COISAS DA BOLA

A vida é uma aventura – conta o homem do capote preto e chapéu afundado na cabeça

Ainda jovem de tudo ele teria que abandonar o seu sonho de ser um chutador de bola profissional. Em um cotejo tinham lhe quebrado a canela. Sonhava em se recuperar logo. Ansiava por voltar aos gramados. Muitos diziam que ele já era como jogador de futebol. Mas, não perdeu a esperança. Se agarrou a tudo e a todos os santos. Rezas, promessas e muitos sacrifícios fez. De nada adiantou. Estava próximo de uma amputação.
Desanimado, com sua cadeira de rodas motorizada chegou em uma das passarelas ao lado da Ponte dos Arcos. Com a feição banhada em lágrimas, olhava aquelas águas descendo rapidamente no rio já saindo da caixa pelas chuvas abundantes da época. Pularia, nada lhe restava. Era muita dor, não só do corpo físico, mas do coração e da alma profunda. Daria cabo na sua existência.

Próximo de se pinchar nas águas, escutou alguém lhe cumprimentar e puxar prosa. Aquele desconhecido, vestido com um capote preto que ia além joelhos e com um chapéu afundado na cabeça lhe inspirou confiança. Abriu a guarda e travaram uma prosa de horas. A par da sofrência do jovem, aquele homem do capote preto lhe disse que ele tinha procurado a ajuda nos santos errados. Era para se apegar com o Padim Ciço. Era só oferecer uma paga, pedir com fé, que o atendimento viria, mas teria que cumprir o prometido, garantiu o capotudo. O jovem pediu com muita fé. Em poucos meses estava atuando em um palco verde como se nada lhe tivesse acontecido. Procurou o homem do capote preto para agradecer-lhe pela indicação do santo Padim. Nem sombra dele. Mas, teria que pagar o prometido. Na primeira deixa, rumou ao Nordeste, para os cantos do Ceará, no Juazeiro do Norte.

Em uma semana por aqueles cantos, conheceu uma jovem. Ficou cismado com ela, e ela com ele. Sentiram atração um pelo outro. Papearam. Se encontraram duas vezes. Confidenciou sua vida para ela. Ela só disse se chamar Nundia. No terceiro encontro, entre muitas trocas de afagos, nos fundos de um cemitério que ficava ao lado de uma pequena igreja, bem embaixo de uma árvore, quando a tarde caía, com uma febre de curiosidades ela viu ele abrir o fecho da braguilha e tirar o “bicho” para fora. Tiveram uma junção carnal. Pensou ele, que pelo sangue escorrido, ela deveria estar com o “boi”. No fim do ato, assustada com a sangueira ela saiu em uma correria e ele nunca mais a viu. Procurou-a como se procura uma agulha num palheiro. Nada, nem sombra dela. Promessa paga ao Padim, ele, então, rumou de volta para o Sul.

Por quarenta e um anos a vida lhe sorriu. Ele, cidadão respeitado, bem de bolso, viúvo, nunca teve filhos, sozinho no mundo, de vez em quando antes da hora do almoço tomava umas e outras no bar muito frequentado pelos amantes do futebol. Com o bar quase vazio, sentado em uma pequena mesa lá no fundo, lendo a última edição do Jornal Caiçara, ele recebeu a notícia do dono do bar, que um homem o estava procurando para uma prosa. Sorrindo, o dono do bar disse que o papo deveria ser importante, pois o fulano parecia ser um sósia seu.

Meu nome é igual ao seu, Bonifácio. Sou seu filho. Só vim lhe procurar porque prometi para minha mãe em seu leito de finação. Ela me fez ver, que você, se estivesse vivo ainda, mereceria saber. Não procuro o seu reconhecimento de pai. Tinha curiosidade em lhe conhecer. E, só estou lhe dando a notícia. Mesmo sentado, o chão pareceu lhe fugir. Recuperado, Bonifácio pai ouviu todo o relato do dito Bonifácio filho. Ele contou em detalhes como foi o encontro do presumido pai Bonifácio e sua mãe Nundia. A veracidade dos detalhes sobre a cópula embaixo da árvore no fundo do cemitério, do sangue escorrido pelas pernas, não por ela estar com o “boi”, mas porque foi deflorada, a primeira e única relação que teve com um homem, atestavam que o relatado não era mentiroso. Como se estivesse pregado na cadeira, estático ali, Bonifácio pai matutou demoradamente. Nunca tinha falado com ninguém sobre aquela aventura no Nordeste, muito menos com sua amada e finada esposa. Incrédulo, sensível e emotivo que ficara com a idade, chorou de balde. Ainda assim, um exame de DNA foi feito. Por ser desconfiado, o exame foi feito em dois laboratórios diferentes. Hoje em dia, pai e filho, focinho um do outro, são vistos por aí nos vários campos de futebol. Muitas vezes, atrás das goleiras enxergam a sombra do homem de capote preto e chapéu afundado na cabeça. Vendo os dois Bonifácios, ele parece escancarar um sorriso de contentamento.

A cabeça do porco

O esquadrão se chamava Pinguim. A turma se encontrava em um famoso bar no centro de Porto União. O time já estava afamado na região. Não só pelas peleadas dentro das quatro linhas. Fora também. Sua turma era boa de bola e de gole. Todos amigos de paletas, partilhavam alegrias e sacanagens, às muitas.
A excursão da hora seria para o meio Oeste catarinense, em Ibicaré. O busão, como sempre, apinhado. Sábado partiriam. Viagem de ida e volta, de noite. De dia, por lá, peleja e festanças.
Mais um triunfo, de goleada. Pós jogo, final da tarde e já boca da noite, naqueles cantos de Ibicaré, um torneio de truco era gritado. Mais um leitão no rolete fora assado para o jantar. Encheram a pança. O álcool dominava as cabeças. Alguém queria comer o miolo da cabeça do duroque. Ela tinha sumido. Deu sururu, mas ficou o dito pelo não contado. Dez da noite, hora de se despedir. Entre abraços e mais abraços de despedidas, a turma se acomodou no busão e, boas de volta.

 

Batuques e cantorias no retorno. Dentro da condução apareceu a cabeça do leitão. Fora feito uma sacanagem. Tinham roubado e colocado dentro da bolsa do arqueiro. Sujou de banha e graxa todos os seus apetrechos. Ele ficou possesso. Quem foi, quem foi? – Gritava e gritava, parecendo estar com o tinhoso no corpo. O motorista encostou o ônibus na beirada da rodovia, por azar, perto de um puteiro. O guarda-metas surrupiou as chaves do ônibus. Só devolvo se aparecer quem me fez a sacanagem, dizia aos brados. Gritos e mais gritos. Ninguém assumia a culpa. O ônibus palanqueado na costa da estrada. O goleiro pulou do busão, deu dois tiros para riba e se mandou. Foi para a casa das “damas da noite”. Mostrando o 22 bradava: – só fossem lá apanhar as chaves se aparecesse o autor.
O dia amanhecia, segunda-feira, todos dormindo nos bancos, menos dois, o Manchão e o Rolha, os autores da façanha. Foram os dois que tinham roubado a cabeça do porco e colocado na bolsa do golquíper. Se cagando de medo, eles tinham jurado segredo, cerraram os beiços.

O clima era de revolta quando o goleiro voltou da bocada. Ninguém ousou criticá-lo, afinal! Ele estava berrado. Cansado da furrupa, o guarda-metas entregou as chaves para o motorista. Com o trabalho da manhã perdido, lá pela uma da tarde deram o ar da graça na sua cidade. O acontecido ganhou asas, foi o comentário por semanas, mas aos poucos foi ficando no esquecimento, até ninguém mais se interessar em descobrir. Mas, tinha um quê! Quem fora o autor da sacanagem?

Por meio século seguiu a vida. Muitos daquele esquadrão que nem mais existe partiram para o outro lado da rua da existência. Os que ainda estão por aqui, ligados pela forte amizade, todo final do ano se reúnem para uma confraternização. Vem gente de todo canto deste país continente.

Alegres e com alguns goles a mais, muitas histórias são lembradas. E, a história da cabeça do porco veio a lume. Um vivente lembrou, e tentando pôr para fora aquele segredo, se livrar daquilo que ainda nos dias atuais o incomodava, com os olhos marejados, muito emocionado, confessou que foi um dos autores da sacanagem. Só contaria agora porque o coautor e o goleiro já foram embora há tempos.
Pedindo que o perdoassem pelo ato cometido, Rolha, em detalhes contou que ele e Manchão tinham roubado a cabeça do leitão e escondido na mala do goleiro. Rolha também contou que ele e o Manchão deram uma gorja para o assador para que ele não contasse para ninguém. Rolha disse mais, que o juramento entre ele e o Manchão, de boca cerrada, fora cumprido em vida. Completou, que agora, se sentia livre de um peso.

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