PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Piá
Em uma tarde qualquer de sol, crianças brincam no parquinho. Cantorias, gritos e toda aquela algazarra característica deste episódio trivial, mas tão cheio de boas sensações para quem o presencia. Crianças são, bem, crianças. E é isso que as torna, para muitos, tão atrativas e agradáveis. Como em toda animada roda de brincadeiras, não demora para que comece a correria. Pega-Pega, pique-esconde, mamãe da rua. Se aparecer uma bola, então, melhor ainda. Conjugada com a convidativa grama dos arredores, rapidamente dá ensejo a um jogo de futebol, vôlei, queimada. E as crianças, alegres, se põem a correr, lépidas, de um lado para outro.
Cena agradável a muitos. Também aos moradores do local. Abandonados em algum momento de suas trajetórias por humanos que, provavelmente, e de modo muito estranho, também sentiriam prazer em assistir às brincadeiras infantis. Custa a crer que um ser capaz de abandonar animais à própria sorte possa sentir prazer genuíno, mas o fato é que assim é. E os animais em foco, aqui, são cães. Seres incapazes do uso metódico da razão, mas que, assim como humanos, sentem prazer, brincam, festejam, sentem dor, adoecem, se entristecem. Neste momento eles estão alegres. E um deles não se contêm. Amarelo, levemente rechonchudo, ao ver crianças correndo se põe a correr também. Atrás delas, obviamente. Quer brincar, é isso que os pequenos humanos fazem, é isso que ele também tem vontade de fazer. Então, sem maior preocupação com o autocontrole – pobres daqueles que precisam se controlar o tempo todo para poderem viver em sociedade – corre. E corre. Atrás dos pequenos humanos
Mas eis que algo muda. Os gritos pueris ficam mais agudos, mais altos, com entonações diferentes. As crianças correm mais rápido, em direção a outros humanos, esses maiores e com semblantes de raiva. Cães demonstram raiva mostrando os dentes, humanos não. Estes, estranhamente, mostram os dentes quando estão felizes – que coisa estranha! – e os escondem quando estão bravos. Os olhos ficam menores. A voz é emitida em volume mais alto. Braços e gestos esquisitos demonstram o perigo iminente. E o pequeno cão amarelo se afasta, sem entender bem o que aconteceu. Certamente fez algo de errado, embora não saiba o que é. Será proibido brincar em sua casa? Talvez. Melhor voltar para o cantinho de sempre, lá ele sabe que está seguro.
Os humanos maiores não se contentam em falar alto e gesticular. Recolhem suas crianças e iniciam, nas redes sociais, uma furiosa campanha contra os cachorros da rodoviária. Representam um perigo a todos. Um risco à sociedade. Correm atrás de nossos filhos, carregam pulgas, cheiram mal. Alguém se lembra de comentar que sua simples presença representa uma mancha na respeitabilidade do local. Que pensam aqueles que chegam à cidade e se deparam com tais animais? Que má impressão. Devem ser retirados de lá. Não é possível que a prefeitura não faça nada a respeito. E a polícia? Não deveria nos proteger? Está aí uma ótima oportunidade! O cãozinho, obviamente, nada sabe sobre a campanha criada contra si, e segue seus dias normalmente. Percebe que os afagos se tornaram mais raros, e que gestos de repulsa se tornam mais numerosos. Alguns estranhos, contudo, passam a visitá-lo com comida, cobertores e algum carinho. Para ele, tudo vai bem. Basta algo para engolir, uma tina de água, um canto quentinho debaixo de um teto, e a vida, sem dúvida, vale a pena. E o tempo passa.
Outra vez, sol. Não há crianças por perto. Os cachorros da rodoviária descansam e se esquentam, em um frio dia de inverno, tão comum nestes meses do ano. O simpático amarelinho rechonchudo faz o que se espera dele: deitado, observa tudo. Atento, como sempre, assiste à passagem do tempo que leva, consigo, sua própria vida. Está feliz? Vai saber! Nem os humanos conseguem responder a essa pergunta sem sentido, por que um cão se preocuparia com ela? Eis que de repente, não mais que de repente, percebe um movimento estranho. Alguém corre. Um humano. Não dos pequenos, felizes e barulhentos, mas um dos grandes, procurando fazer silêncio. Um grito ecoa. Não parece de alguém bravo, mas é alto e incomoda. O amarelinho, Piá é seu nome, se levanta, em sobressalto. Alguém entrara em sua casa (a casa dos cães vai até onde sua vista alcança e, se possível, um pouco além) e tentava escapar em correria. Não estava brincando. Não estava feliz. Não era pequeno. Para aí! Ninguém passa por aqui correndo! Que estranho! Para aí, estou mandando! Não está ouvindo minha voz? Ah, então eu te faço parar!
O ato foi o mesmo de meses atrás. Mas, agora, o corredor está no chão, caíra com a intervenção canina em suas pernas, no meio de alguma de suas passadas apressadas. Piá jamais derrubara crianças, nos eventos que fizeram vários exigirem sua remoção daquela que conhecia como sua casa. Agora, contudo, um humano, dos grandes, estava no chão. Lá vem encrenca, pensaria caso fosse capaz de raciocínio encadeado. Outros humanos se aproximam, também correndo. Vixe, melhor sair daqui! E Piá corre também, de volta ao seu cantinho, o lugar onde é seguro, no espaço onde ninguém entra. Lá vem encrenca, certamente pensaria, se pudesse.
Ainda outros humanos, dos grandes, chegam, e vários se dirigem em sua direção. Que querem? Não parecem bravos. Não parecem representar perigo. Ok, falemos com eles. E eis que Piá é inundado de afagos, carinhos, vozinhas finas artificialmente infantilizadas, festinhas, petiscos. Está feliz. Abana a cauda. Sente-se à vontade. Pula. Retribui as festinhas. Anda em volta de pernas. Come ainda mais um petisco. Recebe mais um afago. Que dia feliz! Que será que fiz de certo dessa vez, perguntaria se pudesse. Alguns dias depois, homens grandes vestidos com roupas iguais aparecem. Dão afagos. Falam com vozes infantilizadas. Fazem festinha. A felicidade continua. Piá retribui, com abanos de cauda, pulinhos e com a gentil cessão de sua cabeça para que renovados afagos sejam oferecidos. Piá, agora, é conhecido em todo o país. Por humanos, grandes e pequenos, que sequer sabe que existem. Em casas variadas muito menores que a sua, bem como em outras, tão grandes quanto, que ele nem sabe onde ficam. Agora, Piá é um cachorro policial! Policial? Que será que significa isso, perguntaria se pudesse. Mostraram um papel. Que bonito! É de comer? Não importa. O fato é que, agora, os afagos são numerosos, a comida o satisfaz até sentir sono, seu cantinho nunca foi mais quente que agora, e quase ninguém o evita – se o faz, disfarça muito bem, pois Piá nem percebe.
Que será que fiz de certo dessa vez, perguntaria se pudesse. E, se também pudesse, eu responderia a Piá que, de certo, ele fez exatamente a mesma coisa que havia feito quando esteve errado. E o simpático cãozinho amarelo, mesmo se pudesse pensar, não entenderia o que eu estaria dizendo. Sei disso porque eu mesmo não entendo. Mesmo ato, mesma resposta. Uma vez, rechaçada pelos humanos que, um dia, o abandonaram, e que agora queriam afastá-lo para ainda mais longe. Na outra vez, recompensada com carinhos mil, petiscos, festinha, cama quente. Nada mudara. O mundo seguia o mesmo. Até porque Piá, apesar e graças a tudo, continua vivendo sua vida normalmente, dia após dia. Porque Piá não pensa, mas sabe muito bem que há dias que são ruins, e nesses é melhor correr para seu canto. E há dias que são bons, e nesses o que importa é aproveitar e comer o que for possível, para garantir um sono de barriga cheia. Piá não pensa, mas sabe bem como é viver. Quem é, mesmo, o ser racional dessa história? Até a próxima!
26 de junho de 2021 – Vitor Marcos Gregório
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PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Carta
Enquanto organizo e manuseio minha coleção de selos, me pego a divagar sobre a sutil arte da comunicação manuscrita evocada por essas pequeninas peças de papel colorido. Não foi durante muito tempo, mas a verdade é que cheguei a receber e escrever algumas cartas. Aprendi as regras de sua confecção na escola. Fui convencido a buscar melhorar minha letra cursiva – até hoje uma catástrofe, aliás – com o argumento de que nada adianta escrever se o leitor não conseguir compreender o que foi escrito. Um dos princípios fundamentais de qualquer bom missivista sempre foi o cuidado com a elaboração de uma boa carta, com texto limpo, claro, educado, dotado de bom conteúdo. Escrever com pressa era um erro colossal, não pensar no destinatário, um pecado dos mais graves. Bem escrever sempre requereu tempo, cuidado, paciência. Aguardar por uma resposta, ainda mais tempo, cuidado e paciência.
Não gosto de rememorações saudosistas que sempre terminam com a fatídica constatação: “no meu tempo é que era bom! ” Primeiro porque essa conclusão geralmente não é verdadeira, referindo-se a coisas tão traumáticas quanto merthiolate que ardia mais que a eternidade no inferno e programas televisivos dominicais que representavam o maior incentivo então existente para não ligar a televisão no domingo. Segundo porque não se trata de julgar qual época é melhor – todas tem seus pontos positivos e negativos – mas sim de constatar diferenças e, a partir delas, propor reflexões. E, no que toca à comunicação em particular, uma volta mesmo que parcial ao mundo das cartas não faria nada mal. Algumas cartas representavam, por si só, uma declaração de carinho. Outras, redigidas em várias páginas e em grande profusão, ainda hoje são estudadas como fontes de algumas das maiores ideias que o gênero humano já produziu nas mais diversas áreas do conhecimento. Alguém realmente imagina, de posse de suas plenas faculdades mentais, o estudo das atuais baixarias nas redes sociais como fonte de qualquer ideia que preste em, digamos, cem anos? Convenhamos que, se for o caso, estaremos em muito maus lençóis.
Tampouco aplicativos de bate papo oferecem uma mídia de comunicação melhor. Foram pensados para trocas de mensagens curtas e práticas, coisa de não mais do que meia dúzia de palavras. “Você vem? ” “Vou! ”. Eis a conversa perfeita para um WhatsApp ou Facebook Messenger. Não inícios e términos de relacionamentos. Contratações e demissões. Conversas existenciais ou que tenham a ver com o estado emocional dos envolvidos. Como considerar um “eu te amo” escrito por alguém que você não está vendo? Ou interpretar um daqueles torturantes silêncios que se seguem, por vezes, a algumas das perguntas mais importantes que um ser humano pode conceber? Um lado coloca e empenha sua existência sentimental em uma mensagem artificialmente curta e recebe, em troca, o silêncio. Que representa?
ZygmuntBauman, o famoso pensador polonês, notabilizou-se pela formulação do conceito de liquidez das relações e sentimentos pós-modernos (por detestar esse termo, substituiu-o por “modernidade líquida”). Tal como os átomos dos elementos químicos no estado líquido, mais separados e em menor interação que aqueles constituintes dos elementos em estado sólido, as pessoas estariam imersas na imediatidade e rapidez, menos preocupadas com a longa duração e com as consequências a longo prazo de suas decisões. Não mais cartas e todo o seu necessário investimento temporal e emocional, mas curtas mensagens tão rápidas de escrever quanto fáceis de apagar. Nada que requeira tempo e concentração vale a pena, o antigo deve ser completamente eliminado em nome da última novidade. Não mais passado, raízes, histórias. Não mais selos para colecionar ou cartas antigas com suas belíssimas letras manuscritas para fazer rememorar. Na imediatidade absoluta dos tempos que correm, poucas coisas estão mais fora de lugar do que uma coleção de selos. Exatamente por isso, decidi iniciar a minha. Porque no meu tempo nem tudo, definitivamente, era melhor. O que não significa que prefiro o modo como são hoje. Fico, então, no limbo. Entre a solidez de um passado idealizado e a liquidez de um presente constatado, me deixo estar no magnetismo dos pensamentos insuficientemente formulados. E na curiosidade de pequeninos pedaços de papel colorido que hoje, para a imensa maioria dos seres humanos, simplesmente não dizem mais nada. Até breve!
PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
A volta da Maria Fumaça
Pelo segundo final de semana consecutivo, o apito silvou no vale do Iguaçu. Novamente temos uma locomotiva circulando pelos trilhos que, por décadas, foram a principal fonte de riqueza e o principal meio de acesso a Porto União da Vitória. Trilhos que respondem por alguns dos melhores capítulos de nossa história, e por aquele que marca uma das maiores catástrofes na trajetória da república brasileira. Trilhos que nos explicam quem somos e como chegamos até aqui. Trilhos sobre os quais não mais trafegam mercadorias ou passageiros em viagem, mas famílias interessadas em entrar em contato com suas próprias origens através das trajetórias dos antepassados que, décadas atrás, escolheram se estabelecer aqui. O acontecimento que estamos presenciando é histórico, como históricos são os elementos que o compõem.
A revigorada locomotiva Lima, fabricada em 1913 na cidade de mesmo nome localizada no estado de Ohio, Estados Unidos, nos convida a refletir sobre o momento que atravessamos em nível mundial. Produzida sob encomenda da Brazil Railway Company, de Percival Farquhar, foi uma das muitas mercadorias transportadas de navio ao Brasil em uma época em que o livre comércio era a tônica na economia mundial. Barreiras alfandegárias representavam um anátema que nenhuma nação gostaria de invocar e, ainda que as nuvens escuras da guerra surgissem, ameaçadoras, no horizonte, os Estados Unidos despontavam como uma das principais potências econômicas do planeta e o Brasil, assim como a vizinha Argentina, atravessava uma fase de crescimento econômico que se tornaria extremamente rara no século seguinte. Tudo seria perdido com a Primeira Guerra Mundial que, entre 1914 e 1918, mataria milhões de seres humanos e marcaria o início de um processo de criação de medidas protecionistas que levariam à maior crise econômica de todos os tempos, em 1929, e ao surgimento de alguns dos regimes políticos mais nefastos jamais imaginados – os regimes totalitários da Alemanha, Itália e Japão. No momento em que as questionáveis decisões tomadas pelo mandatário da maior potência do planeta ameaça lançar a todos em mais uma crise de consequências imprevisíveis, é oportuno lembrar que a humanidade será sempre maior que um grupo específico, e que enfrentamentos em grande escala sempre provocam prejuízos incalculáveis para todos os envolvidos.
Quando falamos da ferrovia que atravessa nossas cidades é impossível esquecer que a sua construção provocou a morte de milhares de pessoas nos conflitos do Contestado, ocorridos entre 1912 e 1916 (de acordo com os registros oficiais). A questão agrária que motivou a revolta de tantos caboclos continua a ser uma das mais graves questões sociais de nosso país, assim como o ideal de modernidade excludente que motivou a realização de obras de grande envergadura, com investimentos estrangeiros e sem maiores preocupações com o impacto social que seria provocado nos lembra que o progresso só é digno desse nome quando é para todos, e que os ideais de uma elite de modo algum podem se sobrepor aos interesses de toda uma população. Somos um só país, uma só nação. Essa simples constatação, sempre que relembrada, serve como uma proteção eficaz contra a repetição dos eventos trágicos que marcaram nossa história naqueles tristes anos.
Se a ferrovia nos obriga a lembrar desses terríveis acontecimentos, também nos convida a lembrar que, sem sua existência, certamente não estaríamos aqui. Porto União da Vitória já existia quando os trilhos chegaram, em 1905, mas apenas como um pequeno e empobrecido povoado. Foi com o tráfego dos trens que novos moradores chegaram – muitos oriundos de outros países -, que a economia local se desenvolveu e que a antiga vila se tornaria uma das cidades mais importantes do Paraná. As duas estações que aqui existiam estiveram, na década de 1930, entre as que recebiam o maior tráfego de passageiros em toda a rede ferroviária paranaense, o que motivou à construção e inauguração, no início da década de 1940, de uma das mais ricas e imponentes estações ferroviárias do sul do Brasil: a Estação União. Marcada por sua arquitetura em art déco, então adotada em algumas das principais construções do mundo ocidental, representa a união simbólica dos estados divididos pela guerra e figurou, por décadas, entre as mais rentáveis da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina; de fato, em 1956, foi a segunda estação mais lucrativa de toda a rede, atrás apenas da de Londrina, então no auge da produção cafeeira. Hoje é um dos prédios mais icônicos de toda a região.
A inauguração do passeio turístico ferroviário representa, por fim, um capítulo fundamental na adoção, em nossas cidades, de um novo modelo econômico que tem no turismo um de seus elementos centrais. Juntamente com os novos complexos do Morro da Cruz e do Morro do Cristo, servirá de atrativo para pessoas que, vindas de outras regiões, movimentarão o setor local de serviços gerando renda e oportunidades em várias atividades. Com isso ganharemos todos que, para além de mais empregos e de um agradável passeio de fim de semana, veremos valorizada nossa identidade enquanto povo dotado de uma história única, rica em acontecimentos extraordinários e lições tão valiosas quanto imprescindíveis. Seja bem-vinda de volta, Maria Fumaça! Estávamos com saudades!
PROJEÇÕES DA HISTÓRIA
Vau do Rio Iguaçu
Não existia em lugar algum do interior do Brasil, em meados do século XIX, outra forma de transporte que não o lombo das mulas ou a correnteza dos rios. Falo de uma época em que os caminhos precisavam ser abertos a golpes de facão, e em que as pequenas comunidades do interior eram habitadas por pessoas empobrecidas demais para morar nos grandes centros ou ambiciosas demais para viverem calmamente das atividades geralmente aceitas pela “boa sociedade”. Nas cidades maiores podia-se amealhar algum dinheiro e bom nome. Mas a riqueza verdadeira apenas poderia ser conquistada nos desconhecidos sertões, terras longínquas e desconhecidas geralmente desconhecidas dos frequentadores de saraus e dos editores de jornais das grandes capitais. Eram anos, também, nos quais muitos dos mais modestos membros da nascente classe média brasileira possuíam ao menos um escravizado para chamar de seu, muitas vezes concedendo a esses uma liberdade cuidadosamente medida e controlada para trabalhar a seu ganho, repassando parte dos rendimentos a um senhorio ansioso por amealhar mais alguns trocados para o atendimento das despesas domésticas enquanto aguardava, resignado, pelo dia em que a alforria definitiva lhe seria cobrada mediante pagamento (integral ou não, isso variava de acordo com as relações interpessoais estabelecidas) dos valores estipulados em lei.
Foi nesse contexto que a descoberta de um vau no rio Iguaçu, em 1842, no interior de densa mata atlântica de araucárias, deu início à povoação que viria a se tornar a vila do Porto da União. Local privilegiado de travessia do volumoso curso d’agua, ao permitir o encurtamento das viagens realizadas pelo recém-aberto caminho de Palmas começou a atrair todos aqueles que, interessados no transporte de mercadorias, aqui se estabeleceram em busca dos lucros que não poderiam ser obtidos em outras paragens. Viajantes vindos de longe, trazendo consigo volumosas cargas nos dorsos de robustos muares, se viam obrigados a constituir morada temporária sempre que a estação das chuvas aumentava a força da correnteza impedindo, por vezes durante várias semanas, a travessia e a continuidade da jornada. Sua presença incentivou a abertura das primeiras casas de comércio e prestação de serviços, atraindo ainda mais moradores e motivando, paulatinamente, o crescimento do improvável povoado. Não restam dúvidas de que décadas antes da chegada do coronel Amazonas Marcondes e dos primeiros imigrantes europeus para cá transportados sob reiterados incentivos dos governos nacional e estadual, essa foi uma cidade fundada e ocupada por tropeiros e por todos aqueles associados a essa fundamental atividade econômica.
O que nos remete à efeméride da data em que escrevo essas linhas – 20 de novembro, Dia da Consciência Negra – e a um reiterado mito ainda corrente em nossas cidades: aquele que afirma não ser a escravidão um elemento importante em nossa trajetória histórica. De fato, não foram poucas as vezes em que ouvi essa afirmação proferida em tons de verdade reforçada pela lógica de um raciocínio lógico. Sendo essa uma comunidade originariamente pobre formada por despossuídos e, muitas vezes, desterrados empenhados em construir uma nova vida a partir de pequenas roças e comércios de importância apenas local, simplesmente não existiria na economia dos primeiros tempos recursos monetários suficientes para sustentar a compra e manutenção de escravizados, um luxo tornado inacessível pela Lei Euzébio de Queiróz que, em 1850, tornou efetiva a proibição da importação de novos plantéis proscrita em teoria (mas não na prática) desde 1831. O argumento faz sentido, mas ignora um fato fundamental: as inúmeras tropas que por aqui passaram eram formadas, em grande medida, por escravizados adquiridos especificamente para compô-las. Tratava-se de trabalhadores valiosos e avidamente procurados por sua experiência no manejo das mulas e por seu conhecimento dos duros caminhos do interior, pessoas que muitas vezes recebiam rendimentos e privilégios apenas sonhados pelos trabalhadores das fazendas de café do interior paulista e fluminense. Eram, ainda assim, escravizados. E, como tais, muitos estavam ansiosos por buscar a própria liberdade tão logo se viam sozinhos no interior da mata fechada, acontecimento banal nos longos e numerosos dias que compunham as longas e cansativas viagens.
O impacto dessas fugas fica evidente na formação do grupo social característico de nossa região: o caboclo. Tantas vezes ignorado e atacado pelas forças de um estado excludente e violento, traz em sua cultura marcada pela prevenção contra o forasteiro os sinais da busca por uma existência reservada longe de forças que por muito tempo intentaram controlar seus movimentos e limitar sua autonomia. Base de nossa comunidade no que ela tem de mais original, representa mais um interessante e rico desdobramento da existência, por mais de três séculos, de uma das instituições mais cruéis e nefastas da história da humanidade em nosso país. Constitui a um só tempo, portanto, elemento fundamental na formação da sociedade em Porto União da Vitória e objeto privilegiado de reflexão em um dia como hoje, no qual nossa dívida para com todos os grupos excluídos ao longo dos séculos deve ser debatida e suas trajetórias únicas e enriquecedoras, valorizadas. O vale do Iguaçu, como todo o resto do país, não pode se furtar a essa tarefa inescapável, como obrigação relacionada ao respeito com sua própria história. Até a próxima!
