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COISAS DA BOLA

Fragmentos de uma infância

Noite sim, e noite também, o compadre Ava e a comadre Landa rumavam até nossa casa para prosear, tomar um capilé e jogar um pife. Naquela noite, só apareceu a madrinha Landa. Justificou, que o marido Ava fora pescar com uma turma de amigos lá para as bandas do Rio Timbó. Pediu para minha mãe se o seu afilhado poderia dormir na sua casa. Tinha medo de dormir sozinha. E, lá fui eu, nos meus dez anos, cuidar da minha madrinha.
A casa dela, de madeira, ainda cheirando à construção recente, comprada de um senhor que morava na beira da antiga Linha Velha, rangia com a leve brisa daquela noite. Papai foi quem fez o transporte com seu velho caminhãozinho Ford F600. Tinha ajudado a desmontá-la e montá-la no lugar atual.

Deitadinho ao lado da madrinha, eu tentava não tossir pela grande quantidade de fumaça dentro daquele pequeno quarto de dormir. Com um canivete afiado igual ao fio de uma navalha, após, cortar o fumo macaio e enrolar em uma palha de milho, ela fumava um paieiro atrás do outro. Parecendo nervosa, deitada de pança para cima e fitando o vazio, resmungava e falava baixinho – o Ava me paga, ele mentiu para mim, não foi pescar coisa nenhuma, tem rabo de saia na jogada. Sem idade para entender o palavreado, eu só queria dormir para acordar logo cedo e armar a capa dali fugindo daquela fumaceira.
A noite já ia para a madrugada, e numa tosse após a outra, acordei. Vi a madrinha Landa roncando. As labaredas já tomavam conta. Gritei e gritei, assustado. Ela acordou. Só tivemos tempo de sair para fora. Tudo ardeu rapidamente. Sobraram ali as cinzas e as muitas lágrimas na feição da madrinha. Ela se ojerizou mais, quando no clarear do dia, o padrinho Ava chegou, e meio sem jeito, lhe entregou uma fieira de lambaris.

Uma mãe. Um filho.

Filho de mãe solteira. O pai, já finado, nunca quis saber dele. Era a mãe e o filho, sozinhos, um para o outro. Eram unha e carne. Se amavam muito. Nunca se largavam. Viviam, um em função do outro. Separados, morreriam. Por que, sem um ou outro, de que lhe valeria viver?

Aquela mãe fez até o impossível para criá-lo bem. Conseguiu que ele não fizesse nada que não fosse direito. Ele dera um rapaz estimado por todos. Na lida então! Se sobressaia. No final da tarde ela sempre o esperava no portão. Quando ela saía para algum afazer, ele não sossegava enquanto ela não chegasse. Ficava ansioso esperando-a. Não quis casar, pois uma nora poderia incomodar a mãe.

Nas vezes em que tomavam chimarrão ao rodar do Sol, sentados à frente da casa conversavam comprido. Ela confidenciava – se ele lhe faltasse, se mataria. Cortaria os pulsos. Ele a acalmava – jamais te deixarei amada mãe. Você é tudo o que eu tenho, quero e preciso. Sem você, não sei se terei forças para prosseguir na jornada. E, assim viviam felizes, um para o outro.

Naquele final de tarde de uma sexta-feira, chovia de bica. Relâmpagos e trovões no céu. Não estranhou ela não estar lhe esperando no portão. Pensou! Não quer se molhar. Entrou, tirou a roupa molhada… sentiu algo estranho no ar. Se arrepiou todo, teve medo. Onde estava a sua mãe? Se perguntou! Chamou, chamou, gritou, gritou e nada. Procurou-a nas peças da casa. Lá estava ela dentro da banheira, somente com a cabeça de fora, ainda com os olhos não revirados. Parecia lhe sorrir. Mas, tinha dormido seu definitivo sono, de parada cardíaca. O chão fugiu de seus pés, ele quase desmaiou. Doeu de montão, dor sem jeito de se medir.

Como de costume naquele chão, chamou uma funerária para providências. Não veio o rabecão, e sim, uma picape. Sentado na traseira, com um guarda-chuva, se protegia e protegia a morta, não conseguiu. O guarda-chuva voou devido excesso de velocidade. Numa freada inesperada, bateu a cabeça na janela traseira. Um galo enorme ficou visível na sua fachada. Era mais uma dor, somada ao desespero. O mundo parecia estar indo ao fim. Doía, doía, tanto, tanto, que pareceu que ele não resistiria. Resistiu.

Enfim, os trâmites transcorreram na normalidade. Não tinha vaga no cemitério. Teve que cremar o corpo. Menos mal, dentro daquele pote as cinzas ficariam na sala. Estariam junto dele. Agora era vida nova, tinha que se acostumar, conseguiria? Uma dor daquelas, curava-se somente com muito tempo. E, ele passara rápido, mas a saudade teimava em ficar ali. Não queria ir embora de jeito maneira. Como consolo vivia beijando aquele pote de cinzas.

O tempo passou e amainou a dor e a saudade. Era chegada a hora de desfazer-se das roupas e objetos dela. Encontrou em cada peça da casa, escondida em algum canto, uma gilete. Atinou, que era verdade o que ela sempre lhe falava, que se ele faltasse, se mataria cortando os pulsos. Chorou, chorou e chorou.

Mais tempo passou, arrumou uma namorada. Daquelas, linda de morrer. Se apaixonou de loucura. Juntou os trapos. Ela foi morar com ele.

Um dia, ao tirar o pó dos objetos na sala ela encontrou aquele pote cheio de cinzas. Jogou no vaso sanitário. Puxou a descarga. Foi a maior cagada que fez. Viu ao maior desespero a que ele foi, ao notar que o pote estava vazio. Conheceu o lado monstro dele. Com uma gilete daquelas da sua mãe, cortou os pulsos da companheira. Viu-a, agonizando, esvair-se. O assoalho ficou vermelho. De frente ao crime, ligou para os tiras. Sentado ao lado do corpo bebeu uma, duas, três pingas misturadas com pólvora. Fez o sinal da cruz e murmurou oração. Com a mesma gilete cortou a sua jugular. E, lá fora chovia novamente, água em bica…

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A difícil peleia para se aposentar

Do escritor da periferia – Craque Kiko.

    Perícia daqui e perícia de lá. Ele estava sendo julgado insano. Era mais um encostado pela previdência social. Voltar a trabalhar estava fora dos seus planos, nem a “pau juvenal”. Queria ser aposentado a qualquer custo. 

    A nova perícia estava próxima. Um dia antes, ele tomava uns goles de pinga misturada com pólvora. Juntos nessa mistura, dois comprimidos para dormir. Seu corpo começava a demonstrar que estava com algum mal. Seu coração parece que ia sair do peito. Tremeliques e palavras desconexas. Já fora da casinha, novamente ele circulava pelado pelo pátio do prédio. Imaginando ter nas mãos uma “maquina” de procurar ouro, afirmava que o fundo da fossa estava repleto dele. Aos gritos e plantando bananeira com o fiofó virado para a lua, ele via novamente a ambulância chegar para atendê-lo. 

    Famoso pelo ato, já era conhecido dos enfermeiros. Obedecia-os, e dentro da Van seguiam para a UPA dando risadas. Cara a cara com o médico de plantão, armava um banzé. Um sossega leão na veia levava-o ao sono tranquilizante. Um internamento era inevitável. Após dias, medicado, recebia alta hospitalar. A sua pretendida aposentadoria por invalidez, imaginava, caminhava a passos largos. Logo, logo pintaria. Voltar para o trampo, nem por misericórdia. Mas, eis, que, como um aborto da natureza, a sua cura apareceu do nada quando foi enviado para um sanatório.

    Em uma noite, um dos plantonistas daquela casa para loucos não aguentando a fuzarca armada pelo pretendente à aposentadoria, resolveu ir para forra. Enquanto o interno dormia anestesiado o sono dos loucos, socou-lhe papel higiênico na boca e nos dois ouvidos. Também, com o interno deitado e amarrado na cama com a "busanfa" para cima, o enfermeiro tirou-lhe as pregas. Deflorou-o e gostou do ato. Toda noite o fato se repetia, mesmo com o interno acordado. Indefeso, só lhe restava chorar em silêncio. Algumas vezes reclamava, só que ninguém acreditava em suas palavras. Não aguentando mais aquelas sevícias, o louco de araque começou a se comportar. Melhorou do dia para a noite. Logo ganhou alta. Voltou a trabalhar no seu serviço público, mas lhe doía o botuqueiro quando entregava cartas sentado no selim de uma bicicleta.

    Depois de anos, a sua tão esperada aposentadoria veio, não por invalidez, mas por tempo de serviço. Infelizmente ficara com sequelas - um de seus ouvidos ficou surdo e o seu fiote estava alargado. Só de imaginar em ouvir a palavra sanatório, ficava pianinho, e se escondia embaixo da cama. Quando encontrava aquele enfermeiro do sanatório, que virara seu vizinho de porta, suas vistas transbordavam em lágrimas.

Uma tarde para não se esquecer
Do escritor da periferia – Craque Kiko. 
        Um frio do capeta. Lá fora o vento ainda fraco, mas longe de ser somente uma brisa, balançava os pequenos galhos das duas pequenas palmeiras nos extremos do meu pequeno jardim retangular. O Sol há dias tinha deixado de nos visitar. Eu, parado frente da janela do meu museu-estúdio, olhava lá para fora querendo entender porque o Dom Bilu não parava de latir no grande portão. Naquela hora, ele deveria estar ninando dentro da sua casinha, lá nos fundos da garagem. De onde eu estava, só conseguia visualizar a metade do portão. Querendo descobrir o porquê da tamanha latição, colocando o chapéu, sai pela porta dos fundos e marquei presença junto dele na frente do dito portão. Descobri o motivo, e esquecendo o dia cinzento, frio e neblinoso, abri um enorme sorriso. 

        O motivo era justo e merecia aquele ganiçar, desde que fosse uma declaração de amor ou um elogio para ela. A cadelinha era linda, igual a sua dona que a segurava por uma pequena corda. A dona da, quem sabe futura namorada do Dom Bilu, foi-se dali levando a cachorrinha. Dom Bilu se acalmou, saiu na correria até a garagem lá no fundo do pátio e voltou trazendo na boca, aquele pedaço de dinossauro de borracha já meio esgaceado. Entendi de cara o que ele desejava. Então, jogando aquele toco de dinossauro da frente do portão até os fundos do pátio, cerca de 35 metros, iniciamos o preparo físico dele. Eu arremessava o pedaço daquele réptil, ele saía na correria, apanhava e trazia até mim. E, assim, após vinte arremessos, com ele já colocando a língua de fora, encerramos os trabalhos. 

        Para me recuperar, já sentado no banco do pergolado lá no fundo do quintal, enquanto eu bebia um café na xícara do Vasco, o Dom Bilu sentado ao meu lado, salgava o peito com uma iguaria feita pela minha esposa. A cada gole daquele café quente e gostoso, encarando o cãozinho, que também me encarava após uma dentada ou outra naquela perna de galinha, nós dirigíamos o nosso olhar lá para o portão da frente. O Dom Bilu na ânsia que aquela cachorrinha retornasse, e eu, esperando uma caminhonete de lenha picada, que recém tinha encomendado.   

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COISAS DA BOLA

A vida é uma aventura – conta o homem do capote preto e chapéu afundado na cabeça

Ainda jovem de tudo ele teria que abandonar o seu sonho de ser um chutador de bola profissional. Em um cotejo tinham lhe quebrado a canela. Sonhava em se recuperar logo. Ansiava por voltar aos gramados. Muitos diziam que ele já era como jogador de futebol. Mas, não perdeu a esperança. Se agarrou a tudo e a todos os santos. Rezas, promessas e muitos sacrifícios fez. De nada adiantou. Estava próximo de uma amputação.
Desanimado, com sua cadeira de rodas motorizada chegou em uma das passarelas ao lado da Ponte dos Arcos. Com a feição banhada em lágrimas, olhava aquelas águas descendo rapidamente no rio já saindo da caixa pelas chuvas abundantes da época. Pularia, nada lhe restava. Era muita dor, não só do corpo físico, mas do coração e da alma profunda. Daria cabo na sua existência.

Próximo de se pinchar nas águas, escutou alguém lhe cumprimentar e puxar prosa. Aquele desconhecido, vestido com um capote preto que ia além joelhos e com um chapéu afundado na cabeça lhe inspirou confiança. Abriu a guarda e travaram uma prosa de horas. A par da sofrência do jovem, aquele homem do capote preto lhe disse que ele tinha procurado a ajuda nos santos errados. Era para se apegar com o Padim Ciço. Era só oferecer uma paga, pedir com fé, que o atendimento viria, mas teria que cumprir o prometido, garantiu o capotudo. O jovem pediu com muita fé. Em poucos meses estava atuando em um palco verde como se nada lhe tivesse acontecido. Procurou o homem do capote preto para agradecer-lhe pela indicação do santo Padim. Nem sombra dele. Mas, teria que pagar o prometido. Na primeira deixa, rumou ao Nordeste, para os cantos do Ceará, no Juazeiro do Norte.

Em uma semana por aqueles cantos, conheceu uma jovem. Ficou cismado com ela, e ela com ele. Sentiram atração um pelo outro. Papearam. Se encontraram duas vezes. Confidenciou sua vida para ela. Ela só disse se chamar Nundia. No terceiro encontro, entre muitas trocas de afagos, nos fundos de um cemitério que ficava ao lado de uma pequena igreja, bem embaixo de uma árvore, quando a tarde caía, com uma febre de curiosidades ela viu ele abrir o fecho da braguilha e tirar o “bicho” para fora. Tiveram uma junção carnal. Pensou ele, que pelo sangue escorrido, ela deveria estar com o “boi”. No fim do ato, assustada com a sangueira ela saiu em uma correria e ele nunca mais a viu. Procurou-a como se procura uma agulha num palheiro. Nada, nem sombra dela. Promessa paga ao Padim, ele, então, rumou de volta para o Sul.

Por quarenta e um anos a vida lhe sorriu. Ele, cidadão respeitado, bem de bolso, viúvo, nunca teve filhos, sozinho no mundo, de vez em quando antes da hora do almoço tomava umas e outras no bar muito frequentado pelos amantes do futebol. Com o bar quase vazio, sentado em uma pequena mesa lá no fundo, lendo a última edição do Jornal Caiçara, ele recebeu a notícia do dono do bar, que um homem o estava procurando para uma prosa. Sorrindo, o dono do bar disse que o papo deveria ser importante, pois o fulano parecia ser um sósia seu.

Meu nome é igual ao seu, Bonifácio. Sou seu filho. Só vim lhe procurar porque prometi para minha mãe em seu leito de finação. Ela me fez ver, que você, se estivesse vivo ainda, mereceria saber. Não procuro o seu reconhecimento de pai. Tinha curiosidade em lhe conhecer. E, só estou lhe dando a notícia. Mesmo sentado, o chão pareceu lhe fugir. Recuperado, Bonifácio pai ouviu todo o relato do dito Bonifácio filho. Ele contou em detalhes como foi o encontro do presumido pai Bonifácio e sua mãe Nundia. A veracidade dos detalhes sobre a cópula embaixo da árvore no fundo do cemitério, do sangue escorrido pelas pernas, não por ela estar com o “boi”, mas porque foi deflorada, a primeira e única relação que teve com um homem, atestavam que o relatado não era mentiroso. Como se estivesse pregado na cadeira, estático ali, Bonifácio pai matutou demoradamente. Nunca tinha falado com ninguém sobre aquela aventura no Nordeste, muito menos com sua amada e finada esposa. Incrédulo, sensível e emotivo que ficara com a idade, chorou de balde. Ainda assim, um exame de DNA foi feito. Por ser desconfiado, o exame foi feito em dois laboratórios diferentes. Hoje em dia, pai e filho, focinho um do outro, são vistos por aí nos vários campos de futebol. Muitas vezes, atrás das goleiras enxergam a sombra do homem de capote preto e chapéu afundado na cabeça. Vendo os dois Bonifácios, ele parece escancarar um sorriso de contentamento.

A cabeça do porco

O esquadrão se chamava Pinguim. A turma se encontrava em um famoso bar no centro de Porto União. O time já estava afamado na região. Não só pelas peleadas dentro das quatro linhas. Fora também. Sua turma era boa de bola e de gole. Todos amigos de paletas, partilhavam alegrias e sacanagens, às muitas.
A excursão da hora seria para o meio Oeste catarinense, em Ibicaré. O busão, como sempre, apinhado. Sábado partiriam. Viagem de ida e volta, de noite. De dia, por lá, peleja e festanças.
Mais um triunfo, de goleada. Pós jogo, final da tarde e já boca da noite, naqueles cantos de Ibicaré, um torneio de truco era gritado. Mais um leitão no rolete fora assado para o jantar. Encheram a pança. O álcool dominava as cabeças. Alguém queria comer o miolo da cabeça do duroque. Ela tinha sumido. Deu sururu, mas ficou o dito pelo não contado. Dez da noite, hora de se despedir. Entre abraços e mais abraços de despedidas, a turma se acomodou no busão e, boas de volta.

 

Batuques e cantorias no retorno. Dentro da condução apareceu a cabeça do leitão. Fora feito uma sacanagem. Tinham roubado e colocado dentro da bolsa do arqueiro. Sujou de banha e graxa todos os seus apetrechos. Ele ficou possesso. Quem foi, quem foi? – Gritava e gritava, parecendo estar com o tinhoso no corpo. O motorista encostou o ônibus na beirada da rodovia, por azar, perto de um puteiro. O guarda-metas surrupiou as chaves do ônibus. Só devolvo se aparecer quem me fez a sacanagem, dizia aos brados. Gritos e mais gritos. Ninguém assumia a culpa. O ônibus palanqueado na costa da estrada. O goleiro pulou do busão, deu dois tiros para riba e se mandou. Foi para a casa das “damas da noite”. Mostrando o 22 bradava: – só fossem lá apanhar as chaves se aparecesse o autor.
O dia amanhecia, segunda-feira, todos dormindo nos bancos, menos dois, o Manchão e o Rolha, os autores da façanha. Foram os dois que tinham roubado a cabeça do porco e colocado na bolsa do golquíper. Se cagando de medo, eles tinham jurado segredo, cerraram os beiços.

O clima era de revolta quando o goleiro voltou da bocada. Ninguém ousou criticá-lo, afinal! Ele estava berrado. Cansado da furrupa, o guarda-metas entregou as chaves para o motorista. Com o trabalho da manhã perdido, lá pela uma da tarde deram o ar da graça na sua cidade. O acontecido ganhou asas, foi o comentário por semanas, mas aos poucos foi ficando no esquecimento, até ninguém mais se interessar em descobrir. Mas, tinha um quê! Quem fora o autor da sacanagem?

Por meio século seguiu a vida. Muitos daquele esquadrão que nem mais existe partiram para o outro lado da rua da existência. Os que ainda estão por aqui, ligados pela forte amizade, todo final do ano se reúnem para uma confraternização. Vem gente de todo canto deste país continente.

Alegres e com alguns goles a mais, muitas histórias são lembradas. E, a história da cabeça do porco veio a lume. Um vivente lembrou, e tentando pôr para fora aquele segredo, se livrar daquilo que ainda nos dias atuais o incomodava, com os olhos marejados, muito emocionado, confessou que foi um dos autores da sacanagem. Só contaria agora porque o coautor e o goleiro já foram embora há tempos.
Pedindo que o perdoassem pelo ato cometido, Rolha, em detalhes contou que ele e Manchão tinham roubado a cabeça do leitão e escondido na mala do goleiro. Rolha também contou que ele e o Manchão deram uma gorja para o assador para que ele não contasse para ninguém. Rolha disse mais, que o juramento entre ele e o Manchão, de boca cerrada, fora cumprido em vida. Completou, que agora, se sentia livre de um peso.

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COISAS DA BOLA

Dramas da vida de fato

Não julgue, só tente entender, se puder. Se não entender na primeira, leia de novo, a escrita é curtinha. 

Sendo da burguesia ou proletariado, ninguém poderá se julgar livre de um caso deste naipe.

Um pai, ah coitado! Andava desgostoso com seu filho, que ainda virgem de tudo fora pego em flagrante pela sua mãe tocando uma siririca, enquanto “bombiava” pela fresta de uma parede a tanajura vizinha, que lavava roupas em uma tina. Triste, aquele pai campeava o seu filho que tivera um novo sumiço. Desconfiava, que ele mais uma vez tinha aprontado das suas e com medo se escondia. Tentando achar o piazão, aos gritos, aquele pai o procurava por todos os cantos:

  • Onde você está filho meu? Por quê te escondes? Que cagada fizeste desta vez, que estás com tanto medo e colocou o rabo entre as pernas?
  • Uma mulher que conheci na zona me passou a conversa e me deu o seu fruto proibido, e eu cheguei a me babar de tanto comer. Comemos demais, e agora ela ficou com uma congestão e está pançuda de mim – respondeu o jovem, escondido.
    Só em ouvir a palavra zona, o pai amoleceu os cambitos.

Querendo colocar em pratos limpos aquela história o pai saiu na cata da fulana. Encontrando-a, cara a cara, ele quase partiu deste chão. Desesperado perguntou:

O que foi que tu fizeste com meu filho?
Ela respondeu:

  • A cobra dele me enganou, eu engoli bastante ela e, olha agora no que deu!
    Com aquela pança enorme, só podia dar naquilo. Gêmeos.
    E, mais uma vez, que não seria a última neste mundo, papais e mamães sustentariam as crianças de um filho.
    A dúvida para uma vida inteira, ficaria. Quem seria o papai das crianças, pois naquela noite na zona, antes do jovem filho, aquele pai tinha comido muito o fruto proibido daquela que seria sua futura nora.

Chuteira do amor

A contenda corria bonita. Aquele beque parecia desfilar dentro das quatro linhas. Seu toque no balão era de uma lindeza que deixaria inveja em qualquer craque da atualidade. Ele parecia que acariciava a peca. A bola adormecia no seu pé como num colo de mãe. Pela elegância com que desfilava no tapete verde era apelidado de Divina Dama.
O prélio era no relvado do Cruzeiro do Iguaçu, pela Taça Paraná de Futebol. Em um lance em que o beque fora apanhar o balão que saíra à lateral, uma voz saiu da torcida apinhada no alambrado:

Você é lindo de todo. Quero passar as mãos nestas canetas grossas e peludas.
Olhando para aquela massa de torcedores o beque encontrou a autora da frase, uma moça, linda de morrer. Fitando-a, lhe respondeu, no ato:

  • Eu deixo, mas quero um beijo seu.
    Ela falou:
  • Somente se você me dar um pé da tua chuteira branca.
    E, ficou por aquilo o diálogo. O cotejo terminou e o beque foi lavar as partes no vestiário.
    Pronto para voltar para a morada, caminhando para o seu opala amarelo, surpreso ficou, quando vislumbrou a moça bonita encostada no seu possante. Iniciaram uma prosa longa. Prometeram um dia se encontrar. Ela tinha o nome de Inácia e era de Francisco Beltrão. Ele se chamava Abaltazar e morava na localidade chamada de Piolho. Sorrindo, ela exigiu que ele lhe desse um pé da sua chuteira branca, pois aí teria a certeza que ele a iria ver na sua cidade. Dando um beijo na bochecha dele, ela se despediu levando o pé direito da chanca. Ele foi para casa com um peso na consciência. Sua esposa o esperava no portão e, como sempre, pelo adiantado da hora em chegar em casa, as discussões foram na base de berreiros.
    E, naquela semana seguinte, diariamente, após a lida, o opalão do beque, em alta velocidade, percorria, em ida e volta, os oitenta quilômetros até a cidade cortada pelo Rio Marrecas, para na surdina – ela também era compromissada – se deliciarem em carícias. O casamento dela e dele, que já estava por um fio, arrebentou de vez, separaram os trapos com os conviventes.
    Aquela louca e fogosa paixão era jurada, para sempre. Mas, como o para sempre, um dia acaba, aquela ardorosa paixão repentina, acabaria também, velozmente. Na sexta-feira, 13 de agosto, com um pressentimento amargo, com o seu amarelão quase voando como querendo ganhar da velocidade da luz, por aquele asfalto esburacado ele foi vê-la e, não mais a encontrou. Ficou desesperado. Viu o mundo desandar sobre si. Perdeu o chão. Nunca mais a viu e não teve nenhuma informação sobre ela. Como se fosse uma fumaça, ela desaparecera do mapa. Ele sofreu, sofreu e sofreu. Comeu o pão que o dianho amassou para curar a dor daquela paixão, que para ele tinha virado um baita amor.
    Vida reconstituída, meio século se passara. Na capital paranaense, naquele domingo, pelo Certame Brasileiro, os esquadrões do Furacão da Baixada e do Trem Bala da Colina, peleariam. O agora ex-beque, acompanhado de três netos chegava na Arena atleticana para se ajeitarem nas cadeiras. O estádio estava tomado.
    Vindo em sentido contrário, uma senhora acompanhada com duas meninas e um guri deram de frente com eles. Vistas nas vistas, ele reconheceu na rapidez aquele olhar nunca esquecido, ela também. Ele amoleceu o garrão. Ela pareceu que ia finar. Recompostos, lentamente, foram se achegando, e sem conseguirem se conter, se abraçaram, e com as lágrimas grossas escorrendo também sobre os seus beiços, um beijo demorado foi trocado, abaixo da enorme salva de palmas dos torcedores que contemplaram aquela emoção.
    Os netos e netas inquiriram a vó e o vô. A vó falou para o seu neto e netas, que aquele homem era o dono daquele pé de chuteira branca que tem lugar cativo sobre o seu bidê ao lado da cama. O vô confirmou para seus netos a história já contada para eles, que fora aquela mulher que tinha ficado com um pé da chuteira dele.

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