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REMINISCÊNCIAS

A inauguração da Ponte

Há fatos que contados parecem histórias de ficção, tais as inusitadas circunstâncias que ocorrem. Contava-me dias passados um senhor já octogenário, que ao final da década de 1950, foi ilustre convidado para inauguração de ponte por amigo e que jamais olvidou o festejo.
Dizia:
“- Era sábado, manhã de outono, céu limpo, lindo azul” – contava.
“- Naquele dia, quando ainda residia na rua Prudente de Morais, próximo à rua XV de Novembro, em Porto União, estava com a esposa à frente da casa de moradia, no passeio público, como, costumeiramente, era a prática da população da pacata cidade interiorana e, conhecido e conhecedor da maioria dos passantes, deixava fluir o tempo descomprometido com qualquer objetivo.”
“- Oportunamente – dizia – naquela manhã ensolarada e temperatura amena, passava pelo passeio onde estávamos o sempre amigo Lúcio que residia pouco adiante e após os cumprimentos, convidou-me:”
“- Chico, gostaria de ir comigo hoje ao meio dia na inauguração da ponte? ”
“– Entusiasmado, imaginando a festança, a cervejada, a churrascada que deveria haver, vista a proximidade de eleições, e, que certamente os políticos iriam proporcionar, logo aceitei o convite. ”
Então acrescentou:
“- Me encontre às onze e meia no Bar do Cunha” e se foi ligeiro, fagueiro, direcionado à casa, preparar-se para a festança, imaginei. ”
O Bar do Cunha, locado na Praça Hercílio Luz, próximo ao então existente Hotel Avenida, ponto de reunião de aperitivos de muitos frequentadores, reuniam-se, especialmente, em finais de semana, políticos, funcionários públicos, pescadores e outros mentirosos.
Era verdadeira balbúrdia a reunião no Bar do Cunha – muitos falavam, o som alto do rádio sintonizado na Rádio União, discussões por vezes alteradas, entretanto todos se entendiam – era sábado, final de semana.
“- No horário estimado – contava – cheguei ao Bar do Cunha e, perscrutando o ambiente, nos fundos do Bar, visualizei o Lúcio que sinalizava, chamando para assentar à mesa que ocupava. ”
“- Tomei assento à mesa e logo me foi servida cerveja. Prazerosamente o amigo Lúcio, empurrando prato com carne frita picada, fatias de pão, palitos, me ofertou os aperitivos. ”
“- Logo foram servidas outras garrafas de cerveja que eram sorvidas com sofreguidão – contava – pratos de carne frita picada devorados, rapidamente, em especial pelo amigo Lúcio que mastigava com muita vontade e ruidosamente. ”
“- Entretanto, apesar do bom papo, da agradabilidade do ambiente, o tempo escoava e a preocupação com a inauguração da ponte crescia. E, se ali continuássemos bebendo e aperitivando, certamente, haveríamos de perder a inauguração da ponte e, consequente, a festa, a churrascada.”
“- Há muito havia ultrapassado o meio dia, por essa razão, sem conter a ansiedade – dizia – interpelei Lúcio dizendo:
“- Já é mais de meio dia, vamos perder a inauguração da ponte e por consequência a festa e o churrasco, vamos logo? ”
“– Lúcio abrindo a bocarra que ainda continha pedaços semimastigados de carne, apontou à dentição e disse: Já estamos inaugurando, a ponte foi a que o dentista colocou hoje em minha boca!”
“Surpreso, sem argumentos, estanque, quedei silente” – comentou.
“… e a festa continuou até o fim do dia… foi inesquecível a inauguração da ponte.”
(Nota: fatos não provenientes da imaginação do autor.)

23 de abril de 2021 – Irapuan Caesar Costa

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REMINISCÊNCIAS

A viagem

Os fatos a seguir relatados ocorreram por volta da década de 1970, tempo ainda quando estava trabalhando na R.F.F.S.A. lotado no Departamento de Material em Curitiba. Semanalmente, às sextas-feiras à noite, embarcava no ônibus das 19:00 horas da empresa Estrela Azul em Curitiba para União da Vitória e retornava no das 07:00 horas nas segundas-feiras. Por mais de ano essa foi a cansativa rotina até que finalmente fui transferido para trabalhar no já extinto Almoxarifado da Rede em Porto União/União da Vitória.
A rotina que era do conhecimento dos funcionários da empresa Estrela Azul lotados na Agência de União da Vitória, motoristas e cobradores, me concedia privilégios mesmo sem reinvindicações, porquanto todos com o passar do tempo desenvolvemos sentimento de amizade que ainda permanece com os poucos remanescentes daqueles dias venturosos.
Conhecedora das minhas preferências, a responsável pela venda dos bilhetes de passagens da empresa, reservava a poltrona 05 (segunda fileira de poltronas, no corredor do veículo) nas segundas-feiras sem necessidade de solicitação, apenas porque tinha a certeza que iria viajar.
Foi numa segunda-feira do mês de junho, frio e chuvoso, retornando a Curitiba que tive experiência inusitada, ensinamento que guardo nas lembranças memoriais e serviram para me situar no devido lugar que devo ocupar nesse mundo de humanos dos quais nada de melhor, de maior, de privilegiado, devo pretender. Sou apenas mais um, igual a todos, nem mais, nem menos.

Fustigado pela garoa fina e fria que insistia em acontecer nos invernos em União da Vitória, manhã fria, desguarnecido de proteção da chuva, sigo andando ligeiro para a Rodoviária para, novamente, embarcar no ônibus e retornar a Curitiba.
Como sempre me dirijo ao guichê da empresa, adquiro a passagem que já estava expedida, me dirijo ao veículo, certo que a poltrona 05 estava reservada, desnecessário conferir o bilhete adquirido. Adentro ao veículo, a poltrona 06 ocupada por homem moço que imediatamente constatei que era muito reservado, nenhuma importância me concedeu, fato surpreendente.
Acomodo-me na poltrona depois de ajeitar a bagagem que trazia no maleiro correspondente. Sentado, cumprimento o companheiro – “bom dia!” Mal ouço a resposta balbuciada, nada mais.
Os demais passageiros se colocam nos lugares próprios, dada a partida percorre o veículo vias rumo ao destino; partindo da rodoviária situada na Praça Getúlio Vargas (atual Alvir Riesemberg), segue à rua Ipiranga, alcança rapidamente a Avenida Manoel Ribas, a Ponte “Nova”, e a rodovia macadamizada com destino a Luzia, a Rondinha, a São Mateus, a Curitiba…
Trafega o veículo normalmente pilotado com maestria por piloto experiente, competente, com segurança em via macadamizada, molhada, decorrente das chuvas, característica regional de inverno.
O avanço dificultoso do veículo que trafega sacolejando, a lotação do ônibus, o ar viciado das janelas fechadas que impregna o ambiente corrobora com o desconforto da conhecida viagem.
… e o companheiro de viagem permanece quieto, impassível, impessoal, voltado a frente, sem tomar conhecimento de minha presença, impossível de observar a expressão facial.
Os quilômetros da rodovia vão sendo superados, a estrada continua mal conservada, o ônibus sacoleja, trepida, o ambiente cada vez mais poluído agora acrescido de fumaça de cigarros de muitos passageiros. É sofrível o ambiente, verdadeiro calvário. A meu lado permanece o companheiro de viagem impassível, impessoal, circunspecto em suas emoções, voltado para si sem se importar com os demais viajantes, em especial comigo. Uma rocha impenetrável.
Custosamente o veículo vence os obstáculos, avizinhasse a reta de São Mateus, ultrapassada a ponte do rio Potinga, esperança de chegar ao Ponto de Café em São Mateus, início da via asfaltada, certeza da melhoria das condições de viagem. E durante todo tempo o companheiro de viagem continua impassível, impessoal, ausente como se nada o afetasse, ignorando a tudo e a todos. Quem sabe se imagina melhor, superior a tudo e a todos, intocável.
Custosamente o ônibus chega a Rodoviária de São Mateus, chegado o momento do desembarque, todos com muita pressa, ansiosos, menos o companheiro. Observo que, estacionado o veículo no local de desembarque, saca da bolsa que estava debaixo do assento, pacote de leite, copo plástico e pão recheado. Vejo-o com os dentes, rasgar o canto do pacote de leite e com dificuldade transferir o líquido ao copo, saio do veículo. Vejo e descreio que tão impoluta personagem se digne a se sujeitar a ingerir leite de pacote trazido, pão recheado com provável queijo e mortadela, quando pode desembarcar e na Lanchonete da Rodoviária tomar uma boa xícara de bom e quente café com leite, acompanhada de saboroso pastel de carne. Faço juízo nada positivo da pessoa, justifico a impassividade, a impessoalidade que se porta, certamente se considera mais e melhor que todos, esse é meu juízo.
A viagem segue, a via asfaltada, ainda nova, incólume, o trânsito é rápido, vencidas rapidamente as distâncias logo é alcançada a cidade da Lapa, Contenda, Araucária, avizinha-se Curitiba e o companheiro de viagem ainda continua impessoal, impassível, silente observando o encosto do banco frontal sem se importar com qualquer coisa, atitude de quem está só, único no mundo.
Ultrapassado o bairro do Pinheirinho em Curitiba, alcançada a avenida Silva Jardim, próximo à esquina da rua 24 de Maio, o motorista previamente de acordo com passageiro, estaciona o veículo próximo ao meio fio do passeio público.
O companheiro de viagem que pouco se manifestou durante a viagem, tenta se levantar do assento dizendo: – “Com licença, desço aqui! ” Levanto do assento para dar passagem. Tateando, alcança a bolsa debaixo do banco, se apodera de bengala que ainda eu não havia visto, agradece e se despede – “Obrigado, boa viagem” – balizando-se com o instrumento alcança o passeio público. Observo que no passeio há pessoas aguardando-o.
Surpreso, indignado, extasiado constato que aquele que julguei impessoal, impassível, intangível, soberbo, mais e melhor que todos, não era mais do que um jovem cego que solitariamente viajava submisso a todas as dificuldades, as agruras que a cegueira impõe. Nada de impessoalidade, impassividade, inatingibilidade, apenas incompreensão, ignorância, ausência de empatia, de resiliência cercou o companheiro de viagem.
Afinal o ônibus estaciona na Rodoviária de Curitiba. Fim da viagem, começo de nova vida, promessa de não promover julgamento de outrem, de maior respeito a todos, de desenvolver mais e melhor empatia e resiliência.

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REMINISCÊNCIAS

Retorno ao passado

O passado que somente existe em nossas lembranças, é fonte geradora de todos os tipos e formas de emoções. Umas mais fortes, outras nem tanto, todas certamente bulindo com o emocional.
O dia está findo, a tarde se esvai inexoravelmente, a noite se aproxima vagarosamente, sem pressa, certa do inevitável eventual amanhecer.
Vejo à beira do infinito a sucessão dos fatos como ordenada consequência de acontecimentos, uns derivados de outros, todos determinados ou autorizados, por ser maior.
E, quando apreciando o presente, sentindo o sabor do passado, tenho claro que o futuro não é mais do que a soma dos atos e fatos outrora vividos, apenas o resultado consequente de decisões tomadas e que no presente são imutáveis.
Sob essa ótica não há arrependimento por prática ou não, de atitudes que tenham ou não sido tomadas. Todas respondem apenas e tão somente na medida das consequências. Se não houver consequência, não haverá arrependimento.
Entretanto, apesar da materialidade e da composição, tomada em face da existência, responderá independentemente da atitude pelos fatos e atos que produzir. Essa é a lei da probabilidade, quanto mais próxima ao resultado final, mais certa a autoria da consequência.
Os limites do imaginário vão além do certo, chega às raias do impossível, próximos ao gosto da realização dos desejos. Nada se compara à sensação de realização de desejo que, no entanto, por maior que seja a conquista, é efêmera porque substituída por nova de imediato.
O retorno ao passado no desfrute do imaginário, possibilita sentir novamente emoções passadas, quimeras não tão intensas, porém reais. A soma das emoções pessoais determina a estruturação da personalidade do ser, daí a importância de que sejam boas e desfrutadas intensamente.
A lua saúda a morte do dia; bom para uns, nem tanto para outros. O fim do dia, a magnitude do esplendor sempre motiva o despertar de emoções invocando o retorno ao passado.
… que assim seja!!!!

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REMINISCÊNCIAS

A discussão

Tarde quente, ensolarada, própria para consumo de bom chope gelado, brisa fresca, apreciando a paisagem. Sentados à mesa, amigos desfrutam das benesses proporcionadas, o tempo transcorre placidamente, de forma lânguida, preguiçosa. Nada no horizonte que pudesse turbar o estado de espírito amigo, senão a discussão que estava ocorrendo sobre a sociedade em geral, política, depois de ter-se esgotado o de futebol. Dizia alguém:

  • Esse governo é imprestável, roubam, nada produzem, não atende às necessidades da educação, desviam os recursos destinados à saúde, à cultura, é uma lástima! Outro retruca: – Você foi um dos que criticaram o governo anterior, classificando-o de esquerda, que promovia subsídios aos menos favorecidos em detrimento à classe produtora. Terceiro questiona: – Afinal, qual a diferença entre esquerda e direita? Quem sempre perde é o trabalhador, ele nunca desfruta dos ganhos de um ou de outro, e quando há queda da receita, o trabalhador é o responsável; quando há superávit foi o administrador quem obteve o sucesso. Quarto deflagra: – Esquerda, direita é tudo a mesma coisa! De repente estavam os presentes falando alto, quase aos gritos, sem alguma possibilidade de acordo, cada um “puxando a brasa para seu assado”. Certamente deverão estar ainda discutindo, esquerda, direita, centro. Em toda discussão deve necessariamente haver Mediador, sob pena de não se chegar a consenso. Nos dias de hoje há conflitos expressivos e ambas as partes se acham donas da verdade. A Ucrânia alega que a Rússia invadiu, desmotivadamente, seu território; a Rússia afirma que foi a Ucrânia quem descumpriu tratado firmado entre as partes e concedeu independência à Ucrânia, para “engrossar o caldo”, duas províncias ucranianas com aspirações de independências engrossam as fileiras russas. Litigam também os palestinos (grupo Hamas) e os israelenses. Os palestinos alegam que Israel invadiu parte do seu território e estão buscando seus direitos; os israelenses, por sua vez, alegam que tem o direito de se defender e não pretendem a paz, mas o extermínio dos palestinos, isso a grosso modo. Todos se declaram donos da verdade. Como saber quem tem razão, ou não. Não há como afirmar quem ganha o litígio entre os contendores, o que se sabe que os países financiadores são realmente os que irão desfrutar dos lucros. Enquanto eles lutam entre si, desfruto do entardecer, da paz, da cerveja geladinha à sombra do velho cinamomo, apreciando a paisagem…

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