NACO DE PROSA
A família que nunca fomos

O dia estava cinza, algumas gotas começaram a respingar na janela da sala. Não havia muito o que fazer em casa naquele momento, decidi sair antes que a chuva chegasse de vez.
A loja de venda de novos e usados ficava próxima da minha casa, resolvi ir até lá, sempre era possível encontrar algo que me agradasse por lá.
Abri a porta, a pequena sineta denunciou a minha entrada. Margot, uma senhora com seus 70 anos, cabelos grisalhos levantou seu rosto, ajeitou seus óculos para ver quem entrava. No instante em que me reconheceu abriu seu sorriso convidativo me oferecendo uma xícara de chá.
- Tome, menina, logo vai esfriar e não queremos ninguém gripado, certo?
Concordei tomando um bom gole, estava doce e morno, perfeito para uma tarde chuvosa. - O que traz você aqui hoje, além dessa tarde propícia para olhar antiguidades?
- Dona Margot, é isso mesmo, em casa a monotonia gritante me fez reagir, e cá estou.
- Fique à vontade, você sabe onde me encontrar se precisar de algo.
Entre prateleiras, cadeiras e mesas muitos livros, brinquedos, roupas, quadros, vinis, fitas em vhs, aparelhos que os jovens hoje não saberiam nem por onde começar a ligar.
Era um vislumbre para meus olhos que sempre buscavam em objetos do passado um alento para a saudade.
Entre um livro e um vinil, um par de olhos me olhava fixamente, afastei ambos objetos e me deparei com uma pequena foto, um pouco marrom, ou seria um tom sépia, talvez. Passei os dedos sobre aquela imagem, uma mulher com seus vinte e poucos anos, com um vestido e chapéu e um homem, um pouco mais velho, com barba, smoking e cartola. Um casal elegante, atrás deles uma casa de dois andares, e muitos hectares de terra. Uma aconchegante varanda, e nada mais.
Peguei a foto com delicadeza, não queria que ela se desfizesse entre meus dedos.
Virei com cuidado, minha avó dizia: sempre há mais informações no verso.
E ela tinha razão, mais uma vez. No verso daquela foto, um rabisco: “O primeiro passo para os nossos sonhos, com amor, Michael. Dezembro, 1940. ”
Dedução mais assertiva, Philip era o elegante senhor, que mandou a foto para a sua amada, talvez a compra recente da casa? - Senhora Margot! Por favor, a senhora sabe algo sobre esta foto, encontrei apenas ela, embaixo de alguns objetos.
No momento em que ela viu o que eu tinha em minhas mãos emudeceu, seu sorriso sempre tão presente, sumiu. - Onde estava essa foto? Indagou tirando ela das minhas mãos.
- Naquela mesa.
- Não, não. Que erro cometi. Esta foto não pertence a essa loja, nem pode estar aqui.
Amassou a foto e descartou na lixeira. Naquele momento não insisti, percebi que ela havia ficado um pouco aflita. Antes de ir, dei mais umas olhadas em volta, e saí da loja.
Eram quase sete horas da noite, a chuva continuava. Na tela em branco do computador, apenas o ponto de inserção de texto piscava me convidando para a escrita, mas naquele momento, minha cabeça estava naquela foto tão simples e tão enigmática ao mesmo tempo. Que segredo havia ali, e por que ela estava no “lugar errado”?
Na manhã seguinte, sai para comprar alimentos.
Quando ela me viu, acenou. Atravessei a rua. - Bom dia, dona Margot!
- Bom dia, minha filha. Hoje teremos sol, é sempre assim, um dia nublado, outro de brilho e cores.
- É verdade.
Fiquei alguns segundos olhando para dentro da loja, como se eu fosse capaz com a minha visão de localizar a foto amassada. - O que você procura não está mais aqui.
- Eu só não entendi a sua reação, era uma simples foto.
Dona Margot tomou um bom gole de chá, suspirou e disse: - Nem sempre as coisas são apenas aquilo que estão mostrando ser. Principalmente uma foto, sempre há uma história, e não estou falando do rabisco do verso.
- Eu entendo se a senhora não quiser falar, mas aquele casal, tão elegante, aquela casa, a data, não tem como passar despercebido.
- Entendo, a sua curiosidade é válida. Mas acredite, há coisas que devemos deixar no passado, e nunca registrar.
Com certeza a minha expressão me entregou, pois, dona Margot entrou na loja, me convidando para ir com ela.
Passamos pelo balcão, ela repousou sua xícara ao lado de um livro de registros, ela apontou e disse: – veja o nome que aqui está registrado. - Michael Schmidt.
- Isso, o senhor da foto. E ela, Amanda Baum. Eles estavam noivos quando esta foto foi tirada. A casa, grande, dois andares, com sua linda varanda, não passam de ruínas hoje.
- Não estou entendendo.
- A guerra chegou. Amanda era judia. Michael era coronel do exército alemão. Aquela guerra destruiu não apenas cidades, estados, dizimando muitas vidas, mas interrompeu também os sonhos de Michael e Amanda. Ele tentou. Fez o possível para evitar o inevitável. Mas quando ele percebeu que o nome de Amanda estava na lista, ele se desesperou, como ajudar o amor da sua vida sem trair seu país?
Ele pegou o caderno com os nomes listados, fez o possível, o impossível, mas os soldados estavam sempre atentos. Nada passava por eles, e a última imagem de Michael, foi de sua Amanda sendo empurrada dentro de um vagão em um trem que sumiu na primeira curva. Após anos, ele teve informações de onde ela estava, na certeza de que ela estaria viva e bem, foi até lá. Vasculhou em cada canto, conversou com outras mulheres que lá estavam confinadas, e a última informação que ele teve, é que ela havia sumido, junto com seu bebê assim que ele nasceu. Ele não sabia que ela estava grávida, e naquele momento soube que nunca mais os encontraria. O desespero foi imenso, dizem por aí, que na época ele havia ficado louco, e andava dia e noite nas vielas chamando pela sua Amanda. Faleceu alguns anos depois, e esta foto estava dentro do seu bolso, antes de ser enterrado, uma alma caridosa, acredito, retirou-a do seu terno e ela veio, misteriosamente parar aqui.
Eu não sabia o que falar de tudo aquilo, que história! Tão real, tão pungente, tão dolorosa. Mas o que ainda não dava para entender da senhora diante da foto. - Meus avós esconderam Amanda por um bom tempo. Quando ela deu à luz, eles permitiram que ela fosse para a enfermaria. Uma complicação, algo assim, e por uma ação divina, conseguiram tirar Amanda de lá, com seu bebê, cuidaram deles, até o menino completar dez anos. Essa casa que você viu, se transformou em ruínas após ser usada como hospital improvisado pelo exército alemão. Amanda infelizmente, não resistiu a uma tuberculose, enfraquecia dia após dia, e não havia recursos. Meus avós registraram o filho de Amanda, como deles, que se tornaria meu pai futuramente. E é essa a história. E essa pequena foto, que não deveria mais existir, me traz muitas lembranças ruins. Não era para ter sido assim, não era para ter esse ódio todo, sabe? Eles estavam felizes, com planos e da noite para o dia, tudo acabou, tudo.
Ela olhou para frente, olhos marejados, ela sentia a dor que eles sentiram. A dor da separação, uma família que não pode existir.
Ela se abaixou, pegou a foto do lixo, desamassou. - Tome, você é escritora, talvez a motive em alguma ideia, algumas linhas.
Devolvi a foto para ela, agradecendo. - Algumas coisas, devem permanecer no passado, e nem mesmo serem registradas. São suas lembranças, não devem ser exploradas dessa forma. A foto deve ficar onde deve ficar.
Ela consentiu com a cabeça, abri a porta, a sineta tocou, lá fora, o céu brilhava, eu ainda ia passar na padaria para o meu desjejum.
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