PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Abolição
O dia 13 de maio oferece, todos os anos, a oportunidade de reflexão sobre uma das efemérides mais importantes da história do Brasil: a abolição da escravidão. Digo “uma das mais importantes”, mas bem poderia dizer “a mais importante”. De fato, é inaceitável que ainda hoje, quando caminhamos para completar o primeiro quarto do século XXI, seja dada tão pouca importância para um fato tão exemplarmente definidor desta nação e deste Estado. Que o movimento de defesa da identidade negra o tenha abandonado é compreensível, afinal estamos lidando com uma data tradicionalmente celebrada como aquela que marca a “graciosa concessão” da “liberdade” aos então escravizados “brasileiros”. Afirmação triplamente falsa, como será fácil demonstrar a seguir. Mas, com o campo das identidades, a História real, com “H” maiúsculo, pouco tem a contribuir, rapidamente transformada que é para o atendimento das necessidades mais imediatas da criação de histórias, com “h” minúsculo, que tendam a criar laços de solidariedade entre os membros de uma dada comunidade. Isso ocorre com todos os movimentos identitários, sem exceção. Inclusive com aqueles que insistem em apresentar o Brasil como o resultado pacífico e progressista da união harmoniosa das raças (sim, esse mito ainda usa extensamente o conceito “raça”) branca, índia e negra. A data que hoje se comemora, contudo (“comemoração”, aqui, em seu sentido estrito, de co memorar, ou seja, de lembrar junto), representa sempre uma oportunidade renovada de crítica e revisão desta construção intelectual tão prejudicial ao país. Não a desperdicemos, pois. Realizemos um exercício de reflexão sobre o tripé básico do mito abolicionista acima exposto, ponto por ponto.
Ainda hoje pela manhã, ao abrir o navegador de meu notebook para consultar a caixa de e-mails, me deparei com uma imagem reproduzida, à exaustão, pelos últimos 133 anos. Aquela que representa a princesa Isabel com pele negra, pintada meses após a assinatura da Lei Áurea e apresentada junto a uma legenda que a denominava “redentora”. Nascia assim o mito da liberdade concedida por uma princesa cristã, bondosa, preocupada com os escravizados e que, não se esqueça, em poucos anos deveria ocupar o trono brasileiro como a primeira imperatriz dos trópicos nos tempos modernos. Fazia sentido apresentá-la como digna de governar um país que, continuava o mito, ela modernizava, assim como seu pai, D. Pedro II, havia feito. A imagem de redenção cristã reconciliava a futura governante, ainda, com os recém-libertos, proporcionando-a sustentação política em uma sociedade que então, como agora, não lidava bem com a ideia de ser governada por uma mulher (tópico bastante abordado pela historiografia do período). O mito constituía a propaganda política perfeita, e foi bem sucedido em seus intentos. Em 1889, quando do golpe militar que instituiu a república no país, foram grupos armados de libertos os que tentaram resistir à derrubada da monarquia e ao exílio da família real, e eram os mais pobres os que mais lamentavam a sorte de D. Pedro II e Isabel. O problema é que, se contribuiu para salvar a vida dos governantes depostos – caso raro, é importante que se diga, no mundo ocidental pós-Revolução Francesa – a ideia da “concessão graciosa” simplesmente eliminou séculos de resistência, luta e organização dos escravizados em prol da própria libertação. Transformou-os em pouco mais do que objetos dóceis das políticas estatais, tanto para sua glória quanto para sua desgraça. Negou-lhes o protagonismo da luta por um futuro melhor. Diminuiu a importância da revolta dos Malês, ocorrida em Salvador, 1835, e que deixou toda a elite branca do país apavorada. De um quilombo dos Palmares, justamente lembrado nos meses de novembro. Entre tantas figuras incríveis que tanto fizeram pela abolição e que hoje, desgraçadamente, pouco são lembradas. Que dizer de Luís Gama, aquele que advogou sem formação para tal, e ainda assim conseguiu libertar mais de 500 escravizados apenas apresentando as contradições da legislação escravista imperial? O mito da redenção salvou as vidas da família real, mas condenou toda uma luta ao ostracismo. Merece, portanto, ser devidamente descontruído
E o que dizer da ideia segundo a qual os escravizados foram efetivamente libertados em 1888? O amigo leitor pode considerar que exagero ao dizer que não o foram, ao menos não completamente. Mas trata-se, garanto, de uma simples questão de definição. Serão livres aqueles que, subitamente privados de um determinado modo de sobrevivência (ainda que o mais brutal de todos, como o foi a escravidão) não receberam qualquer chance de inserção na sociedade que, poucos dias antes, os açoitava? Coloquemo-nos na situação daqueles que acordavam antes do sol, na manhã de 14 de maio. Que fazer? Não há mais violência, não há mais prisão, não há mais trabalhos forçados, e isso é motivo para festa (e, sim, os libertos festejaram. Muito). Mas, acabada a festa, descobriu-se rapidamente que também não havia mais comida, não havia mais onde dormir, não havia mais o que vestir. Indo à cidade, os libertos descobriram, desconsolados, que também não havia mais empregos, ocupados quase todos por imigrantes europeus brancos, entendidos pelos brasileiros como mais aptos a ensinar bons valores civilizacionais. Aqueles que ficaram na área rural descobriram, desesperados, que também não eram mais bem vindos nas fazendas, também tomadas por imigrantes. Que fazer? Vários simplesmente entraram nos matos, alguns encontraram-se com indígenas e outras comunidades marginalizadas, de cuja união originaram-se nossos conhecidos caboclos. Aqueles mesmos que, novamente deparados com o Estado que “libertara” seus antepassados, em 1912, receberam a notícia de que não eram mais senhores das terras em que sua família vivera por décadas. E que, resistindo, foram massacrados em nome do mesmo “progresso” que motivara a Lei Áurea de 1888. É possível dizer que aquele que não recebe oportunidades de inserção social ou, no limite, de sobrevivência, são realmente livres? É possível dizer que aqueles que são simplesmente jogados para a margem por um Estado preocupado apenas com acabar com a escravidão, mas não com libertar os negros, fazem parte da nacionalidade constituída por este mesmo Estado que, encontrando-os, no futuro, novamente contra eles praticam violências renovadas? Foram os libertos convertidos em “brasileiros”? Afinal de contas, quem são os brasileiros? Aqueles vinte e cinco mortos pela polícia nos morros cariocas, no início desta semana, eram “brasileiros”? Questões postas e renovadas, todos os anos, pela efeméride do 13 de maio, tão importante quanto menosprezada nos dias que correm, para prejuízo de toda a nação. Seja esta o que for. Até a próxima!
21 de maio de 2021 – Vitor Marcos Gregório
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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Carta
Enquanto organizo e manuseio minha coleção de selos, me pego a divagar sobre a sutil arte da comunicação manuscrita evocada por essas pequeninas peças de papel colorido. Não foi durante muito tempo, mas a verdade é que cheguei a receber e escrever algumas cartas. Aprendi as regras de sua confecção na escola. Fui convencido a buscar melhorar minha letra cursiva – até hoje uma catástrofe, aliás – com o argumento de que nada adianta escrever se o leitor não conseguir compreender o que foi escrito. Um dos princípios fundamentais de qualquer bom missivista sempre foi o cuidado com a elaboração de uma boa carta, com texto limpo, claro, educado, dotado de bom conteúdo. Escrever com pressa era um erro colossal, não pensar no destinatário, um pecado dos mais graves. Bem escrever sempre requereu tempo, cuidado, paciência. Aguardar por uma resposta, ainda mais tempo, cuidado e paciência.
Não gosto de rememorações saudosistas que sempre terminam com a fatídica constatação: “no meu tempo é que era bom! ” Primeiro porque essa conclusão geralmente não é verdadeira, referindo-se a coisas tão traumáticas quanto merthiolate que ardia mais que a eternidade no inferno e programas televisivos dominicais que representavam o maior incentivo então existente para não ligar a televisão no domingo. Segundo porque não se trata de julgar qual época é melhor – todas tem seus pontos positivos e negativos – mas sim de constatar diferenças e, a partir delas, propor reflexões. E, no que toca à comunicação em particular, uma volta mesmo que parcial ao mundo das cartas não faria nada mal. Algumas cartas representavam, por si só, uma declaração de carinho. Outras, redigidas em várias páginas e em grande profusão, ainda hoje são estudadas como fontes de algumas das maiores ideias que o gênero humano já produziu nas mais diversas áreas do conhecimento. Alguém realmente imagina, de posse de suas plenas faculdades mentais, o estudo das atuais baixarias nas redes sociais como fonte de qualquer ideia que preste em, digamos, cem anos? Convenhamos que, se for o caso, estaremos em muito maus lençóis.
Tampouco aplicativos de bate papo oferecem uma mídia de comunicação melhor. Foram pensados para trocas de mensagens curtas e práticas, coisa de não mais do que meia dúzia de palavras. “Você vem? ” “Vou! ”. Eis a conversa perfeita para um WhatsApp ou Facebook Messenger. Não inícios e términos de relacionamentos. Contratações e demissões. Conversas existenciais ou que tenham a ver com o estado emocional dos envolvidos. Como considerar um “eu te amo” escrito por alguém que você não está vendo? Ou interpretar um daqueles torturantes silêncios que se seguem, por vezes, a algumas das perguntas mais importantes que um ser humano pode conceber? Um lado coloca e empenha sua existência sentimental em uma mensagem artificialmente curta e recebe, em troca, o silêncio. Que representa?
ZygmuntBauman, o famoso pensador polonês, notabilizou-se pela formulação do conceito de liquidez das relações e sentimentos pós-modernos (por detestar esse termo, substituiu-o por “modernidade líquida”). Tal como os átomos dos elementos químicos no estado líquido, mais separados e em menor interação que aqueles constituintes dos elementos em estado sólido, as pessoas estariam imersas na imediatidade e rapidez, menos preocupadas com a longa duração e com as consequências a longo prazo de suas decisões. Não mais cartas e todo o seu necessário investimento temporal e emocional, mas curtas mensagens tão rápidas de escrever quanto fáceis de apagar. Nada que requeira tempo e concentração vale a pena, o antigo deve ser completamente eliminado em nome da última novidade. Não mais passado, raízes, histórias. Não mais selos para colecionar ou cartas antigas com suas belíssimas letras manuscritas para fazer rememorar. Na imediatidade absoluta dos tempos que correm, poucas coisas estão mais fora de lugar do que uma coleção de selos. Exatamente por isso, decidi iniciar a minha. Porque no meu tempo nem tudo, definitivamente, era melhor. O que não significa que prefiro o modo como são hoje. Fico, então, no limbo. Entre a solidez de um passado idealizado e a liquidez de um presente constatado, me deixo estar no magnetismo dos pensamentos insuficientemente formulados. E na curiosidade de pequeninos pedaços de papel colorido que hoje, para a imensa maioria dos seres humanos, simplesmente não dizem mais nada. Até breve!
PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
A volta da Maria Fumaça
Pelo segundo final de semana consecutivo, o apito silvou no vale do Iguaçu. Novamente temos uma locomotiva circulando pelos trilhos que, por décadas, foram a principal fonte de riqueza e o principal meio de acesso a Porto União da Vitória. Trilhos que respondem por alguns dos melhores capítulos de nossa história, e por aquele que marca uma das maiores catástrofes na trajetória da república brasileira. Trilhos que nos explicam quem somos e como chegamos até aqui. Trilhos sobre os quais não mais trafegam mercadorias ou passageiros em viagem, mas famílias interessadas em entrar em contato com suas próprias origens através das trajetórias dos antepassados que, décadas atrás, escolheram se estabelecer aqui. O acontecimento que estamos presenciando é histórico, como históricos são os elementos que o compõem.
A revigorada locomotiva Lima, fabricada em 1913 na cidade de mesmo nome localizada no estado de Ohio, Estados Unidos, nos convida a refletir sobre o momento que atravessamos em nível mundial. Produzida sob encomenda da Brazil Railway Company, de Percival Farquhar, foi uma das muitas mercadorias transportadas de navio ao Brasil em uma época em que o livre comércio era a tônica na economia mundial. Barreiras alfandegárias representavam um anátema que nenhuma nação gostaria de invocar e, ainda que as nuvens escuras da guerra surgissem, ameaçadoras, no horizonte, os Estados Unidos despontavam como uma das principais potências econômicas do planeta e o Brasil, assim como a vizinha Argentina, atravessava uma fase de crescimento econômico que se tornaria extremamente rara no século seguinte. Tudo seria perdido com a Primeira Guerra Mundial que, entre 1914 e 1918, mataria milhões de seres humanos e marcaria o início de um processo de criação de medidas protecionistas que levariam à maior crise econômica de todos os tempos, em 1929, e ao surgimento de alguns dos regimes políticos mais nefastos jamais imaginados – os regimes totalitários da Alemanha, Itália e Japão. No momento em que as questionáveis decisões tomadas pelo mandatário da maior potência do planeta ameaça lançar a todos em mais uma crise de consequências imprevisíveis, é oportuno lembrar que a humanidade será sempre maior que um grupo específico, e que enfrentamentos em grande escala sempre provocam prejuízos incalculáveis para todos os envolvidos.
Quando falamos da ferrovia que atravessa nossas cidades é impossível esquecer que a sua construção provocou a morte de milhares de pessoas nos conflitos do Contestado, ocorridos entre 1912 e 1916 (de acordo com os registros oficiais). A questão agrária que motivou a revolta de tantos caboclos continua a ser uma das mais graves questões sociais de nosso país, assim como o ideal de modernidade excludente que motivou a realização de obras de grande envergadura, com investimentos estrangeiros e sem maiores preocupações com o impacto social que seria provocado nos lembra que o progresso só é digno desse nome quando é para todos, e que os ideais de uma elite de modo algum podem se sobrepor aos interesses de toda uma população. Somos um só país, uma só nação. Essa simples constatação, sempre que relembrada, serve como uma proteção eficaz contra a repetição dos eventos trágicos que marcaram nossa história naqueles tristes anos.
Se a ferrovia nos obriga a lembrar desses terríveis acontecimentos, também nos convida a lembrar que, sem sua existência, certamente não estaríamos aqui. Porto União da Vitória já existia quando os trilhos chegaram, em 1905, mas apenas como um pequeno e empobrecido povoado. Foi com o tráfego dos trens que novos moradores chegaram – muitos oriundos de outros países -, que a economia local se desenvolveu e que a antiga vila se tornaria uma das cidades mais importantes do Paraná. As duas estações que aqui existiam estiveram, na década de 1930, entre as que recebiam o maior tráfego de passageiros em toda a rede ferroviária paranaense, o que motivou à construção e inauguração, no início da década de 1940, de uma das mais ricas e imponentes estações ferroviárias do sul do Brasil: a Estação União. Marcada por sua arquitetura em art déco, então adotada em algumas das principais construções do mundo ocidental, representa a união simbólica dos estados divididos pela guerra e figurou, por décadas, entre as mais rentáveis da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina; de fato, em 1956, foi a segunda estação mais lucrativa de toda a rede, atrás apenas da de Londrina, então no auge da produção cafeeira. Hoje é um dos prédios mais icônicos de toda a região.
A inauguração do passeio turístico ferroviário representa, por fim, um capítulo fundamental na adoção, em nossas cidades, de um novo modelo econômico que tem no turismo um de seus elementos centrais. Juntamente com os novos complexos do Morro da Cruz e do Morro do Cristo, servirá de atrativo para pessoas que, vindas de outras regiões, movimentarão o setor local de serviços gerando renda e oportunidades em várias atividades. Com isso ganharemos todos que, para além de mais empregos e de um agradável passeio de fim de semana, veremos valorizada nossa identidade enquanto povo dotado de uma história única, rica em acontecimentos extraordinários e lições tão valiosas quanto imprescindíveis. Seja bem-vinda de volta, Maria Fumaça! Estávamos com saudades!
PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Vau do Rio Iguaçu
Não existia em lugar algum do interior do Brasil, em meados do século XIX, outra forma de transporte que não o lombo das mulas ou a correnteza dos rios. Falo de uma época em que os caminhos precisavam ser abertos a golpes de facão, e em que as pequenas comunidades do interior eram habitadas por pessoas empobrecidas demais para morar nos grandes centros ou ambiciosas demais para viverem calmamente das atividades geralmente aceitas pela “boa sociedade”. Nas cidades maiores podia-se amealhar algum dinheiro e bom nome. Mas a riqueza verdadeira apenas poderia ser conquistada nos desconhecidos sertões, terras longínquas e desconhecidas geralmente desconhecidas dos frequentadores de saraus e dos editores de jornais das grandes capitais. Eram anos, também, nos quais muitos dos mais modestos membros da nascente classe média brasileira possuíam ao menos um escravizado para chamar de seu, muitas vezes concedendo a esses uma liberdade cuidadosamente medida e controlada para trabalhar a seu ganho, repassando parte dos rendimentos a um senhorio ansioso por amealhar mais alguns trocados para o atendimento das despesas domésticas enquanto aguardava, resignado, pelo dia em que a alforria definitiva lhe seria cobrada mediante pagamento (integral ou não, isso variava de acordo com as relações interpessoais estabelecidas) dos valores estipulados em lei.
Foi nesse contexto que a descoberta de um vau no rio Iguaçu, em 1842, no interior de densa mata atlântica de araucárias, deu início à povoação que viria a se tornar a vila do Porto da União. Local privilegiado de travessia do volumoso curso d’agua, ao permitir o encurtamento das viagens realizadas pelo recém-aberto caminho de Palmas começou a atrair todos aqueles que, interessados no transporte de mercadorias, aqui se estabeleceram em busca dos lucros que não poderiam ser obtidos em outras paragens. Viajantes vindos de longe, trazendo consigo volumosas cargas nos dorsos de robustos muares, se viam obrigados a constituir morada temporária sempre que a estação das chuvas aumentava a força da correnteza impedindo, por vezes durante várias semanas, a travessia e a continuidade da jornada. Sua presença incentivou a abertura das primeiras casas de comércio e prestação de serviços, atraindo ainda mais moradores e motivando, paulatinamente, o crescimento do improvável povoado. Não restam dúvidas de que décadas antes da chegada do coronel Amazonas Marcondes e dos primeiros imigrantes europeus para cá transportados sob reiterados incentivos dos governos nacional e estadual, essa foi uma cidade fundada e ocupada por tropeiros e por todos aqueles associados a essa fundamental atividade econômica.
O que nos remete à efeméride da data em que escrevo essas linhas – 20 de novembro, Dia da Consciência Negra – e a um reiterado mito ainda corrente em nossas cidades: aquele que afirma não ser a escravidão um elemento importante em nossa trajetória histórica. De fato, não foram poucas as vezes em que ouvi essa afirmação proferida em tons de verdade reforçada pela lógica de um raciocínio lógico. Sendo essa uma comunidade originariamente pobre formada por despossuídos e, muitas vezes, desterrados empenhados em construir uma nova vida a partir de pequenas roças e comércios de importância apenas local, simplesmente não existiria na economia dos primeiros tempos recursos monetários suficientes para sustentar a compra e manutenção de escravizados, um luxo tornado inacessível pela Lei Euzébio de Queiróz que, em 1850, tornou efetiva a proibição da importação de novos plantéis proscrita em teoria (mas não na prática) desde 1831. O argumento faz sentido, mas ignora um fato fundamental: as inúmeras tropas que por aqui passaram eram formadas, em grande medida, por escravizados adquiridos especificamente para compô-las. Tratava-se de trabalhadores valiosos e avidamente procurados por sua experiência no manejo das mulas e por seu conhecimento dos duros caminhos do interior, pessoas que muitas vezes recebiam rendimentos e privilégios apenas sonhados pelos trabalhadores das fazendas de café do interior paulista e fluminense. Eram, ainda assim, escravizados. E, como tais, muitos estavam ansiosos por buscar a própria liberdade tão logo se viam sozinhos no interior da mata fechada, acontecimento banal nos longos e numerosos dias que compunham as longas e cansativas viagens.
O impacto dessas fugas fica evidente na formação do grupo social característico de nossa região: o caboclo. Tantas vezes ignorado e atacado pelas forças de um estado excludente e violento, traz em sua cultura marcada pela prevenção contra o forasteiro os sinais da busca por uma existência reservada longe de forças que por muito tempo intentaram controlar seus movimentos e limitar sua autonomia. Base de nossa comunidade no que ela tem de mais original, representa mais um interessante e rico desdobramento da existência, por mais de três séculos, de uma das instituições mais cruéis e nefastas da história da humanidade em nosso país. Constitui a um só tempo, portanto, elemento fundamental na formação da sociedade em Porto União da Vitória e objeto privilegiado de reflexão em um dia como hoje, no qual nossa dívida para com todos os grupos excluídos ao longo dos séculos deve ser debatida e suas trajetórias únicas e enriquecedoras, valorizadas. O vale do Iguaçu, como todo o resto do país, não pode se furtar a essa tarefa inescapável, como obrigação relacionada ao respeito com sua própria história. Até a próxima!
