolares julgam que seria de bom gosto usá-las num texto que avalia suas habilidades de escrita?
A escrita não deixa de ser um jogo de imagens. No caso do discurso técnico, seja o jurídico ou outro qualquer, o escritor quer mostrar que faz parte daquele círculo de especialistas, que é um “entendido”. O vocabulário, além de ser um recurso retórico, demonstra que o escritor sabe do que está falando. Algo parecido acontece quando a gente entra para um grupo social e logo incorpora o vocabulário e as gírias daquele grupo. Queremos (e precisamos!) pertencer. Usar as palavras certas mostra isso. Vai ver todo advogado quer ser meio Rui Barbosa.
Já no ENEM, ou nos vestibulares, o que está em jogo é a imagem que o estudante faz do avaliador. Na minha experiência como avaliador desse tipo de prova e como professor universitário que recebe todos os anos jovens recém saídos dos bancos escolares, o mau uso do vocabulário nunca é um problema isolado.
Quem escreve mal, comete diversos tipos de erros. Dos mais simples erros ortográficos, passando por pontuação, sintaxe, até a elaboração formal de períodos mais complexos e no uso incorreto de conectivos. Os erros e problemas costumam aparecer em blocos.
Quem escreve bem sabe que não precisa embelezar seu texto com uma palavra que deixaria Olavo Bilac orgulhoso, mas como alguns estudos apontam não é raro encontrar em boas redações exemplares de arcaísmos. Se o texto já é bom, usar um ‘destarte’, ou um ‘hodiernamente’ não vai fazer diferença na nota final. (Veja-se matéria publicada no G1 em 1/10/2024, ‘Redação do Enem ou “cover” de Machado de Assis’.)
Riqueza de vocabulário demonstra inteligência e repertório, certamente. Mas não mostramos inteligência por usar palavras difíceis, usamos palavras difíceis porque somos inteligentes e temos repertório.