CONTEMPLANDO

Os adolescentes sempre foram difíceis?

Vou aproveitar o barulho em torno da mini série ‘Adolescência’ (Netflix, 2025) para dar meus cinquenta centavos de opinião sobre um dos temas ali discutidos. A obra se destaca não apenas pelos seus méritos artísticos (seja do ponto de vista audiovisual, seja do ponto de vista narrativo), mas também pela discussão que tem gerado na sociedade. O problema da violência nessa fase da vida não é novo, mas não deixarmos de nos assustar com ele é um bom sinal. Aliás, a violência faz parte da cultura do “ser masculino”, e os meninos aprendem desde cedo a serem violentos, a reagirem com violência a provocações ou a se envolverem em brincadeiras violentas. E a violência também fez durante muito tempo (e ainda faz) parte do educar. Demorou um bom tempo, mas a sociedade percebeu que bater nas crianças não é uma forma adequada de se ensinar valores.

Há diversas obras no cinema e na literatura que embora muitas vezes sejam chamadas de obras de “formação”, até onde entendo, tratam num certo sentido das dificuldades desse período da vida e do distanciamento dos adultos e dos jovens. Veja-se o filme ‘Os incompreendidos’ (F. Truffaut, 1959), ou os livros ‘Demian’ (H. Hesse, 1919) e ‘O apanhador no campo de centeio’ (J. D. Salinger, 1951), para citar alguns dos mais conhecidos. Nessas obras, também se destaca a distância e a incomunicabilidade dos jovens com os pais e professores. Em Demian, por exemplo, Emil Sinclair não consegue contar aos pais que está sendo assediado por um colega de escola. Prefere roubar a família a falar aos pais o que está lhe acontecendo.

Na cultura brasileira temos algumas obras que discutem esse tema. Talvez ‘Cidade de Deus’ (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) possa ser lido sob esse viés também como uma obra em que o destino das crianças e adolescentes é o crime e a violência num meio social em que ser violento e entrar para o crime é questão de sobrevivência.

No ‘Conto de Escola’ Machado de Assis nos traz um pré-adolescente (suponho eu, já que não se fala na idade do menino) que não gosta muito de ir para a escola. Pilar, o menino-narrador, tem a violência como sombra o tempo todo. As surras de vara de marmelo do pai quando ele mata aula; a palmatória do professor.E quando o colega Curvelo delata ao professor que Raimundo teria pagado a Pilar que lhe explicasse a lição (acarretando na punição por palmatória a Raimundo e Pilar), o menino fica contando os minutos para poder brigar com ele: “cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.”

Outra obra importante do séc. XIX é ‘O ateneu’ (Raul Pompéia, 1888). Sérgio, o narrador personagem, já adulto, relembra seus dias no colégio interno. Como é se de esperar, os professores são rígidos, os alunos travessos e rebeldes. O incêndio na escola, no fundo, é um tanto simbólico do que a escola foi durante muito tempo, um lugar de repressão e educação “moral”, muito mais do que intelectual. É um lugar que precisa ser reduzido a cinzas.

E do séc. XX, me recordo de ‘Meninão do caixote’ (João Antônio). No conto, lemos a história de um menino filho de uma costureira e de um caminhoneiro que se mostra um prodígio da sinuca. O pai viaja bastante, passa meses fora de casa. A mãe trabalha bastante e é quem fica responsável pela educação, e pelas surras sempre que o menino apronta alguma.O menino é “adotado” por Vitorino, um malandro que o ensina a jogar a dinheiro.

De uma forma ou outra, todas essas histórias mostram como os adultos estão ocupados demais para darem atenção às crianças e aos jovens. Não creio que seja apenas fruto do capitalismo. Criar filhos dá trabalho, toma tempo. Se durante boa parte da história era possível criar os filhos soltos em cidades pequenas ou nos arredores do bairro, hoje, as crianças já não crescem tão soltas assim na rua. Contudo, ao invés de estarem na rua, estão na frente da televisão, do computador ou do celular. Os pais não conseguem estar presentes o tempo todo, selecionar ou supervisionar o que é visto ou ouvido.

Talvez tenha um recorte de classe aí também, especialmente no caso brasileiro, e no caso de Adolescência. Na série, os pais são pessoas simples que trabalham bastante, têm pouco tempo para passar com os filhos, para conversar com eles, saber o que estão vendo, lendo, que tipo de problema estão passando na escola ou com os amigos. Para quem viu, ou quem não viu, notem que uma reclamação do filho do detetive de polícia é que o pai passa mais tempo trabalhando e na academia do que em casa.

Eu quero concluir dizendo que o problema da violência e das dificuldades de comunicação entre pais e filhos, ou entre professores e alunos, não é novo. Mas agora as crianças e adolescentes estão sujeitos à influência de ideias e indivíduos que se escondem sob identidades anônimas com a clara intenção de espalhar o ódio.

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