MEMORIA E DISCURSO

Religião e política: uma mistura explosiva no século XXI

Superado os confrontos ideológicos e partidários, das eleições municipais, é preciso, voltar a olhar, para um tema que abarca além dos ethos sociais e políticos contemporâneos. Nos discursos políticos, para prefeitos e vereadores, o conceito ou palavra Deus, apareceu com frequência e de forma quase milagreira, e, em alguns casos, até de forma inescrupulosa e antiéticas por parte de muitos candidatos em muitos municípios brasileiros. O que fica constatado, é que política e religião é uma mistura explosiva no século XXI. Esta realidade está latente em todas as ideologias e tendências partidárias, mas de forma mais eloquente encontra-se no discurso da extrema direita, que de forma incisiva e com dosagem fundamentalista, incorporou em seu linguajar o conceito do sagrado, como amuleto de “depuração moral”.

Hoje, apresentamos neste artigo, a análise de dois intelectuais que observam a questão desde uma postura distante e diferente. O primeiro Ronaldo Bressane, escritor e jornalista, autor do romance Escalpo (Reformatório), entre outros, publicada por O Estado de S. Paulo, 09-09-2018, tece uma leitura desde o global para o particular. Já, o segundo, José de Souza Martins, sociólogo, que em 2012, já fazia uma análise da realidade política brasileira e alertava sobre os perigos da aproximação entre religião e política. Nosso desejo, desde esta singela coluna, consiste, que o leitor possa refletir, avaliar e fazer uma leitura abrangente da realidade religiosa e política e suas tramas, na atualidade.

  • Para Bressane, a disputa mercadológica da religião, dentro do fazer da política precisa ser observada com mais atenção. A ideia do monoteísmo é uma questão antiga que precisa ser compreendida desde uma memória histórica mais abrangente: “De fato, quando você olha os milhares de anos na história da espiritualidade humana, o conceito de deus único só esteve aí por uns 3 mil anos. A mente antiga simplesmente não conseguia abraçar a ideia de que um deus único poderia ser responsável pelo bem e pelo mal, pela escuridão e pela luz, pelo céu e pela terra. Fazia mais sentido um deus separado para cada um dos nossos diversos atributos – um deus para representar cada uma de nossas emoções. Isso não quer dizer que o conceito de deus único não tenha aparecido de tempos em tempos – no livro escrevo sobre as duas tentativas de estabelecer o monoteísmo no Egito e no Irã. Foi só como resultado da crise existencial da fé entre os antigos hebreus que a ideia de monoteísmo começou a lançar raízes na religião judaica – foi o resultado do que hoje se conhece do exílio babilônico em 586 a.C. Mesmo os cristãos primitivos – cuja vasta maioria era de romanos – também engoliam com dificuldade a ideia de deus único, e por isso eles desenvolveram a ideia de Trindade. O que mais importava não era a teologia do monoteísmo, mas suas práticas políticas. A identidade da Igreja, com seu único bispado em Roma, com a autoridade do Império Romano com seu imperador único, requeriam uma religião com um deus único. Hoje, o monoteísmo é a forma dominante da espiritualidade humana. Talvez seja por causa da história que acabei de traçar. De todo modo, é importante notar que a ideia de deus único é um conceito totalmente diverso do que aparenta ser.”.
  • O escritor e jornalista, ainda ressalta, a importância de compreender o entrelaçamento existente entre política e religião na história da humanidade, neste sentido, destaca que: “Se você acha que religião é uma experiência privada em que simplesmente um ser humano tem uma conexão com o divino, então não faz sentido misturar religião com política. O problema é que religião não é só isso. Religião é principalmente uma questão de identidade, muito mais do que de fé ou prática. Quando alguém diz “sou muçulmano” ou judeu ou cristão, está formulando tanto uma definição de sua fé quanto uma definição de sua identidade. Está falando sobre quem é, como vê o mundo, como compreende seu lugar nele. Em questão de identidade, religião é profundamente entrelaçada com todos os outros aspectos da identidade de uma pessoa: cultura, etnia, raça, gênero, orientação sexual, e, claro, orientação política. Então simplesmente não faz sentido divorciar religião da política. Fazer isso não é democrático. É obvio que podem haver problemas, especialmente uma vez que religião diz muito respeito a “mandamentos”, enquanto a política (pelo menos em teoria) supõe-se ser a respeito de compromissos. Mas, se o Estado oferecer liberdade de culto, então não se pode esperar que a religião se separe da política. De todo modo, é preciso assegurar proteções para aqueles que não compartilham da religião majoritária ou que não têm nenhuma religião”.
  • Para o autor do romance Escalpo (Reformatório), existe uma constante luta entre a ideia de politeísmo e monoteísmo na luta pela hegemonia religiosa. Neste sentido, o Brasil não está alheio desta realidade. Num mundo globalizado, o impacto da religião interfere de forma direta na vivencia política contemporânea, principalmente, na extrema direita global. Neste sentido, o escritor ressalta que: “O que você está vendo, não só no Brasil, mas também em outros países de maioria cristã, é uma revolta contra a profunda corrupção, manipulação e politização do cristianismo ao prejudicar quem não segue a fé cristã. Nos EUA, o cristianismo se tornou uma ferramenta do partido Republicano. Tornou-se um instrumento para separar as minorias do acesso aos direitos humanos, para proibir mulheres que sofrem e crianças refugiadas de receber asilo e ajuda, para afastar os mais pobres das políticas de bem-estar e acesso à saúde universal e outros serviços para os mais necessitados, e, em lugar disso, empodera a supremacia branca. Para muitas pessoas, incluindo cristãos, isto é uma traição de tudo o que Jesus pregou, e por isso muitos têm abandonado o cristianismo e procurado formas alternativas de espiritualidade. É exatamente o que vem acontecendo no Brasil. Não é só uma guerra entre monoteísmo e politeísmo. É uma batalha entre o establishment cristão e os que se sentiram abandonados pela igreja. É também uma tentativa de acobertar o que muitos acreditam ser uma espiritualidade mais autêntica, radicada no solo do Brasil, mais do que outras espiritualidades trazidas por estrangeiros e colonizadores.”.
  • O sociólogo José de Souza Martins, ao comentar a separação da Religião e do Estado estabelecida na Constituição de 1891, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, 01-07-2012, ressaltava que: “Um fantasma assombra a República desde a sua proclamação: a religião. Um outro fantasma assombra a religião desde que essa separação ocorreu: a República. De assombro em assombro, vamos recuando em relação aos valores democráticos, aqueles que asseguram as bases da consciência propriamente republicana, livre de pressupostos e constrangimentos estranhos à política. E também em relação aos valores propriamente religiosos, aqueles que pedem a paz do privado para o exercício ritual da fé, que é o âmbito da liberdade religiosa que a República assegurou. Religião deixou de ser um dever para ser um direito, livremente assumido. Essa é a diferença, que muitos não compreendem. Não ter religião já não é um defeito. Ter religião já não é, necessariamente, uma virtude”.
  • Para o sociólogo, “Os positivistas de 1889, já antes da Constituição de 1891, estabeleceram a separação entre o Estado e a Igreja. Na monarquia o próprio imperador nomeava os bispos e lhes pagava a côngrua, mandando prendê-los, se fosse o caso, como aconteceu na chamada Questão Religiosa. Da monarquia à República laica, foi um salto muito grande num país secularmente habituado à promiscuidade pré-moderna de política e religião. A separação do Estado em relação à Igreja, e a adoção do princípio de que o Estado não tem religião, de que o exercício da fé é livre e de que todas as religiões são toleradas, representou um imenso avanço no Brasil. A liberdade seria uma quimera se as pessoas não fossem livres para crer ou descrer e se não pudessem tomar decisões políticas, votar ou deixar de votar, em função unicamente dos ditames de sua consciência e de sua decisão racional. Os eleitos representam a consciência política dos cidadãos, não a sua consciência religiosa”.
  • Souza Martins, ainda, ressalta que: “Tudo seria compreensível num país atrasado como o Brasil, não fosse o avanço da ousadia não mais sobre as greis religiosas, mas agora também sobre o sagrado. Se as igrejas pretendiam afirmar sua identidade religiosa no plano político, mostrando força perante os candidatos e caíram na tentação do voto de cabresto, não se deram conta de que havia um preço a pagar. E o preço maior não era o voto, era a sutil invasão do sagrado pela política e pela politicagem (…) Infelizmente, estamos num progressivo recuo em relação a esse princípio fundante do nosso regime republicano. O neopopulismo brasileiro descobriu nas igrejas e nas religiões um verdadeiro curral de votos cativos, de gente crédula e dócil ao apelo eleitoreiro em suposto nome da fé. Não só os evangélicos têm sido assediados e não raro seduzidos pelas cantadas partidárias, mas também os católicos têm tido uma disponibilidade para a sedução que não é pequena.”.
  • O resultado eleitoral da eleição municipal, retrata, por sua vez, uma geografia perversa do discurso político alimentado pelo imaginário de um sagrado corrompido, um sagrado deslocado dos templos e da realidade. Por sua vez, esta realidade é inegável, quando percebemos que em muitos municípios não ganhou o candidato ou candidata, mais competente ou mais preparado para ser gestor municipal. O ópio do povo, o sagrado, continua a nutrir no campo político, a alma e o imaginário frágil dos cidadãos. Assim, a junção, política e religião, de certa forma alterou a linha do tempo em muitos municípios brasileiros, e ocupou de forma sombria o imaginário e a capacidade crítica do eleitor. Até a próxima!

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