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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Estruturas

Nelson Piquet foi um dos maiores ícones do esporte brasileiro, na década de 1980. Três vezes campeão do mundo de Fórmula 1, competição automobilística muito popular por essas bandas naquela época, encarnava a imagem do país grande e arrojado que a ditadura civil-militar, já em seus estertores, ainda se esforçava em vender. É bem verdade que o piloto não encenava tão bem o papel que lhe cabia. Certa feita, minutos após tornar-se campeão mundial, foi indagado pelo repórter que, ufanista, parecia ansioso por conseguir uma frase de efeito que agradasse ao público que, em casa, vibrava com a conquista: “Nelson, para quem você dedica esse título?” A resposta veio seca: “Para mim mesmo, ué, fui eu que ganhei!” Imagino a cara dos torcedores, em frente à televisão, ouvindo essa resposta. Muitos anos depois, a série continuava. Em uma entrevista normal, questionado sobre o que sentira por ocasião da morte de Ayrton Senna, outro piloto brasileiro de quem Piquet havia se tornado desafeto quando ainda competiam, ele respondeu, entre risadas: “nada, ué. Melhor ele do que eu!”. Ou então, indagado sobre quem seria melhor piloto, Senna ou ele, cravou: “ele está morto, eu ainda estou vivo… isso responde, né?”
Em resumo: é por demais óbvio que Nelson Piquet não representa o tipo de ser humano para quem eu pagaria uma cerveja. E tudo bem. Ele tem todo o direito de ser do jeito que quiser, de falar o que quiser. Isso se chama liberdade, afinal de contas. Não é sobre isso que desejo refletir nessas linhas. Mas sim sobre as últimas declarações desse infeliz das palavras que, perguntado sobre Lewis Hamilton (o inglês com o maior número de vitórias e títulos na categoria), o chamou seguidas vezes de “neguinho” e, como se não bastasse, ainda insinuou que Hamilton teria perdido o campeonato mundial de 2016 por estar mais preocupado em ter relações sexuais homoafetivas (não foi essa, obviamente, a expressão usada, mas vou poupar o amigo leitor de termos chulos). Um combo extraordinário de racismo e homofobia presentes em uma mesma entrevista. Cúmulo da infelicidade. Mas, e daí? O que isso tem a ver conosco, e por que razão tal personagem merece reflexão nesse espaço?
Bem, a resposta é tão simples quanto dura: ao utilizar tais termos em uma entrevista que recebeu repúdio internacional, Nelson Piquet, como nos anos 1980, representou a todos os brasileiros. O uso de piadas de cunho homofóbico ou racista, o recurso a expressões racistas pretensamente “inocentes”, o manejo cotidiano com uma segregação que, naturalizada por séculos, hoje acaba passando despercebida, é uma marca social da qual, felizmente, cada vez mais pessoas estão buscando se livrar. Inclusive eu mesmo. Permitam-me contar uma breve história. Durante vários anos de minha infância e adolescência, convivi – como quase todo mundo – com brincadeiras e expressões de cunho racista e homofóbico. Uma dessas expressões, usada para se referir a pessoas com baixa capacidade intelectual, é o termo “boçal”. “Fulano é um boçal!”, era uma das ofensas mais comuns utilizadas por mim na época em que entrei na faculdade de História, lá nos idos do ano 2000. Alguns anos depois, assistindo a uma aula, finalmente aprendi o sentido original do termo, e então percebi toda a sua carga negativa. Acontece que “boçal”, originalmente, era o termo usado para se referir ao escravizado recém-chegado da África, em oposição àquele que nascera no Brasil, chamado “ladino”. Sem conhecer o lugar para onde fora trazido, o idioma, a cultura ou a religião, é fácil compreender que o africano que aqui aportava ficasse perdido, sem saber o que fazer, como se comportar, incapaz até mesmo de se comunicar. Boçal. Termo incorporado pela sociedade e que chegara aos ouvidos de um garoto do interior que, achando-o de pronúncia engraçada, o adotou livremente. E que, depois, precisou de muito autocontrole para deixar de usá-lo. História feliz, sem dúvida. Afinal de contas, hoje posso contar, orgulhoso, que faz muito tempo que não chamo a ninguém “boçal”. Acabaram-se meus problemas, então? Claro que não. Não me suponha tão elevado, caro leitor! Ainda ontem, ontem mesmo – domingo – me flagrei, horrorizado, a ofender o árbitro auxiliar de uma partida de futebol da Associação Atlética Iguaçu: “seu viado!” Que fazer? Já xinguei, não era possível voltar atrás. Confesso que, sim, fiquei envergonhado. Muito. Feita a besteira, me limitei a não mais xingar. O jogo, para mim, acabara ali. Mais uma derrota dolorosa em minha guerra por abandonar o uso de mais um termo chulo, homofóbico, do qual sinceramente desejo me livrar para sempre. Mas, creia-me o amigo leitor que, a essa altura, com razão já me censura: não é fácil! Tenho 39 anos de idade, e desde a mais tenra infância utilizo o termo não apenas para ofender, mas também para me referir carinhosamente a alguém. Sim, carinhosamente! É assim que alguns de nós fazem onde nasci. “Mas é um viado, mesmo!”, e lá vai um abraço apertado no amigo que acabara de fazer ou dizer algo agradável! Estranho? Sem dúvida que é. Mas estou tentando me livrar. A vergonha é o primeiro passo. Hei de conseguir, um dia, abandonar o uso de tão infeliz termo.
Nesse sentido, posso dizer que compartilho de alguma coisa com Nelson Piquet, com quem tanto antipatizo: somos, ambos, fruto de uma sociedade que carrega, em suas estruturas mais profundas, a marca do racismo e da homofobia. Eis o que é o tão falado “racismo estrutural” e a “homofobia estrutural”. Nascemos e crescemos sob a marca de palavras e comportamentos racistas, homofóbicos, por vezes misóginos (que tal as famosas piadas de “loiras”?) e, adotando-os naturalmente, sequer nos damos conta do que significam. Apenas os vamos reproduzindo, acriticamente, inocentemente, em churrascos, brincadeiras, rodas de amigos. Quando percebemos o que são, o estrago já está feito. Abandonar tais termos é quase como esquecer o idioma pátrio, substituindo-o por outro. Abandonar os comportamentos, brincadeiras e piadas repetidas por décadas é quase como matar a si mesmo, sem saber o que colocar no lugar. De verdade: não é um processo fácil. Mas é necessário!
Os elementos estruturais de nossa sociedade recebem esse nome exatamente porque é o que são: estruturais. Carregamo-los conosco sem sequer perceber o que são ou que estão ali. Assim, demandam muito esforço de quem deseja abandoná-los. E muita paciência e boa vontade de quem deseja que sejam abandonados. Porque é preciso entender: não será com cobranças, “cancelamentos” e coisas do gênero que o problema será resolvido. Ações abruptas geram apenas resistência, em retorno. É preciso conscientizar, ensinar, e ter paciência. Não sou homofóbico porque ainda uso uma palavra infeliz, inconscientemente, durante uma partida de futebol. Estou lutando para abandonar o hábito. Tampouco sou racista por ter usado um termo cujo sentido desconheci durante a maior parte de minha existência. Percebido o erro, o corrigi. É como o vício no cigarro: é possível vencê-lo. Mas não é fácil. A referida entrevista, sozinha, não faz de Nelson Piquet um racista ou homofóbico. Pode até ser que seja, não sei. Mas o uso de tais termos, sozinho, não garante veredito. Se ele os usa recorrentemente, com gosto, sabendo o significado, então, sim, é melhor deixá-lo com seus preconceitos imbecis e ultrapassados. Se foi dito com inconsciência e provocam ações no sentido de correção e mudança, sejamos pacientes e, em nome de uma sociedade melhor no futuro, esperemos pelos melhores resultados. De minha parte, individualmente, garanto que esse é meu desejo e minha luta interna. Ainda vou falhar, várias vezes. De antemão, peço desculpas por isso. Mas é que nasci em uma sociedade que não é para principiantes e, estando em constante reforma íntima, de quando em vez ainda deixarei alguns tijolos caírem na cabeça de algum desavisado. Mas, de verdade: não terá sido proposital. Até a próxima!

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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Carta

Enquanto organizo e manuseio minha coleção de selos, me pego a divagar sobre a sutil arte da comunicação manuscrita evocada por essas pequeninas peças de papel colorido. Não foi durante muito tempo, mas a verdade é que cheguei a receber e escrever algumas cartas. Aprendi as regras de sua confecção na escola. Fui convencido a buscar melhorar minha letra cursiva – até hoje uma catástrofe, aliás – com o argumento de que nada adianta escrever se o leitor não conseguir compreender o que foi escrito. Um dos princípios fundamentais de qualquer bom missivista sempre foi o cuidado com a elaboração de uma boa carta, com texto limpo, claro, educado, dotado de bom conteúdo. Escrever com pressa era um erro colossal, não pensar no destinatário, um pecado dos mais graves. Bem escrever sempre requereu tempo, cuidado, paciência. Aguardar por uma resposta, ainda mais tempo, cuidado e paciência.

Não gosto de rememorações saudosistas que sempre terminam com a fatídica constatação: “no meu tempo é que era bom! ” Primeiro porque essa conclusão geralmente não é verdadeira, referindo-se a coisas tão traumáticas quanto merthiolate que ardia mais que a eternidade no inferno e programas televisivos dominicais que representavam o maior incentivo então existente para não ligar a televisão no domingo. Segundo porque não se trata de julgar qual época é melhor – todas tem seus pontos positivos e negativos – mas sim de constatar diferenças e, a partir delas, propor reflexões. E, no que toca à comunicação em particular, uma volta mesmo que parcial ao mundo das cartas não faria nada mal. Algumas cartas representavam, por si só, uma declaração de carinho. Outras, redigidas em várias páginas e em grande profusão, ainda hoje são estudadas como fontes de algumas das maiores ideias que o gênero humano já produziu nas mais diversas áreas do conhecimento. Alguém realmente imagina, de posse de suas plenas faculdades mentais, o estudo das atuais baixarias nas redes sociais como fonte de qualquer ideia que preste em, digamos, cem anos? Convenhamos que, se for o caso, estaremos em muito maus lençóis.

Tampouco aplicativos de bate papo oferecem uma mídia de comunicação melhor. Foram pensados para trocas de mensagens curtas e práticas, coisa de não mais do que meia dúzia de palavras. “Você vem? ” “Vou! ”. Eis a conversa perfeita para um WhatsApp ou Facebook Messenger. Não inícios e términos de relacionamentos. Contratações e demissões. Conversas existenciais ou que tenham a ver com o estado emocional dos envolvidos. Como considerar um “eu te amo” escrito por alguém que você não está vendo? Ou interpretar um daqueles torturantes silêncios que se seguem, por vezes, a algumas das perguntas mais importantes que um ser humano pode conceber? Um lado coloca e empenha sua existência sentimental em uma mensagem artificialmente curta e recebe, em troca, o silêncio. Que representa?

ZygmuntBauman, o famoso pensador polonês, notabilizou-se pela formulação do conceito de liquidez das relações e sentimentos pós-modernos (por detestar esse termo, substituiu-o por “modernidade líquida”). Tal como os átomos dos elementos químicos no estado líquido, mais separados e em menor interação que aqueles constituintes dos elementos em estado sólido, as pessoas estariam imersas na imediatidade e rapidez, menos preocupadas com a longa duração e com as consequências a longo prazo de suas decisões. Não mais cartas e todo o seu necessário investimento temporal e emocional, mas curtas mensagens tão rápidas de escrever quanto fáceis de apagar. Nada que requeira tempo e concentração vale a pena, o antigo deve ser completamente eliminado em nome da última novidade. Não mais passado, raízes, histórias. Não mais selos para colecionar ou cartas antigas com suas belíssimas letras manuscritas para fazer rememorar. Na imediatidade absoluta dos tempos que correm, poucas coisas estão mais fora de lugar do que uma coleção de selos. Exatamente por isso, decidi iniciar a minha. Porque no meu tempo nem tudo, definitivamente, era melhor. O que não significa que prefiro o modo como são hoje. Fico, então, no limbo. Entre a solidez de um passado idealizado e a liquidez de um presente constatado, me deixo estar no magnetismo dos pensamentos insuficientemente formulados. E na curiosidade de pequeninos pedaços de papel colorido que hoje, para a imensa maioria dos seres humanos, simplesmente não dizem mais nada. Até breve!

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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

A volta da Maria Fumaça

Pelo segundo final de semana consecutivo, o apito silvou no vale do Iguaçu. Novamente temos uma locomotiva circulando pelos trilhos que, por décadas, foram a principal fonte de riqueza e o principal meio de acesso a Porto União da Vitória. Trilhos que respondem por alguns dos melhores capítulos de nossa história, e por aquele que marca uma das maiores catástrofes na trajetória da república brasileira. Trilhos que nos explicam quem somos e como chegamos até aqui. Trilhos sobre os quais não mais trafegam mercadorias ou passageiros em viagem, mas famílias interessadas em entrar em contato com suas próprias origens através das trajetórias dos antepassados que, décadas atrás, escolheram se estabelecer aqui. O acontecimento que estamos presenciando é histórico, como históricos são os elementos que o compõem.

A revigorada locomotiva Lima, fabricada em 1913 na cidade de mesmo nome localizada no estado de Ohio, Estados Unidos, nos convida a refletir sobre o momento que atravessamos em nível mundial. Produzida sob encomenda da Brazil Railway Company, de Percival Farquhar, foi uma das muitas mercadorias transportadas de navio ao Brasil em uma época em que o livre comércio era a tônica na economia mundial. Barreiras alfandegárias representavam um anátema que nenhuma nação gostaria de invocar e, ainda que as nuvens escuras da guerra surgissem, ameaçadoras, no horizonte, os Estados Unidos despontavam como uma das principais potências econômicas do planeta e o Brasil, assim como a vizinha Argentina, atravessava uma fase de crescimento econômico que se tornaria extremamente rara no século seguinte. Tudo seria perdido com a Primeira Guerra Mundial que, entre 1914 e 1918, mataria milhões de seres humanos e marcaria o início de um processo de criação de medidas protecionistas que levariam à maior crise econômica de todos os tempos, em 1929, e ao surgimento de alguns dos regimes políticos mais nefastos jamais imaginados – os regimes totalitários da Alemanha, Itália e Japão. No momento em que as questionáveis decisões tomadas pelo mandatário da maior potência do planeta ameaça lançar a todos em mais uma crise de consequências imprevisíveis, é oportuno lembrar que a humanidade será sempre maior que um grupo específico, e que enfrentamentos em grande escala sempre provocam prejuízos incalculáveis para todos os envolvidos.

Quando falamos da ferrovia que atravessa nossas cidades é impossível esquecer que a sua construção provocou a morte de milhares de pessoas nos conflitos do Contestado, ocorridos entre 1912 e 1916 (de acordo com os registros oficiais). A questão agrária que motivou a revolta de tantos caboclos continua a ser uma das mais graves questões sociais de nosso país, assim como o ideal de modernidade excludente que motivou a realização de obras de grande envergadura, com investimentos estrangeiros e sem maiores preocupações com o impacto social que seria provocado nos lembra que o progresso só é digno desse nome quando é para todos, e que os ideais de uma elite de modo algum podem se sobrepor aos interesses de toda uma população. Somos um só país, uma só nação. Essa simples constatação, sempre que relembrada, serve como uma proteção eficaz contra a repetição dos eventos trágicos que marcaram nossa história naqueles tristes anos.

Se a ferrovia nos obriga a lembrar desses terríveis acontecimentos, também nos convida a lembrar que, sem sua existência, certamente não estaríamos aqui. Porto União da Vitória já existia quando os trilhos chegaram, em 1905, mas apenas como um pequeno e empobrecido povoado. Foi com o tráfego dos trens que novos moradores chegaram – muitos oriundos de outros países -, que a economia local se desenvolveu e que a antiga vila se tornaria uma das cidades mais importantes do Paraná. As duas estações que aqui existiam estiveram, na década de 1930, entre as que recebiam o maior tráfego de passageiros em toda a rede ferroviária paranaense, o que motivou à construção e inauguração, no início da década de 1940, de uma das mais ricas e imponentes estações ferroviárias do sul do Brasil: a Estação União. Marcada por sua arquitetura em art déco, então adotada em algumas das principais construções do mundo ocidental, representa a união simbólica dos estados divididos pela guerra e figurou, por décadas, entre as mais rentáveis da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina; de fato, em 1956, foi a segunda estação mais lucrativa de toda a rede, atrás apenas da de Londrina, então no auge da produção cafeeira. Hoje é um dos prédios mais icônicos de toda a região.

A inauguração do passeio turístico ferroviário representa, por fim, um capítulo fundamental na adoção, em nossas cidades, de um novo modelo econômico que tem no turismo um de seus elementos centrais. Juntamente com os novos complexos do Morro da Cruz e do Morro do Cristo, servirá de atrativo para pessoas que, vindas de outras regiões, movimentarão o setor local de serviços gerando renda e oportunidades em várias atividades. Com isso ganharemos todos que, para além de mais empregos e de um agradável passeio de fim de semana, veremos valorizada nossa identidade enquanto povo dotado de uma história única, rica em acontecimentos extraordinários e lições tão valiosas quanto imprescindíveis. Seja bem-vinda de volta, Maria Fumaça! Estávamos com saudades!

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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA

Vau do Rio Iguaçu


Não existia em lugar algum do interior do Brasil, em meados do século XIX, outra forma de transporte que não o lombo das mulas ou a correnteza dos rios. Falo de uma época em que os caminhos precisavam ser abertos a golpes de facão, e em que as pequenas comunidades do interior eram habitadas por pessoas empobrecidas demais para morar nos grandes centros ou ambiciosas demais para viverem calmamente das atividades geralmente aceitas pela “boa sociedade”. Nas cidades maiores podia-se amealhar algum dinheiro e bom nome. Mas a riqueza verdadeira apenas poderia ser conquistada nos desconhecidos sertões, terras longínquas e desconhecidas geralmente desconhecidas dos frequentadores de saraus e dos editores de jornais das grandes capitais. Eram anos, também, nos quais muitos dos mais modestos membros da nascente classe média brasileira possuíam ao menos um escravizado para chamar de seu, muitas vezes concedendo a esses uma liberdade cuidadosamente medida e controlada para trabalhar a seu ganho, repassando parte dos rendimentos a um senhorio ansioso por amealhar mais alguns trocados para o atendimento das despesas domésticas enquanto aguardava, resignado, pelo dia em que a alforria definitiva lhe seria cobrada mediante pagamento (integral ou não, isso variava de acordo com as relações interpessoais estabelecidas) dos valores estipulados em lei.

Foi nesse contexto que a descoberta de um vau no rio Iguaçu, em 1842, no interior de densa mata atlântica de araucárias, deu início à povoação que viria a se tornar a vila do Porto da União. Local privilegiado de travessia do volumoso curso d’agua, ao permitir o encurtamento das viagens realizadas pelo recém-aberto caminho de Palmas começou a atrair todos aqueles que, interessados no transporte de mercadorias, aqui se estabeleceram em busca dos lucros que não poderiam ser obtidos em outras paragens. Viajantes vindos de longe, trazendo consigo volumosas cargas nos dorsos de robustos muares, se viam obrigados a constituir morada temporária sempre que a estação das chuvas aumentava a força da correnteza impedindo, por vezes durante várias semanas, a travessia e a continuidade da jornada. Sua presença incentivou a abertura das primeiras casas de comércio e prestação de serviços, atraindo ainda mais moradores e motivando, paulatinamente, o crescimento do improvável povoado. Não restam dúvidas de que décadas antes da chegada do coronel Amazonas Marcondes e dos primeiros imigrantes europeus para cá transportados sob reiterados incentivos dos governos nacional e estadual, essa foi uma cidade fundada e ocupada por tropeiros e por todos aqueles associados a essa fundamental atividade econômica.
O que nos remete à efeméride da data em que escrevo essas linhas – 20 de novembro, Dia da Consciência Negra – e a um reiterado mito ainda corrente em nossas cidades: aquele que afirma não ser a escravidão um elemento importante em nossa trajetória histórica. De fato, não foram poucas as vezes em que ouvi essa afirmação proferida em tons de verdade reforçada pela lógica de um raciocínio lógico. Sendo essa uma comunidade originariamente pobre formada por despossuídos e, muitas vezes, desterrados empenhados em construir uma nova vida a partir de pequenas roças e comércios de importância apenas local, simplesmente não existiria na economia dos primeiros tempos recursos monetários suficientes para sustentar a compra e manutenção de escravizados, um luxo tornado inacessível pela Lei Euzébio de Queiróz que, em 1850, tornou efetiva a proibição da importação de novos plantéis proscrita em teoria (mas não na prática) desde 1831. O argumento faz sentido, mas ignora um fato fundamental: as inúmeras tropas que por aqui passaram eram formadas, em grande medida, por escravizados adquiridos especificamente para compô-las. Tratava-se de trabalhadores valiosos e avidamente procurados por sua experiência no manejo das mulas e por seu conhecimento dos duros caminhos do interior, pessoas que muitas vezes recebiam rendimentos e privilégios apenas sonhados pelos trabalhadores das fazendas de café do interior paulista e fluminense. Eram, ainda assim, escravizados. E, como tais, muitos estavam ansiosos por buscar a própria liberdade tão logo se viam sozinhos no interior da mata fechada, acontecimento banal nos longos e numerosos dias que compunham as longas e cansativas viagens.
O impacto dessas fugas fica evidente na formação do grupo social característico de nossa região: o caboclo. Tantas vezes ignorado e atacado pelas forças de um estado excludente e violento, traz em sua cultura marcada pela prevenção contra o forasteiro os sinais da busca por uma existência reservada longe de forças que por muito tempo intentaram controlar seus movimentos e limitar sua autonomia. Base de nossa comunidade no que ela tem de mais original, representa mais um interessante e rico desdobramento da existência, por mais de três séculos, de uma das instituições mais cruéis e nefastas da história da humanidade em nosso país. Constitui a um só tempo, portanto, elemento fundamental na formação da sociedade em Porto União da Vitória e objeto privilegiado de reflexão em um dia como hoje, no qual nossa dívida para com todos os grupos excluídos ao longo dos séculos deve ser debatida e suas trajetórias únicas e enriquecedoras, valorizadas. O vale do Iguaçu, como todo o resto do país, não pode se furtar a essa tarefa inescapável, como obrigação relacionada ao respeito com sua própria história. Até a próxima!

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