COISAS DA BOLA
AH! ESSE FUTEBOL QUE EU AMO TANTO…
Ele chegava da aula com as vestimentas em pandarecos. Na parte dos joelhos das calças, então! Toda raspada e suja. A pelada no pequeno campo no colégio era sagrada na hora do recreio, o couro comia. A chiadeira da mamãe entrava por um ouvido e saia por outro. Ele almoçava e ficava negaceando, e no primeiro momento em que ninguém estivesse olhando, armava a capa e rumava aos campinhos das redondezas. Voltava na boca da noite, só caibro e vigamento. Umas palmadas era coisa certa, mas de nada adiantava. No dia seguinte as cenas se repetiam. Como tentativa para o piá não mais fugir, as palmadas aumentaram em quantidade e em força. Até as bolas que ele tinha em casa, na ojeriza, sua mamãe passou a queimá-las. Essas ações de momento adiantaram. O piá começou a ficar em casa, mas sempre, não se sabia de onde, surgia uma bola por ali. Percebeu-se que a cada fornada de pães feito pela mamãe, um deles desaparecia. Antenada e na desconfiança, a mamãe ficou na espreita e descobriu que a cada bola que ela queimava, uma nova aparecia. Ela era trocada por um dos pães com os meninos das proximidades. Tudo mudou quando papai e mamãe, por detrás da cortina da porta do quarto viram o pequeno varão dormindo com uma bola ao lado do rosto. Mamãe atribuiu a culpa ao papai por ter colocado no menino o nome igual ao de um famoso craque de futebol. Papai e mamãe se compadeceram. As atitudes começaram a ser outras. O papai fez uma trave no fundo do pequeno pátio, e com os parcos tostões ganhos dos cortes de cabelo em sua barbearia, mandou fazer uma varanda de canto a canto da casa, onde nos dias de chuva os chutes na redonda estavam garantidos. O piá não fugia mais em direção aos campinhos. Usando de criatividade, com arames retirados de pneus velhos ele enjambrou uma rede naquela pequena trave e jogava bola em casa com a leva de piás, que por ali passaram a frequentar. A cada tento naquela trave ele gritava: golll… do craque vascaíno, Jair da Rosa Pinto. O tempo foi andando, os chutes na bola foram abrindo portas para aquele não mais piá. A bola foi parceira na formação de seu caráter. Ele cresceu, e por muitas veredas conheceu chão nunca imaginado. Ganhou o mundo da bola. Ficou conhecido e reconhecido como pessoa de bem. Ficou maduro, casou e teve filhos. Na sua casa, toda e qualquer tipo de bola por ali tem. Junto com a família e a fé, a bola também ajudou a formar o caráter de seus filhos. O tempo andou mais, seus filhos lhe proporcionaram uma alegria nunca imaginada e sentida, lhe deram muitos netos. E a bola sempre presente na vida de todos, ajudando na formação de homens de Deus, de família e do futebol.
Salve e viva o futebol… não só no seu dia, 19 de julho…, mas, todo sempre. O balão de couro transforma. Me transformou. Sou só gratidão ao Papai do Céu, por, desde criança, me deixar apaixonado por um “capotão”.
Jair da Silva – Craque Kiko – Escritor da periferia.
DO ESCRITOR DA PERIFERIA – NO MUNDO DA BOLA.
O estádio arrebentando de gente. Era dia de finais do certame de futebol de campo. O único ainda existente nas cidades irmãs e redondezas. Os apaixonados pelo ludopédio estavam ali. Torcedores ferrenhos de esquadrões tradicionais também marcavam presença. Afinal! Seus quadros peleariam em busca de mais um caneco. A festa era bonita. Famílias inteiras se deliciavam naquele domingo totalmente claro e raiado pelo astro-rei. Dentro do palco verde os contendores duelavam quase com o coração nas mãos e a alma na ponta das chancas. Tudo foi lindo. O público vibrou. Os melhores dentro do tapete verde triunfaram. Levantaram o caneco, entregue por autoridades.
Era chegado o fim da tarde esportiva. Os lares esperavam todos com as portas abertas. Também eu, após a cobertura esportiva, queria ir. Cansado, não via a hora de chegar no meu barraco, tomar um banho e forrar o peito bebericando uma loura gelada ao lado da minha família. Ansiava por isso, presenteado que deveria ser, também, pois o Vascão da Gama, pelearia na noite e me daria a alegria com mais uma vitória. Quase tudo foi festa.
Fui para a minha condução. Por segurança, inspecionei nos quatro lados do veículo para ver se ninguém estava por ali. Tudo limpo, nem uma viva alma. Dei a partida na ignição e coloquei uma marcha ré, para, daí, imbicar e seguir em linha reta retornando para casa. Me assustei com o gritedo, pois não tinha visto ninguém. Parei e desci rapidamente. O pneu traseiro direito tinha feito um arco no pneu traseiro de uma bicicleta, que do nada apareceu ali. Um fulano, conhecido de vista, com as mãos na cabeça gritava para tentar me fazer ver a cagada que eu tinha feito. Pedia dinheiro para consertar a magrela. Percebia-se facilmente que a mardita cachaça estava nele. Ele fedia álcool. Não acreditando no acontecido, extenuado, eu queria é vazar dali. Depois de muita trova, ficou acertado para que o elemento levasse a bicicleta em uma oficina e consertasse o aro traseiro. Eu pagaria.
Quarta-feira, na boca da noite o fixo tocou, atendi era o dono de uma oficina de bicicletas me cobrando o conserto. Quase caí de costas pelo valor cobrado. Fiquei na ojeriza. Já bufando, disse que passaria lá no dia seguinte para conversarmos. O dono da oficina, também foi grosso, quando disse: – conversar que nada, venha cedinho pagar. A noite não prestou. De manhã me apresentei na oficina. A anotação do serviço feito na bicicleta era grande. Praticamente o dono dela mandou fazer uma reforma total e tinha trocado várias peças. Possesso, mas para manter aquilo que sou, paguei. É bom que se frise, a bicicleta era um verdadeiro pau veio. Mal cuidada, fazendo jus ao dono, um porqueira. Ficou nova em folha, com o meu dinheiro.
Um novo certame de futebol de campo. No mesmo Estádio. Abnegados da comissão, para me homenagear, deram o nome da competição Copa Craque Kiko. Estou lisonjeado. Com mais amor a essas atividades esportivas, estou fazendo a cobertura do certame. Faço reportagens, tiro “chapas” dos esquadrões, dos torcedores e daqueles que me pedem para aparecer na fita. O faço com muito gosto. São desportistas, merecem estar nas páginas.
Em rodada de final de semana, para variar, e porque estava precisando me movimentar, fui de magrela para o Estádio. Andando por veredas diferentes, quando já estava perto do campo, um senhor desconhecido se pinchou em frente à bicicleta. Fui obrigado a parar. Ele me pediu desculpas pelo atrevimento, mas tinha uma coisa para me contar. Disse para ele: – Sou todo ouvidos, o senhor pode falar. Antes de começar a narrativa pretendida, ele pediu que eu não o complicasse e não contasse para ninguém. Não posso prometer nada, não sei do que se trata, falei. Ele abriu a matraca. Falou que espreitou no ano passado, quando o dono da bicicleta jogou de propósito a magrela embaixo do pneu do meu carro. Confidenciou que estava mijando ao lado do alambrado do campo. Viu tudo. Falou também, que em um certo bar naquele bairro, quando bebem umas, o dono da bicicleta e o dono da oficina dão risadas por terem logrado o jornalista esportivo.
A competição deste ano está afunilando, o público a cada rodada aumentando. No ato do fato, tenho feito reportagens. O povo pede fotos. Fotos tiro eu. De todos? Não de todos. Do dono da bicicleta não. Quando aponto a câmera para a arquibancada, bancos ao redor do campo, alambrados onde tem uma junção de amigos e desportistas, do nada, o fulano se junta querendo aparecer nas minhas lentes. Finjo que tiro. Nas minhas chapas e nas minhas páginas este cidadão é uma “persona non grata”. Ele que vá aparecer em fotos no quintal do inferno. O desprezo é o meu presente. Desculpem o fel no meu dizer. Também não sou isento de pecados.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso
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COISAS DA BOLA
Mais uma de galo de briga
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Acadêmico da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.
Texto do livro prestes a ser lançado – Causos da vida de fato.
Um fulano de posses. Ele perambulava entre a elite e proletariado, mas entre a classe menos abastada é que se sentia à vontade.Amigo do peito dos amigos, sociável e de uma humildade a toda prova. Sempre que lhe solicitada uma ajuda, o fazia com gosto. Era muito conhecido em toda a região. Visto com um baita futuro político. Diziam, seria um prefeito, um deputado ou até um político nas mais altas esferas, por que não!Adorava uma caçada, tinha cães bem treinados. Corrida de cavalos, então, o fazia vibrar. Agora, em um rinhadeiro, seus galos de briga eram dos bons, muitos troféus faziam parte de sua galeria. Isso é um pouco do que era o Ivan. E, é sobre ele e briga de galo essa narrativa.
O povo entupia aquela rinha. Aquele ar enfastiado de catinga dos penosos, enfumaçado pelos paieiros feitos com fumo em corda, era conhecido daquela gente, que saído da raia de cavalos, ali do ladinho, já com muitas biritas pela cachola, vinha terminar aquele domingo assistindo a enorme e esperada peleja entre o invicto e famoso galo Branco, do Ivan. O oponente era um não menos famoso galo, também sem ter nunca conhecido um revés, da localidade conhecida como Três Barras, cidade vizinha da capital da erva-mate, Canoinhas.
Já ia para duas horas a luta, pau a pau. Era uma briga de gigantes, mas o galo visitante, tinhoso e técnico, até parecia que teve aulas, esporeava e dava bicadas certeiras. O galo Branco, após um pialocerteiro estava com um olho cegado, mas ainda peleava de igual para igual, até que, não deu mais para ele. Um contragolpe do visitante fez vazar a outra vista. Aí, foi uma verdadeira saraivada de golpes, mas resistia, e nas escuras tentava revidar. Seus golpes iam ao vazio, não achavam o seu algoz. Perto de três horas de uma verdadeira tunda, mas sempre em pé, valente, sangrando muito e só com a “capa da gaita”, o galo Brancotodo estoporado não atirava os panos. Não fazia parte da sua natureza se entregar. Então, o Ivan, com seu coração gemendo de pena, vendo tamanha judiaria, jogou a toalha e assumiu a derrota do galo Branco.
Zenóbio, um senhorzinho, amante inveterado de prélios galináceos, que não perdia de vista nenhuma contenda naquela rinha, pediu para si aquelegalo Branco, que na visão de todos por ali, tinha adquirido a aposentadoria por invalidez. Foi presenteado com o galo, e ouviu com tristeza do Ivan – faça um bom ensopado. Mas, Zenóbio, que pela experiência de vida, muitas vezes enxergava além muros, tinha outros planos para aquele galo. Vira nele uma raça fora do comum, pois aguentar em pé quase três horas de peleja, totalmente cego e levando pialo a briga toda, não merecia ir para a panela.
Antibióticos, banhos mornos, pomadas nas feridas, massagens com catinga de mulata e muito rango bem vitaminado, passou a ser o dia a dia daquele galo. Em três meses, com cegueira total, estava recuperado da sumanta levada no seu último combate. Foi fechado a sós em um pequeno galinheiro com uma galinha forte ebotadeira, que se achava a rainha da cocada preta. Fez valer o seu instinto de macho. Com a galinha tremendo e arrepiada, a cruza foi inevitável. No primeiro e único ovo daquela galinha periguete, deu o ar da graça neste mundo, um pintinho totalmente com penugens de uma brancura total, que a cada dia se via, saíra o focinho do papai.
O pinto cresceu e virou um galo porrudo. Zenóbio com seu vasto conhecimento o pôs em treinamento puxado. Vira naquele galo um futuro promissor, que poderia lhe dar muita mufunfa, mas não era só esse o seu interesse. Por intermédio de um telegrama enviado na Estação Ferroviária União, atou uma briga em altas cifras com aquele famoso galo de Três Barras, que ainda seguia invicto dando troféus e dinheiro para o seu dono.
Mais uma vez o rinhadeiro estava apinhado. Pulgas por ali se sentiriam espremidas. Tinha gente de todos os cantos e tocas das beiradas do Rio Iguaçu. Era a última briga daquele domingo. Mesmo sem terem visto o galo do Zenóbio, as apostas eram vinte e quatro contra um, favorável ao galo visitante, invicto e famoso. Como se fosse um prélio futebolístico alguém deu um apito para começar a renhida luta. Não foi renhida. Em poucas passadas, com golpes certeiros que pareciam igual a jogadas ensaiadas, o galão tresbarrensebeijou a lona e ficou estrebuchando. Era como se fosse uma vingança que estava engasgada, aquele galo vingara o galo pai.Zenóbio forrou a burra de tantas cédulas.
Abismado pela valentia daquele galo, Ivan quis saber de onde ele surgira. Zenóbioentão, contou toda a história, tintim por tintim e lhe deu de presente, pois aquele penoso era filho do cego galo que ele lhe dera para fazer um ensopado.
Naquela segunda-feira, ao viajar para o litoral para dar cuidados a uma de suas empresas, viajando tranquilo, Ivan teve o seu bilhete de passagem vencido, era a hora do seu desembarque. Do nada, uma encosta desmoronou e caiu sobre o seu auto. Ele desencarnou, e deste chão terreno, sob o comando de Zenóbio, não pode ver as glórias daquele galo, que passara a ser chamado de “Campeão”, do Ivan.
COISAS DA BOLA
Da inocência para o mundo cão
Ele tinha 17 anos, ela 16. Sempre que ele saía do treino, em frente da casa ela o esperava passar. Do outro lado da rua ele sorria, mas tinha receio de puxar uma prosa. Ela, espivetada, cansou de só ficar olhando. Puxou papo:
– Está com medo de mim?
Tímido. Criando coragem não sabe de onde, ele se achegou e proseou:
– Sim, tenho medo – nunca conversei com uma moça do teu naipe.
Pegou a mão direita dela, e com delicadeza beijou. Ela vermelhou toda. Ele sentiu ela tremer. Ela deu um beijo na bochecha dele. Emocionado, ele tremeu na base. E, foi desse jeito, que ataram um namoro.
Todo dia após o treino do esquadrão profissional, ela estava na frente de casa esperando por ele. Suspirava ansiosa quando ele demorava. Ele não via a hora de estar com ela. Ocultos por detrás do portão roubavam beijos. Os arroubos da juventude afloravam. A libido dele ia para a copa dos paus. Ela se umedecia nas partes íntimas.
Já não aguentavam aqueles encontros furtivos atrás do portão. Começaram a se encontrar num paiolzinho nos fundos da casa dela. O pai não queria de jeito nenhum que ela namorasse. Ela era nova de tudo. Namorar com um boleiro, jamais. O pai sempre estava de botuca, mas era logrado. Quando ia trabalhar, o namorico deles pegava fogo naquele paiol, mas não iam além de umas poucas bulinações.
O prélio pelo paranaense seria em Bandeirantes, contra o União. Na famosa Vila Maria. Viajando durante nove horas, ele matava a saudade ouvindo as músicas românticas nas fitas cassete que ela lhe emprestara junto com o seu gravador. Nessa viagem ele atinara. Estava perdidamente apaixonado. Na volta, ficaria nas barbas com o “sogro” e pediria para namorar de forma oficial. Se ele não deixasse, roubaria a filha.
A volta era muito esperada. Venceram o cotejo por um a zero. Ele fez o tento bimbando uma falta. Mais nove horas de viagem. Noite toda. Ele muito feliz e com saudades dela. O consolo foi ouvir as músicas românticas. Seis horas da manhã aportaram na Sede do esquadrão. Ele dormiu no colchão sobre um beliche até meio dia. De banho tomado, roupa nos trinques, recendendo desodorante Avanço, do lado do alojamentobombiava e esperava que o pai dela fosse trabalhar. Enfim! Ele foi. Na correria foi até lá. Pela primeira vez ela lhe abriu a porta da casa. Ele entrou afoitamente. Entre beijos e abraços, passou uma rasteira e ela se estirou ao chão. Ajeitou o couro no terreno e se preparou para atirar forte. Em cima dela. Beijos, beijos e mais beijos. Ele, ávido, rasgou aquela blusinha fina, retirou o sutiã e com a cabeça entre aqueles enormes seios, ora em um, ora em outro, chegou a revirar os olhos de tanto sugar.
Desconfiado, naquele dia, o pai fez que foi e, não foi trabalhar. Dando uma de “Migué”, lá na esquina ficou na espreita. Para sua própria desgraça armou um flagra. O que veria, nunca imaginou, talvez um futuro genro, “bezerrão”. Irado, enquanto correu para apanhar o machado lá no paiolzinho, o ex-futuro genro escafedeu-se, ouvindo que era um piá de bosta com os dias contados.
O caminho deixou de ser pela frente da casa dela. Recebeu de volta todas as cartas perfumadas escritas para ela. Junto na bolsa, veio um bilhete alertando-o. A par do flagrante, o irmão dela, um louco varrido, junto com um bando iriam canchá-lo de pau. Que se cuidasse. Ele se armou. Começou a andar berrado. Dando uma desculpa esfarrapada, emprestara de um amigo polícia um 38 de marca Schmidt. Andava com aquele caga-fogo escondido na parte detrás da cintura.
Armados de porretes, o bando lhe cercou. Quando foram lhe atacar, fez aquele trabuco cuspir fogo. Criou um rebuliço. Foi uma correria daquela turma. Nunca mais o importunaram. Mas, perdera de vez a namorada. Com muitas saudades, para conter o sofrimento, dentro da sua patente, vivia fazendo dedicação para ela usando os “cinco contra um”, imaginando estar sugando as suas enormes e duras tetas.
Sabedor que ela estava de mira com um grã-fino, com um calorão na testa começou a frequentar um balcão. Um amigo de paleta vendo a sua sofrência, convidou-o para ir junto em um casamento. Após emprestar um paletó, de peru, apareceu na festa do casório. Viu uma moça a fitá-lo. Com uns goles a mais, ele virou um poeta. Encantou-a e se encantou com ela. Ali, acabara de conhecer um grande amor da sua vida, não para todo o sempre, pois o para sempre não existe, um dia vira fumaça.
COISAS DA BOLA
A difícil peleia para se aposentar
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Perícia daqui e perícia de lá. Ele estava sendo julgado insano. Era mais um encostado pela previdência social. Voltar a trabalhar estava fora dos seus planos, nem a “pau juvenal”. Queria ser aposentado a qualquer custo.
A nova perícia estava próxima. Um dia antes, ele tomava uns goles de pinga misturada com pólvora. Juntos nessa mistura, dois comprimidos para dormir. Seu corpo começava a demonstrar que estava com algum mal. Seu coração parece que ia sair do peito. Tremeliques e palavras desconexas. Já fora da casinha, novamente ele circulava pelado pelo pátio do prédio. Imaginando ter nas mãos uma “maquina” de procurar ouro, afirmava que o fundo da fossa estava repleto dele. Aos gritos e plantando bananeira com o fiofó virado para a lua, ele via novamente a ambulância chegar para atendê-lo.
Famoso pelo ato, já era conhecido dos enfermeiros. Obedecia-os, e dentro da Van seguiam para a UPA dando risadas. Cara a cara com o médico de plantão, armava um banzé. Um sossega leão na veia levava-o ao sono tranquilizante. Um internamento era inevitável. Após dias, medicado, recebia alta hospitalar. A sua pretendida aposentadoria por invalidez, imaginava, caminhava a passos largos. Logo, logo pintaria. Voltar para o trampo, nem por misericórdia. Mas, eis, que, como um aborto da natureza, a sua cura apareceu do nada quando foi enviado para um sanatório.
Em uma noite, um dos plantonistas daquela casa para loucos não aguentando a fuzarca armada pelo pretendente à aposentadoria, resolveu ir para forra. Enquanto o interno dormia anestesiado o sono dos loucos, socou-lhe papel higiênico na boca e nos dois ouvidos. Também, com o interno deitado e amarrado na cama com a "busanfa" para cima, o enfermeiro tirou-lhe as pregas. Deflorou-o e gostou do ato. Toda noite o fato se repetia, mesmo com o interno acordado. Indefeso, só lhe restava chorar em silêncio. Algumas vezes reclamava, só que ninguém acreditava em suas palavras. Não aguentando mais aquelas sevícias, o louco de araque começou a se comportar. Melhorou do dia para a noite. Logo ganhou alta. Voltou a trabalhar no seu serviço público, mas lhe doía o botuqueiro quando entregava cartas sentado no selim de uma bicicleta.
Depois de anos, a sua tão esperada aposentadoria veio, não por invalidez, mas por tempo de serviço. Infelizmente ficara com sequelas - um de seus ouvidos ficou surdo e o seu fiote estava alargado. Só de imaginar em ouvir a palavra sanatório, ficava pianinho, e se escondia embaixo da cama. Quando encontrava aquele enfermeiro do sanatório, que virara seu vizinho de porta, suas vistas transbordavam em lágrimas.
Uma tarde para não se esquecer
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Um frio do capeta. Lá fora o vento ainda fraco, mas longe de ser somente uma brisa, balançava os pequenos galhos das duas pequenas palmeiras nos extremos do meu pequeno jardim retangular. O Sol há dias tinha deixado de nos visitar. Eu, parado frente da janela do meu museu-estúdio, olhava lá para fora querendo entender porque o Dom Bilu não parava de latir no grande portão. Naquela hora, ele deveria estar ninando dentro da sua casinha, lá nos fundos da garagem. De onde eu estava, só conseguia visualizar a metade do portão. Querendo descobrir o porquê da tamanha latição, colocando o chapéu, sai pela porta dos fundos e marquei presença junto dele na frente do dito portão. Descobri o motivo, e esquecendo o dia cinzento, frio e neblinoso, abri um enorme sorriso.
O motivo era justo e merecia aquele ganiçar, desde que fosse uma declaração de amor ou um elogio para ela. A cadelinha era linda, igual a sua dona que a segurava por uma pequena corda. A dona da, quem sabe futura namorada do Dom Bilu, foi-se dali levando a cachorrinha. Dom Bilu se acalmou, saiu na correria até a garagem lá no fundo do pátio e voltou trazendo na boca, aquele pedaço de dinossauro de borracha já meio esgaceado. Entendi de cara o que ele desejava. Então, jogando aquele toco de dinossauro da frente do portão até os fundos do pátio, cerca de 35 metros, iniciamos o preparo físico dele. Eu arremessava o pedaço daquele réptil, ele saía na correria, apanhava e trazia até mim. E, assim, após vinte arremessos, com ele já colocando a língua de fora, encerramos os trabalhos.
Para me recuperar, já sentado no banco do pergolado lá no fundo do quintal, enquanto eu bebia um café na xícara do Vasco, o Dom Bilu sentado ao meu lado, salgava o peito com uma iguaria feita pela minha esposa. A cada gole daquele café quente e gostoso, encarando o cãozinho, que também me encarava após uma dentada ou outra naquela perna de galinha, nós dirigíamos o nosso olhar lá para o portão da frente. O Dom Bilu na ânsia que aquela cachorrinha retornasse, e eu, esperando uma caminhonete de lenha picada, que recém tinha encomendado.
