MEMORIA E DISCURSO

O caminho satânico da religião (I): Censura e perseguição.

Faleceu o fundador da Teologia da Libertação, o padre Gustavo Gutiérrez. Ele sempre falou de Deus, dos pobres e oprimidos no seu trabalho teológico, por isso, foi perseguido e censurado pela teologia conservadora. Tive a honra de conhecê-lo na sala de aula da Universidade Santo Tomas de Aquino, quando cursava Teologia e Ciência das Religiões em Buenos Aires, no início do ano 2000. O fundador da teologia da libertação, expressava uma mistura de simplicidade e timidez na hora de falar. Homem de origem simples, encontrou na audácia da sua metodologia do fazer teológico, a brilhante oportunidade de voltar a fazer uma releitura desde a fonte verdadeira do cristianismo. Neste contexto amplo, a religião nem sempre segue o caminho da espiritualidade. Muitas vezes, a religião constrói caminho oposto da espiritualidade. E, ainda, a religião segue um caminho satânico, porque condena e rejeita aquilo que realmente conduz a uma verdadeira espiritualidade. Este foi o caso concreto, enfrentado pelo padre Gustavo Gutiérrez em vida. A teologia que ele construiu, desde a espiritualidade bíblica, a religião e a estrutura hierárquica, por sua vez, entendeu como um perigo a seus interesses corporativos, e Gutiérrez, foi perseguido, brutalmente, pela estrutura satânica da religião.
Em um recente artigo, Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, apresenta o caminho traçado e construído pelo fundador da Teologia da Libertação (TdL). Apresentaremos algumas reflexões.

  • Segundo Teixeira: “Na visão de Gustavo Gutiérrez, não há como entender a teologia senão como uma reflexão crítica, cujo primeiro momento não é teorético, mas testemunhal. Ele diz com razão que em primeiro lugar vem o compromisso com os outros, e em particular com os pobres e excluídos. Só em seguida vem a reflexão teológica, entendida como o “grito articulado dos pobres” (…) . O papel fundamental exercido pela atenção à praxis histórica veio como desdobramento da redescoberta da dimensão escatológica. Segundo Gutiérrez, “se a história humana é, antes de tudo, abertura ao futuro, aparece como tarefa, como labor político; construindo-a o homem orienta-se e abre-se ao dom que dá sentido último à história”.
  • Para o professor Teixeira: “a visão teológica de Gustavo Gutiérrez relaciona-se com a sua percepção viva da unidade da história. Trata-se da retomada de um tema bem presente na teologia francesa pré-conciliar, ligada aos pensamentos de autores como Henri de Lubac, Y. Congar e D. Chenu. Podemos ainda acrescentar a novidadeira visão teológica de Karl Rahner. Foram os primeiros teólogos que balançaram o arcabouço barroco da teologia tradicional, que rompia com a dualidade entre o natural e o sobrenatural. (…). No rastro desses teólogos, Gustavo Gutiérrez enfatizou o fundamental vínculo que une o natural e o sobrenatural, a libertação e a salvação. A seu ver, “a história da salvação é a própria entranha da história humana”. Firma-se, assim, a ênfase na unidade do plano da salvação, que abraça e envolve a dinâmica histórica. Para Gutiérrez, “o devir histórico da humanidade deve ser definitivamente situado no horizonte salvífico”.
  • Na construção da teologia de Gutiérrez, a prática da justiça é fundamental como locus do conhecimento de Deus. Sem a prática da justiça, não se revela o verdadeiro rosto de Deus. O Deus que Gutierrez pensa, é antes de tudo um Deus que exige a vivência plena da justiça, principalmente, e, a justiça para com os pobres e os oprimidos. Neste sentido, Faustino Teixeira, ressalta que: “Na perspectiva aberta por Gustavo Gutiérrez, o encontro verdadeiro com Deus se dá na história concreta. É outro traço distintivo da visão teológica de Gustavo Gutiérrez. Com base no pensamento do biblista G. Von Rad, ele relata que é na história que Deus revela o mistério de sua pessoa; é nela que se firma o espaço de nosso encontro com o Mistério Maior. A humanidade não vem destituída do aroma salvífico, mas é nela que se desvela o verdadeiro templo de Deus. (….) Se a história traduz o cenário da dinâmica salvífica, o conhecimento de Deus se opera através da prática das virtudes fundamentais, e em particular a prática da justiça. Com base no livro de Jeremias, Gutiérrez vai pontuar que o conhecimento de Deus está vinculado ao amor de Deus, e o acesso a tal conhecimento se dá mediante as obras de justiça. (…) Para Gutiérrez, “Conhecer a Javé, o que em linguagem bíblica quer dizer amar a Javé, é estabelecer relações justas entre os homens, é reconhecer o direito dos pobres. Através da justiça inter-humana é que se conhece o Deus da revelação bíblica. Quando esta não existe, Deus é ignorado, está ausente” (…). Não pode haver fé autêntica sem a realização de obras. O exercício da justiça e da solidariedade são passos fundamentais para a revelação do Deus da Vida. A caridade revela-se como presença viva do amor de Deus em nós. Um exemplo vivo dessa caridade política encontramos na parábola do bom samaritano (Lc 10, 29-37). Trata-se da parábola que desnuda para nós quem de fato é o nosso próximo. Na hermenêutica feita por Gutiérrez, foi com o gesto do samaritano que se deu o verdadeiro encontro com o outro. Ele acerca-se do ferido à beira do caminho não “por um frio cumprimento de obrigação religiosa, mas porque ´se lhe revolvem as entranhas`(…), porque seu amor por esse homem se faz carne nele”.
  • Em toda sua construção teológica, para Gustavo Gutiérrez Merino, a finalidade última era a construção de uma espiritualidade libertadora. Segundo o Professor Teixeira: “podemos indicar outra questão singular do pensamento de Gustavo Gutiérrez, já presente em seu livro inaugural sobre a Teologia da Libertação. Trata-se do tema da espiritualidade da libertação. O teólogo peruano anuncia o tema no capítulo 8, quando menciona a urgência da elaboração de uma espiritualidade da libertação. Estava naquela ocasião preocupado com a vida de oração pessoal e comunitária de tantos cristãos empenhados no processo de libertação. A convocação de Gutiérrez em favor de uma espiritualidade libertadora revelava sua preocupação em favor de um equilíbrio mais sadio entre ação e contemplação. (…) A espiritualidade é definida por Gutiérrez como “uma atitude vital, global e sintética” que informa toda a dinâmica da vida. Trata-se da presença do Espírito, que deve estar na base de qualquer iniciativa libertadora. A espiritualidade é “uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o evangelho. Maneira precisa de viver ´diante do Senhorem solidariedade com todos os homens, ´com o Senhor e diante dos homens”. E novamente a preocupação de um equilíbrio mais sadio para a militância: “Para muitos, o encontro com o Senhor, nessas condições, pode desaparecer em benefício do que ele próprio suscita e alimenta: o amor do homem. Amor que desconhecerá, então, toda a plenitude que encerra (…). Lá onde a opressão e a libertação do homem parecem esquecer a Deus – um Deus peneirado por nossa própria e grande indiferença ante essas questões – deve brotar a fé e a esperança naquele que vem arrancar pela raiz a injustiça e trazer, de forma irreversível, a libertação total” (….) Para Gutiérrez, o empenho em favor da libertação dos pobres envolve a busca de eficácia; no entanto, eficácia não exclui a espiritualidade, mas a pressupõe como um clima essencial para o trabalho libertador. Ela torna-se, assim, o “clima que invade e se instala em toda a busca de eficiência. É algo de mais fino e precioso do que o próprio equilíbrio a ser mantido entre dois aspectos importantes de uma mesma questão”. Essa consciência foi ocorrendo durante o próprio processo de inserção no mundo popular. O ponto essencial de partida se deu quando se compreendeu que “o encontro pleno e verdadeiro com o irmão exige que passemos pela experiência da gratuidade do amor de Deus”. A gratuidade é um poderoso antídoto contra a hybris totalitária, a desmesura, a síndrome de superioridade ética e a vontade de imposição sobre os outros. É algo que faculta a humildade fundamental e a disponibilidade serena para a acolhida e respeito do mundo do outro. Trata-se de uma experiência nuclear, que “confere ao processo humano sua total significação”.
    Finalmente, ainda lembro, como o Padre Gutiérrez, sempre insistia em formular questionamentos aos seus alunos na sala de aula na universidade. Um desses questionamentos forma parte da minha memória. Ele, questionava os alunos perguntando: “a quem – o aluno – desejava servir ou defender com o conhecimento adquirido: ao opressor ou ao oprimido? ”. E sempre, insistia, com um segundo questionamento aos discentes: “A tua fé cristã, é libertadora ou opressora? ”. Gutierrez, sempre será lembrado pela sua coragem e simplicidade. Sem dúvida, deixa um legado imenso, para continuar questionando as causas da penosa e a dura realidade da exploração dos pobres e dos marginalizados na América Latina. A TdL (Teologia da libertação), exige uma capacidade reflexiva ampla de todos os cristãos que desejam questionar as estruturas injustas construídas historicamente desde a religião. Ela, não realiza o fazer teológico desde um lugar de destaque ou de um status constituído, ela é independente, não segue um status quo definido por uma hierarquia ou um sistema definido. Assim a TdL, é uma teologia que incomoda e que busca, continuamente, realizar uma leitura realista da mensagem cristã. Neste sentido, o legado de Gutiérrez, ultrapassa a ideia de uma religião absoluta como fonte de verdade, aliás, a TdL não fica presa ao caminho opressor da religião. Ela, abre caminho para que desde a figura dos pobres, dos oprimidos, dos marginalizados pelos poderes, historicamente, constituídos da religião, se libertem e encontrem um espaço para refletir e questionar as causas da “naturalização” da pobreza e da opressão. Neste contexto, a característica mais específica da TdL é sua coragem em combater com força e realismo, a estrutura satânica que a religião construiu, historicamente, na sociedade em que vivemos. Aliás, a estrutura da religião cristã católica, precisa ser questionada, para que possa se libertar das amarras dos poderes em que esta viciada. Neste sentido, a TdL é a voz que clama no deserto da vida, em busca de libertação. Por isso, a TdL não trabalha sobre a égide da culpa, ela trabalha desde a égide da memória histórica resgatando e desconstruindo as estruturas sociais injustas construídas desde a religião. Resgatar a memória do verdadeiro cristianismo, será sempre a tarefa essencial da TdL. É preciso resgatar a memória e o lugar do verdadeiro cristianismo, este será o desafio fundamental da TdL desde seu primórdio. Sem essa tarefa específica, corremos o risco de continuar nutrindo e alimentando o caminho satânico da religião, que em muitos momentos da história tem trilhado e continua vivo no cristianismo.
    *O artigo citado encontra-se disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/645865-gustavo-gutierrez-o-resgate-de-uma-teologia-espiritual-artigo-de-faustino-teixeira

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