Enquanto organizo e manuseio minha coleção de selos, me pego a divagar sobre a sutil arte da comunicação manuscrita evocada por essas pequeninas peças de papel colorido. Não foi durante muito tempo, mas a verdade é que cheguei a receber e escrever algumas cartas. Aprendi as regras de sua confecção na escola. Fui convencido a buscar melhorar minha letra cursiva – até hoje uma catástrofe, aliás – com o argumento de que nada adianta escrever se o leitor não conseguir compreender o que foi escrito. Um dos princípios fundamentais de qualquer bom missivista sempre foi o cuidado com a elaboração de uma boa carta, com texto limpo, claro, educado, dotado de bom conteúdo. Escrever com pressa era um erro colossal, não pensar no destinatário, um pecado dos mais graves. Bem escrever sempre requereu tempo, cuidado, paciência. Aguardar por uma resposta, ainda mais tempo, cuidado e paciência.
Não gosto de rememorações saudosistas que sempre terminam com a fatídica constatação: “no meu tempo é que era bom! ” Primeiro porque essa conclusão geralmente não é verdadeira, referindo-se a coisas tão traumáticas quanto merthiolate que ardia mais que a eternidade no inferno e programas televisivos dominicais que representavam o maior incentivo então existente para não ligar a televisão no domingo. Segundo porque não se trata de julgar qual época é melhor – todas tem seus pontos positivos e negativos – mas sim de constatar diferenças e, a partir delas, propor reflexões. E, no que toca à comunicação em particular, uma volta mesmo que parcial ao mundo das cartas não faria nada mal. Algumas cartas representavam, por si só, uma declaração de carinho. Outras, redigidas em várias páginas e em grande profusão, ainda hoje são estudadas como fontes de algumas das maiores ideias que o gênero humano já produziu nas mais diversas áreas do conhecimento. Alguém realmente imagina, de posse de suas plenas faculdades mentais, o estudo das atuais baixarias nas redes sociais como fonte de qualquer ideia que preste em, digamos, cem anos? Convenhamos que, se for o caso, estaremos em muito maus lençóis.
Tampouco aplicativos de bate papo oferecem uma mídia de comunicação melhor. Foram pensados para trocas de mensagens curtas e práticas, coisa de não mais do que meia dúzia de palavras. “Você vem? ” “Vou! ”. Eis a conversa perfeita para um WhatsApp ou Facebook Messenger. Não inícios e términos de relacionamentos. Contratações e demissões. Conversas existenciais ou que tenham a ver com o estado emocional dos envolvidos. Como considerar um “eu te amo” escrito por alguém que você não está vendo? Ou interpretar um daqueles torturantes silêncios que se seguem, por vezes, a algumas das perguntas mais importantes que um ser humano pode conceber? Um lado coloca e empenha sua existência sentimental em uma mensagem artificialmente curta e recebe, em troca, o silêncio. Que representa?
ZygmuntBauman, o famoso pensador polonês, notabilizou-se pela formulação do conceito de liquidez das relações e sentimentos pós-modernos (por detestar esse termo, substituiu-o por “modernidade líquida”). Tal como os átomos dos elementos químicos no estado líquido, mais separados e em menor interação que aqueles constituintes dos elementos em estado sólido, as pessoas estariam imersas na imediatidade e rapidez, menos preocupadas com a longa duração e com as consequências a longo prazo de suas decisões. Não mais cartas e todo o seu necessário investimento temporal e emocional, mas curtas mensagens tão rápidas de escrever quanto fáceis de apagar. Nada que requeira tempo e concentração vale a pena, o antigo deve ser completamente eliminado em nome da última novidade. Não mais passado, raízes, histórias. Não mais selos para colecionar ou cartas antigas com suas belíssimas letras manuscritas para fazer rememorar. Na imediatidade absoluta dos tempos que correm, poucas coisas estão mais fora de lugar do que uma coleção de selos. Exatamente por isso, decidi iniciar a minha. Porque no meu tempo nem tudo, definitivamente, era melhor. O que não significa que prefiro o modo como são hoje. Fico, então, no limbo. Entre a solidez de um passado idealizado e a liquidez de um presente constatado, me deixo estar no magnetismo dos pensamentos insuficientemente formulados. E na curiosidade de pequeninos pedaços de papel colorido que hoje, para a imensa maioria dos seres humanos, simplesmente não dizem mais nada. Até breve!