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REMINISCÊNCIAS

Guinho, meu herói!

Há algum tempo, quando em visita a parente próximo no Distrito de Poço Preto, localidade muito conhecida e atualmente pertencente ao município de Irineópolis, adquiri um filhote de cachorro da raça Pinscher que contava à época cerca de dois esses de vida. Pequeno, pelos curtos e negros, pernas longas, vivaz, voluntarioso, revelou-se com o passar dos tempos cachorro inteligente, possessivo, ciumento.
Certa tarde de agosto, como costumeiramente ocorria, eu e minha esposa acompanhados do Guinho, fomos à chácara passar o fim de semana. Guinho que desfrutava de local privilegiado na caminhonete utilizada para o transporte, era sempre o primeiro a se acomodar e exigente, rosnava para qualquer que ousasse se aproximar, que o digam os frentistas de Posto de Combustível entre outros.
Naquele fim de tarde, a magnificência do jogo de luzes que coloriam o horizonte, tantos matizes impossíveis de nominar, obra do mestre para encantar os súditos, encontramos a chácara abandonada, sinal inexistia do casal que dela cuidava.
Na chácara entre outras construções, viveiro, paiol, casas, há pequeno tanque de peixes construído de pedras, alimentado com água conduzida por mangueiras de nascente existente nos fundos do terreno, lugar alto, distante, acidentado, revestido de mata intocada.
Surpreso com o desaparecimento do então chacareiro, entre outras providências, fui verificar o tanquinho de peixes e constatei que não estava sendo servido de água e era premente a necessidade de restabelecer a corrente, razão porque, mesmo pouco capaz, premido pela idade, por problemas físicos, lancei-me à mata verificando as mangueiras que conduziam a água, para encontrar eventual obstrução que impedia o fluxo da água. Munido da imprescindível bengala e do fiel companheiro de todos os momentos – o Guinho lancei-me à tarefa em face de urgente necessidade. Seguindo a mangueira ora pela mata, ora pelo samambaial, ora pelo vale do riacho que há nos fundos do terreno da chácara, sempre seguindo a mangueira, ouvia o farfalhar de folhas secas, som que o Guinho produzia correndo à frente, atrás, vez latindo, quiçá aventurando-se à caça, vez aproximando-se, outra se afastando, incansável, lépido.
A tarde fluía inexorável, o tempo se esvaia, urge encontrar a razão da falta d’água. Seguindo o leito do pequeno arroio por onde se estende a mangueira, cheguei à local que em outra época fora uma cachoeira, agora apenas retilíneo paredão com aproximados dez metros de altura. Seguir em frente somente escalando o barranco lateral. Indeciso, escalar o barranco, ou retornar até local mais apropriado para seguir, conjeturando probabilidades, enquanto que o Guinho aventurava-se, com agilidade que lhe era própria, subindo e descendo o barranco quase a pino. Decidi-me. Escalar o barranco, inspirado no Guinho que facilmente subia e descia, incansavelmente.
A noite chegava célere e com ela os barulhos próprios. E o Guinho pequeno, pelos negros exceção do peito e das patas recobertos de amarelo queimado, tornava-se praticamente invisível, mas inquieto. Pressentia certamente dificuldades, perigo eminente.
Imaginei que para escalar o barranco não levaria tempo maior que minutos, menor do que retornar e encontrar local acessível. Ledo engano. A escolha para escalada fora para alcançar toco de árvore à meia altura do barranco, parecia relativamente fácil, vez que havia vegetação e saliências que poderiam dar suporte, servir de alça e/ou estribo. Pensada, planejada a estratégia da escalação, colocada em execução. As plantas, as saliências depois de utilizadas, se deterioravam, impossível o reúso. E o Guinho, enquanto isso, usando aquelas longas pernas, subia e descia, corria lateralmente no barranco, latindo às vezes prazerosamente.
Alcançar o toco no barranco a meio caminho foi relativa facilidade, bengala a tiracolo. Entretanto, seguir a escalada se tornou impossível. Nada mais havia que pudesse utilizar como alça, como estribo. De repente percebi que estava em situação difícil: em pé sobre o toco a meia altura do chão, agarrado em eventuais samambaias para manter o equilíbrio; a noite escura lançando seu véu; sem poder subir, ou descer. A situação era periclitante. Não mais conseguia ver o Guinho, apenas ouvia o ruido de suas passadas, o farfalhar de folhas secas. E a bengala a tiracolo…
Entre as copas das altas árvores já era possível vislumbrar parte da via láctea. Os pensamentos vageiam, boas e más lembranças desfilam no imaginário. Momentos sentia, ouvia a presença do Guinho, quando como única esperança de salvamento, certo que haveria a esposa notar minha ausência, bradei:
“- Guinho! A Silvia, vá chamar a Silvia!”
Ordenei sem sequer imaginar que fosse possível que àquele minúsculo ser pudesse compreender e atender a determinação, vã esperança de obter socorro. Entretanto, no seguimento dos fatos, imediato som de farfalhar de folhas, ouvi e percebi que o Guinho estava se afastando do local sinistro que me encontrava. Repeti algumas vezes a determinação. Silêncio, barulho exclusivo normal da noite na mata… Passam-se minutos, muitos que pareciam eternos, nenhum ruído, angústia… De repente som de corrida acelerada do Guinho na mata… Eis que chega esbaforido. Visivelmente cansado da longa distância percorrida velozmente (aproximados 800 m do local onde estávamos até a casa da chácara), aproxima-se o Guinho e se acomoda em meu ombro, eis que estava agarrado, encostado o peito ao barranco. Afetuosamente Guinho encosta a cabeça dele a minha, produz som que me parece choro, manifesta carinho, sentimento em face de difícil situação que nos encontrávamos. Repeti àquele ser carinhoso acomodado em meu ombro:
“-Guinho, a Silvia, traga a Silvia, vá chamar a Silvia!”
De pronto, impulsionado pelo apelo, pelo perigo presente, quem sabe, atirou-se Guinho em desabalada carreira mata a dentro em direção à casa em busca desabalada da Silvia, acredito. Ouvia o som caraterístico do Guinho correndo, o farfalhar das folhas secas, depois silêncio…
Ultrapassado tempo inestimável, ouço latidos que identifico como sendo do Guinho que através da mata, orientava a Silvia pelo tortuoso caminho. Logo ouvi a interpelação:
“Irapuan, onde você está?”
Vi, então, o facho de luz da lanterna que portava a Silvia ao longe, pedi que iluminasse o alto das árvores e tomando como marco orientei a Silvia até próximo ao local onde me encontrava e, depois de diligências de buscar cordas, de tomar providências de seguridade à Silvia face a periculosidade em razão do enorme declive, agarrado à corda com auxílio, fui alçado a beira do barranco, cansado, sujo, com a bengala à tiracolo, porém feliz com o desenlace da aventura e mais do que nunca admirador do Guinho, meu herói.

20 de agosto de 2021 – Irapuan Caesar Costa

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REMINISCÊNCIAS

A viagem

Os fatos a seguir relatados ocorreram por volta da década de 1970, tempo ainda quando estava trabalhando na R.F.F.S.A. lotado no Departamento de Material em Curitiba. Semanalmente, às sextas-feiras à noite, embarcava no ônibus das 19:00 horas da empresa Estrela Azul em Curitiba para União da Vitória e retornava no das 07:00 horas nas segundas-feiras. Por mais de ano essa foi a cansativa rotina até que finalmente fui transferido para trabalhar no já extinto Almoxarifado da Rede em Porto União/União da Vitória.
A rotina que era do conhecimento dos funcionários da empresa Estrela Azul lotados na Agência de União da Vitória, motoristas e cobradores, me concedia privilégios mesmo sem reinvindicações, porquanto todos com o passar do tempo desenvolvemos sentimento de amizade que ainda permanece com os poucos remanescentes daqueles dias venturosos.
Conhecedora das minhas preferências, a responsável pela venda dos bilhetes de passagens da empresa, reservava a poltrona 05 (segunda fileira de poltronas, no corredor do veículo) nas segundas-feiras sem necessidade de solicitação, apenas porque tinha a certeza que iria viajar.
Foi numa segunda-feira do mês de junho, frio e chuvoso, retornando a Curitiba que tive experiência inusitada, ensinamento que guardo nas lembranças memoriais e serviram para me situar no devido lugar que devo ocupar nesse mundo de humanos dos quais nada de melhor, de maior, de privilegiado, devo pretender. Sou apenas mais um, igual a todos, nem mais, nem menos.

Fustigado pela garoa fina e fria que insistia em acontecer nos invernos em União da Vitória, manhã fria, desguarnecido de proteção da chuva, sigo andando ligeiro para a Rodoviária para, novamente, embarcar no ônibus e retornar a Curitiba.
Como sempre me dirijo ao guichê da empresa, adquiro a passagem que já estava expedida, me dirijo ao veículo, certo que a poltrona 05 estava reservada, desnecessário conferir o bilhete adquirido. Adentro ao veículo, a poltrona 06 ocupada por homem moço que imediatamente constatei que era muito reservado, nenhuma importância me concedeu, fato surpreendente.
Acomodo-me na poltrona depois de ajeitar a bagagem que trazia no maleiro correspondente. Sentado, cumprimento o companheiro – “bom dia!” Mal ouço a resposta balbuciada, nada mais.
Os demais passageiros se colocam nos lugares próprios, dada a partida percorre o veículo vias rumo ao destino; partindo da rodoviária situada na Praça Getúlio Vargas (atual Alvir Riesemberg), segue à rua Ipiranga, alcança rapidamente a Avenida Manoel Ribas, a Ponte “Nova”, e a rodovia macadamizada com destino a Luzia, a Rondinha, a São Mateus, a Curitiba…
Trafega o veículo normalmente pilotado com maestria por piloto experiente, competente, com segurança em via macadamizada, molhada, decorrente das chuvas, característica regional de inverno.
O avanço dificultoso do veículo que trafega sacolejando, a lotação do ônibus, o ar viciado das janelas fechadas que impregna o ambiente corrobora com o desconforto da conhecida viagem.
… e o companheiro de viagem permanece quieto, impassível, impessoal, voltado a frente, sem tomar conhecimento de minha presença, impossível de observar a expressão facial.
Os quilômetros da rodovia vão sendo superados, a estrada continua mal conservada, o ônibus sacoleja, trepida, o ambiente cada vez mais poluído agora acrescido de fumaça de cigarros de muitos passageiros. É sofrível o ambiente, verdadeiro calvário. A meu lado permanece o companheiro de viagem impassível, impessoal, circunspecto em suas emoções, voltado para si sem se importar com os demais viajantes, em especial comigo. Uma rocha impenetrável.
Custosamente o veículo vence os obstáculos, avizinhasse a reta de São Mateus, ultrapassada a ponte do rio Potinga, esperança de chegar ao Ponto de Café em São Mateus, início da via asfaltada, certeza da melhoria das condições de viagem. E durante todo tempo o companheiro de viagem continua impassível, impessoal, ausente como se nada o afetasse, ignorando a tudo e a todos. Quem sabe se imagina melhor, superior a tudo e a todos, intocável.
Custosamente o ônibus chega a Rodoviária de São Mateus, chegado o momento do desembarque, todos com muita pressa, ansiosos, menos o companheiro. Observo que, estacionado o veículo no local de desembarque, saca da bolsa que estava debaixo do assento, pacote de leite, copo plástico e pão recheado. Vejo-o com os dentes, rasgar o canto do pacote de leite e com dificuldade transferir o líquido ao copo, saio do veículo. Vejo e descreio que tão impoluta personagem se digne a se sujeitar a ingerir leite de pacote trazido, pão recheado com provável queijo e mortadela, quando pode desembarcar e na Lanchonete da Rodoviária tomar uma boa xícara de bom e quente café com leite, acompanhada de saboroso pastel de carne. Faço juízo nada positivo da pessoa, justifico a impassividade, a impessoalidade que se porta, certamente se considera mais e melhor que todos, esse é meu juízo.
A viagem segue, a via asfaltada, ainda nova, incólume, o trânsito é rápido, vencidas rapidamente as distâncias logo é alcançada a cidade da Lapa, Contenda, Araucária, avizinha-se Curitiba e o companheiro de viagem ainda continua impessoal, impassível, silente observando o encosto do banco frontal sem se importar com qualquer coisa, atitude de quem está só, único no mundo.
Ultrapassado o bairro do Pinheirinho em Curitiba, alcançada a avenida Silva Jardim, próximo à esquina da rua 24 de Maio, o motorista previamente de acordo com passageiro, estaciona o veículo próximo ao meio fio do passeio público.
O companheiro de viagem que pouco se manifestou durante a viagem, tenta se levantar do assento dizendo: – “Com licença, desço aqui! ” Levanto do assento para dar passagem. Tateando, alcança a bolsa debaixo do banco, se apodera de bengala que ainda eu não havia visto, agradece e se despede – “Obrigado, boa viagem” – balizando-se com o instrumento alcança o passeio público. Observo que no passeio há pessoas aguardando-o.
Surpreso, indignado, extasiado constato que aquele que julguei impessoal, impassível, intangível, soberbo, mais e melhor que todos, não era mais do que um jovem cego que solitariamente viajava submisso a todas as dificuldades, as agruras que a cegueira impõe. Nada de impessoalidade, impassividade, inatingibilidade, apenas incompreensão, ignorância, ausência de empatia, de resiliência cercou o companheiro de viagem.
Afinal o ônibus estaciona na Rodoviária de Curitiba. Fim da viagem, começo de nova vida, promessa de não promover julgamento de outrem, de maior respeito a todos, de desenvolver mais e melhor empatia e resiliência.

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REMINISCÊNCIAS

Retorno ao passado

O passado que somente existe em nossas lembranças, é fonte geradora de todos os tipos e formas de emoções. Umas mais fortes, outras nem tanto, todas certamente bulindo com o emocional.
O dia está findo, a tarde se esvai inexoravelmente, a noite se aproxima vagarosamente, sem pressa, certa do inevitável eventual amanhecer.
Vejo à beira do infinito a sucessão dos fatos como ordenada consequência de acontecimentos, uns derivados de outros, todos determinados ou autorizados, por ser maior.
E, quando apreciando o presente, sentindo o sabor do passado, tenho claro que o futuro não é mais do que a soma dos atos e fatos outrora vividos, apenas o resultado consequente de decisões tomadas e que no presente são imutáveis.
Sob essa ótica não há arrependimento por prática ou não, de atitudes que tenham ou não sido tomadas. Todas respondem apenas e tão somente na medida das consequências. Se não houver consequência, não haverá arrependimento.
Entretanto, apesar da materialidade e da composição, tomada em face da existência, responderá independentemente da atitude pelos fatos e atos que produzir. Essa é a lei da probabilidade, quanto mais próxima ao resultado final, mais certa a autoria da consequência.
Os limites do imaginário vão além do certo, chega às raias do impossível, próximos ao gosto da realização dos desejos. Nada se compara à sensação de realização de desejo que, no entanto, por maior que seja a conquista, é efêmera porque substituída por nova de imediato.
O retorno ao passado no desfrute do imaginário, possibilita sentir novamente emoções passadas, quimeras não tão intensas, porém reais. A soma das emoções pessoais determina a estruturação da personalidade do ser, daí a importância de que sejam boas e desfrutadas intensamente.
A lua saúda a morte do dia; bom para uns, nem tanto para outros. O fim do dia, a magnitude do esplendor sempre motiva o despertar de emoções invocando o retorno ao passado.
… que assim seja!!!!

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REMINISCÊNCIAS

A discussão

Tarde quente, ensolarada, própria para consumo de bom chope gelado, brisa fresca, apreciando a paisagem. Sentados à mesa, amigos desfrutam das benesses proporcionadas, o tempo transcorre placidamente, de forma lânguida, preguiçosa. Nada no horizonte que pudesse turbar o estado de espírito amigo, senão a discussão que estava ocorrendo sobre a sociedade em geral, política, depois de ter-se esgotado o de futebol. Dizia alguém:

  • Esse governo é imprestável, roubam, nada produzem, não atende às necessidades da educação, desviam os recursos destinados à saúde, à cultura, é uma lástima! Outro retruca: – Você foi um dos que criticaram o governo anterior, classificando-o de esquerda, que promovia subsídios aos menos favorecidos em detrimento à classe produtora. Terceiro questiona: – Afinal, qual a diferença entre esquerda e direita? Quem sempre perde é o trabalhador, ele nunca desfruta dos ganhos de um ou de outro, e quando há queda da receita, o trabalhador é o responsável; quando há superávit foi o administrador quem obteve o sucesso. Quarto deflagra: – Esquerda, direita é tudo a mesma coisa! De repente estavam os presentes falando alto, quase aos gritos, sem alguma possibilidade de acordo, cada um “puxando a brasa para seu assado”. Certamente deverão estar ainda discutindo, esquerda, direita, centro. Em toda discussão deve necessariamente haver Mediador, sob pena de não se chegar a consenso. Nos dias de hoje há conflitos expressivos e ambas as partes se acham donas da verdade. A Ucrânia alega que a Rússia invadiu, desmotivadamente, seu território; a Rússia afirma que foi a Ucrânia quem descumpriu tratado firmado entre as partes e concedeu independência à Ucrânia, para “engrossar o caldo”, duas províncias ucranianas com aspirações de independências engrossam as fileiras russas. Litigam também os palestinos (grupo Hamas) e os israelenses. Os palestinos alegam que Israel invadiu parte do seu território e estão buscando seus direitos; os israelenses, por sua vez, alegam que tem o direito de se defender e não pretendem a paz, mas o extermínio dos palestinos, isso a grosso modo. Todos se declaram donos da verdade. Como saber quem tem razão, ou não. Não há como afirmar quem ganha o litígio entre os contendores, o que se sabe que os países financiadores são realmente os que irão desfrutar dos lucros. Enquanto eles lutam entre si, desfruto do entardecer, da paz, da cerveja geladinha à sombra do velho cinamomo, apreciando a paisagem…

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