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NACO DE PROSA

Os haters do submersível

As notícias dão conta de que o submersível implodiu algumas horas após iniciar sua descida rumo aos destroços do Titanic. Partes dele, foram encontrados a cerca de 500 metros do navio imperial, que talvez em 2030 não exista mais, devido ao efeito de uma bactéria específica, que o está devorando no fundo do oceano.
Dentro dele, cinco tripulantes, cinco homens, bilionários, ou, no mínimo, milionários.
Pensamentos dos mais diversos tipos passam pelas nossas mentes diariamente, se iremos pô-los em prática em algum momento de nossas vidas? Só o tempo, e dependendo do bolso, é que dirá.
Olhando para meu aquário, no qual um pequeno Betta azul, mexe suas nadadeiras, parecendo dançar nas águas, minha mente remete-me ao ano de 1912, exatamente, no dia 15 de abril de 1912, às 23h50. Lá fora, no oceano, a temperatura girava em torno de cinco graus, mas dentro dos seus quartos, e confortáveis lareiras destinadas à primeira classe, esse frio não era sentido.
Quando, de repente, o choque, o estrondo, a água penetrando na base daquele que, como diriam na ficção, nem Deus afundaria, iniciou sua descida para o fundo do mar.
Para quem não acompanhou sua história, vale à pena assistir ao filme, Titanic, cujo diretor James Cameron, após estreia nas telonas, desceu cerca de 33 vezes até os escombros do luxuoso navio para ver se foi o mais verossímil possível, em suas filmagens.
No caso do submersível, os dedos nervosos já começavam a dedilhar nos teclados mensagens sobre o dinheiro que eles tinham, e que poderiam matar a fome do mundo ao invés de pagar para morrerem de uma forma estúpida.
Há alguns pontos interessantes que podemos analisar nisso tudo, em pequenas frases que estão nas redes sociais, para os descrentes.
Primeiro, vamos pensar em inveja. Sim, há inveja quanto à riqueza do outro. Há inveja em pensar que o outro tem tanto dinheiro, que sem saber o que fazer, decide pagar um milhão de reais para descer até os escombros de um navio. Sem pensar que talvez, apenas um talvez, ele tenha trabalhado para ter este saldo bancário, ou a sorte esteve mesmo ao lado dele, e ele foi um multiplicador de herança, e era tão apaixonado pela história do navio, que antes mesmo do seu desaparecimento, no fundo do oceano, ele quis ver de perto, não apenas nas telonas, o Titanic.
Em seguida, lemos coisas como matar a fome do mundo, ao invés de jogar dinheiro fora. Então, sem pesquisa ou dado algum, a pessoa dedilha e publica ou posta coisas assim para o mundo ler, mesmo sem saber se ele era, de repente, um filantropo, ou um empresário, que poderia ter centenas de empregados, que dependiam dele para sustentar as suas famílias e, que ele poderia não acabar com a fome do mundo, mas daquelas famílias sim.
No mesmo período, um barco naufragou na Grécia com refugiados, nele estavam 100 crianças. E ninguém, ou quase ninguém noticiou, enquanto sobre o submersível, que trouxe de volta a história do Titanic não saia dos noticiários. O motivo? Há diversas teorias. No momento, guardo a minha.
O empenho para a busca de destroços, ou a corrida contra o tempo para salvar os milionários, não foram, nem de longe, os mesmos destinados ao barco. Porém, sem comparações, ou especulações, a vida importa? A vida de todos importa?
Creio eu que sim, a dos tripulantes que se aventuraram no submergível, como a dos refugiados que buscavam uma vida melhor.
O porquê da empatia pender para apenas um lado? Mais uma vez guardo as minhas teorias.
A questão aqui é, a mesma mídia que cobriu o fato do submersível, hora a hora, com atualizações quase ao vivo, de repente, falou mal da mídia que não divulgou a tragédia do barco com refugiados. Fiquei um pouco confusa, esta mídia estava fazendo uma autocrítica, ou era apenas mais um caso de Alzheimer por parte do redator?
Mas voltemos ao fato, para finalizar, penso que todos temos sonhos, às vezes comuns, outras vezes um pouco esdrúxulos, mas dizem que sonhar é de graça, e pelo menos a isso, todos temos direito.
Por sonhar com uma vida melhor, eles morreram em um barco rumo à Grécia. Por sonhar em ver o Titanic mais de perto, eles morreram em uma implosão embaixo das águas.
Eu tenho sonhos peculiares, às vezes, nem para mim mesma falo para não passar vergonha. Se irei realizar? Confesso que muitas vezes tenho vontade, se vão me criticar? Muito provavelmente. Seja por esta questão, ou aquela.
Mas sempre haverá alguém para apontar o dedo, e poucos para estender a mão, porém, se erramos ao arriscar, quem pode nos julgar?
Acredito que às vezes, na realização de certos sonhos, principalmente, aqueles que planejamos há algum tempo, aqueles que fazem nossos olhos brilharem só de pensar, nos deixam um pouco sem noção do perigo, não acredito que os cinco entraram naquele submersível sabendo que iam morrer. Com certeza, eles queriam ir, voltar, jantar com suas famílias, e contar como foi o passeio.
Assim como aqueles refugiados, que queriam chegar em terra firme e recomeçar as suas vidas com seus familiares e novos amigos.
Dois pesos e duas medidas.
Enquanto Bartolomeu, meu Betta azul, continua seguro em seu pequeno mundo, nadando de um lado para outro, penso que foi bom, na época do naufrágio do Titanic, não existirem ainda as redes sociais, pois ficamos apenas com as palavras boas de amparo àquelas famílias, que perderam seus entes, amigos e conhecidos. Estivessem eles na primeira, segunda ou terceira classe.
Fiquemos apenas com bons pensamentos para todos, sem pensar nos pormenores que existiram nos corredores do grandioso e luxuoso Titanic enquanto ele afundava.
Que todos, sem exceção, encontrem paz!

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NACO DE PROSA

A crônica da despedida

Sempre que escrevo a crônica para o jornal Caiçara, aguardo um pouco para analisar o assunto, e a inspiração vem, as palavras escorregam e logo surge um belo texto. Porém, hoje, meus queridos leitores, tenho uma novidade! Hoje é dia de despedida para o jornal “Caiçara”, então a tristeza veio antes que a inspiração. É que esta é minha última crônica para a minha coluna, “Naco de Prosa”, então será a minha despedida deste jornal, que acolheu minha escrita por muitos anos. “Naco de Prosa” me proporcionou a oportunidade de dialogar com diferentes perspectivas, de aprofundar meus conhecimentos e de me conectar com pessoas que compartilham minhas paixões.

 Caiçara há 72 anos, visitando seus leitores, hoje se despede, pois, o jornal impresso ficou impossível de seguir em frente, aquele que dava alegria aos que ainda gostam de ler folheando as folhas impressas. Vieram-me à mente as lembranças de muitas conversas com a grande amiga, Lulu, e o adeus se prolonga.

É muito difícil dizer adeus, mesmo sendo necessário, como é agora, mas é a derradeira crônica, porém, guardo os momentos e as histórias que aqui se entranharam em meu espírito, pois invadi muitos lares, muitas histórias familiares, as quais fizeram parte da minha vida, ao registrar na minha coluna.

A saudade vai apertar aos sábados, por não ter mais o jornal “Caiçara”, saudade de abrir e procurar pelo meu texto. Há um mundo de sentimentos, e não existem palavras para expressar tudo, e ainda fazem minha alma chorar. A vida é feita de ciclos e, com certeza, todos me ensinaram algo. Foi uma experiência incrível, que me fez refletir várias vezes sobre a importância da escrita, e uma emoção não tão tranquila ao sentir, que não mais vou escrever as minhas queridas crônicas para tantos amigos e leitores, será um tempo difícil, porque estive conversando com vocês durante quase todas as semanas, sobre diversos assuntos, e como aprendi nesses bons tempos, assim como toquei o coração de muitos leitores.

Infelizmente é um tempo que se encerra. Talvez você esteja se perguntando: “Mas por quê? O que houve? Pois é, queridos amigos, são tempos difíceis, falo isso para que você consiga entender um pouco da situação e porque você é a razão de eu estar aqui me despedindo e me explicando. Vocês merecem todo o meu carinho e apreço.

Agradeço por me acompanhar até aqui, foi extremamente importante poder escrever para vocês.

Agradeço pelo respeito ao meu espaço, pelas histórias lidas e comentadas, pela procura de mais crônicas semelhantes a que liam todas as semanas.

Agradeço em especial aos diretores do jornal pela oportunidade, aos colegas colunistas, que dividiram o dia a dia, o trabalho e a vida para também escreverem seus artigos neste jornal.

É com um misto de emoções que me despeço desta coluna.

Gratidão a todos, por tudo!

 Com muita fé, gratidão e alegria, que encerro esse momento. 

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NACO DE PROSA

Naqueles trilhos faltava ela

Ouço ao longe o apito do trem. Na minha adolescência o apito significava muitas coisas, a alegria da chegada de cargas, pessoas, correspondências, novidades de outros lugares.

Eu resido próximo à linha do trem, por isso, posso afirmar, que só quem ouviu vai entender esta onomatopeia: piui! piui!

O apito servia como um marcador de tempo ou até instrumento de aviso à população sobre alguma calamidade; como relógio, as pessoas sabiam de onde vinha o apito, e calculavam a hora do dia, e quando o último sibilar acontecia, todos sabiam que era tempo de silenciar e repousar. Interessante lembrar o poema de Manuel Bandeira, “ Trem de ferro”, o qual usei com um grupo de crianças para fazermos o barulho das rodas nos trilhos de ferro. A escolha das palavras e repetição do verso “café com pão”, “café com pão”, a sonoridade das palavras do verso, produziam uma sequência de sons que nos reportam ao barulho proveniente do deslocamento de uma locomotiva sobre os trilhos. O guarda-chaves manobrava os desvios, entroncamentos dos trilhos, trabalho importante de grande responsabilidade, e quando o trem se aproximava de um trilho com outro destino, a máquina de ferro simplesmente deslizava feito serpente, à outra linha. Um passado que voltou.

É ela voltou aos trilhos, ela que veio trazer alegria às famílias, principalmente às crianças. Pude observar o embarque, na estação, observei de perto cada rostinho, cada gesto, cada sorriso, todos mostravam sua felicidade de um momento de glória, viajar de trem.

Eu costumo dizer por aí, que tenho uma das vistas mais privilegiadas do mundo.

Não moro em um palácio nem no alto de uma colina, mas porque, daqui, exatamente onde estou, posso ver a fumaça da “Máquina 310” passando, e com ela, meus pensamentos seguem e volto a um tempo do qual, eu não queria ter saído.

Mas como não somos os donos do tempo, apenas aceitamos e seguimos, entre suspiros e algumas lágrimas que cismam em molhar nosso rosto.

Lembro do tempo em que meu pai se despedia, ainda na cozinha em que minha mãe preparava o café, para ir à estação e pegar o trem para o trabalho.

Eu o veria novamente, com muita sorte, daqui a uns dois ou três dias.

Quando eu tinha uns cinco anos, meus olhos mal conseguiam ultrapassar a altura da janela, eu ouvia de longe seu apito, e corria para ver se, de repente, meu pai não estaria do lado de fora, acenando para mim.

E os anos se passaram, meus pais hoje não estão mais aqui, o café já está frio sobre a mesa. A janela fechada. Cortinas cerradas.

Foi quando num salto achei que, enganada pelos meus cansados ouvidos, ele havia voltado. A cozinha foi invadida pelo cheiro do café forte, sempre três colheres bem cheias, minha mãe repetia em voz alta. Meu pai saia do quarto, afivelando o cinto, cabelos alinhados e o abraço mais terno e quente que havia.

Mas o tempo não havia voltado, não da forma que eu imaginei. Mas, sim, o tempo atual, que trouxe de volta uma parte da minha infância, a Locomotiva 310, nossa querida Maria Fumaça. Que fazia tremer os trilhos e nos afastava para longe devido ao perigo que havia quando ela passava apitando.

E quantas lembranças boas! Hoje, de volta aos trilhos, ela traz consigo um passado bom, um passado perdido no tempo, há muito tempo. E quando, após anos, volto a entrar em um dos seus vagões, segurando na barra da entrada para conseguir impulso, vejo aquela pequena menina, que aos pulinhos ia encontrar seu papai na estação. O pai abaixava, deixando a cesta de alimentos para me dar o abraço que eu esperava.

Seu apito entra direto em minha alma, e junto ao compasso do meu coração, traz novamente à minha rotina, a sinfonia de um lindo e distante passado, aquele que carrego em meus sonhos de menina.

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NACO DE PROSA

Fatos que nos surpreendem

Às vezes acontecem episódios, que achamos só coincidência, pura obra do acaso, porém, não é bem assim.
Sempre gostei de estar entre livros, poemas, bibliotecas, museus e sebos. Há um bom tempo pediram para eu escrever um poema para homenagear minha cidade, União da Vitória. Este poema foi apresentado em alguns eventos, quando eu o declamei. Meses depois soube que a presidente da Avipaf, em Curitiba o colocou em exposição junto a outros poemas, na biblioteca do Paraná, Curitiba. Eu estava na cidade e aproveitei para visitar a exposição, fui com minha filha.
Fiquei deslumbrada com tantos poemas maravilhosos. Fixei no meu. De repente, se aproximou um senhor, foi lendo vagarosamente cada um. De repente, ele falou ao celular com um amigo e disse: – Fulano, você não vai acreditar, estou na frente de uma exposição de poemas e, um é sobre União da Vitória. Ele estava empolgado. Olhei para minha filha com espanto, eu parecia uma poeta famosa.
Logo que ele desligou o celular, olhou para nós e falou:
Estou muito feliz, pois nasci em União da Vitória, morei por muitos anos lá, sinto muitas saudades, e agora venho aqui e encontro esta pérola.
Minha filha não conseguiu ficar calada e disse: -Foi minha mãe que escreveu este poema.
Ele arregalou os olhos, percebi que estava muito emocionado.
Quis conversar um pouco mais, acabamos trocando número de telefone, até hoje mantemos contato.
No entanto, não era a história que eu planejava escrever.
Curioso é que os fatos são similares.
Na semana que passou viajei a Curitiba, como gosto muito de livros procurei um lugar para quem sabe comprar algum título. Passei em frente a uma vitrine com muitos livros expostos, li na placa que era um Sebo de livros. Observei com calma os títulos que se mostravam para mim. Confesso que um era melhor que o outro. Quando resolvi entrar na loja, percebi pelo reflexo que atrás de mim, havia um senhor, que estava com o olhar fixo em um determinado livro.
Minha curiosidade aumentou, pois, o livro me chamara a atenção também, porém devido ao reflexo eu não conseguia ler o título. Olhei o senhor, que agora havia se aproximado da vitrine, quis perguntar a ele, mas desisti, deixei-o quieto, pois estava extasiado com o que via.
Era com certeza, um morador de rua, estava com roupas surradas e uma sacola, e não desviava o olhar daquele livro.
Resolvi indagá-lo.

  • O senhor é daqui?
    -Percebi que gosta de ler, pelo seu interesse. O livro, que o senhor gostou, eu também achei muito interessante a julgar pela capa.
    Eu me apresentei, falei de onde eu era, o que fazia ali, falei também o meu gosto pela literatura. Ele estendeu a mão, em um aperto firme, e também se apresentou.
    Disse que há muito tempo morava nas ruas e, que quando pode consegue com alguém um livro para ler, falava muito bem, possuía um excelente vocabulário.
    Perguntei-lhe de onde vinha o gosto pela leitura. Ele baixou os olhos e percebi que chorava, eu fiquei sem saber como agir, fiquei muito assustada.
    Ele se recuperou rápido e pediu desculpas pelo acontecido. E sem demora me contou que em um passado recente fora um escritor, e conseguia viver da venda dos livros, mas sua vida sofrera uma mudança muito grande, ele havia conquistado um nome respeitável, conseguiu abrir uma editora, onde ajudava os iniciantes a publicar seu livro. Porém, devido a uma injustiça, a qual tentou por muito tempo provar a verdade à sociedade, não houve tempo, ficou na miséria, sua casa, carros, enfim perdeu tudo, e ficou com muitas dívidas. Sua família envergonhada o deixou sozinho, foi embora do Brasil. Disse-me que ainda tenta reaver alguma coisa, mas sem condições. Os amigos se foram.
    Contou-me que já havia morado em vários lugares, mas sempre por pouco tempo. Hoje ele sente que está conformado com o que lhe aconteceu, e cansado de lutar sem esperança. Olhou seu livro de longe e chorou copiosamente.
    Eu não sabia como ajudar.
    Perguntei-lhe se estava com fome ou se precisava de algum dinheiro, me respondeu que não precisava de nada.
    Meu coração estava triste, pensei em uma solução.
    Entrei na loja e comprei o livro, senti o peso daquela obra.
    Voltei com uma caneta nas mãos e pedi seu autógrafo, ele muito surpreso falou:
    -Qual é o seu nome, querida?
    Eu respondi com engasgo na garganta:
    -Marli.

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