COISAS DA BOLA
UMA VISTA VAZADA E A OUTRA CEGA DE NASCENÇA
Pertinho dás seis horas da tarde, esperando ouvir o apito nas chaminés das madeireiras que sinalizavam o final dos trabalhos, em fila na frente do relógio-ponto para baterem os cartões naquele final de uma sexta-feira depois de uma lida semanal, aqueles três amigos de trampo e de fuzarca estavam sendo aguardados em um bar, onde já se visualizava à distância, muitas bicicletas empilhadas umas por sobre as outras. Para muitos do operariado, tomar um “firma pulso” antes de ir para suas casas era ato corriqueiro, mas nas sextas muitos extrapolavam e chegavam no lar tarde da noite, com os cornos cheio da malvada pinga.
Para os três amigos, aquele final de semana prometia, pois, anunciado fartamente nas emissoras de rádio, as pencas de cavalos e brigas de galos era o que estava programado no lugar conhecido como Lagoa Preta, no famoso bairro São Bernardo, bem nos fundos do campo de futebol Bernardo Stamm. Ao saírem da firma, Adelírio, Liocádio e Riobardinho, como sempre, encostaram o umbigo no balcão daquele bar, onde eram muito conhecidos e todos os respeitavam. Às risadas, sempre tomavam “todas”, mas nunca se viu fazerem bandalheiras ou entrarem no pau com alguém.
Ficando naquele botequim menos tempo do que estavam acostumados, muito alegres os três montaram em suas bicicletas, e como se elas fossem ensinadas, sempre que eles recebiam os envelopes com os respectivos salários, suas rodas giravam em direção a uma casa das primas, lupanar muito conhecido pelo nome de Polonesa, localizado num dos cantos do Rio Iguaçu, bem pertinho do rinhadeiro, da raia e do lugar escolhido a dedo em um mato, para apostarem no proibido jogo de cachola.
Com os bolsos recheados de gaita, sabiam que teriam tratamento especial pelas damas da noite, e como se fossem reis, pernoitaram e amanheceram em seios fartos e perfumados. Ao desadormecerem perto da hora do almoço, um xixo de primeira já tinha sido providenciado pelas donas daquela casa mal afamada. Com as panças empanturradas, os três rumaram para a raia onde os remates estavam sendo feitos e os cavalos estavam amarrados, à mostra, para que os aficionados fizessem as suas apostas. Entre risadas e mais “canhas” tudo era alegria, porque os bolsos continuavam recheados de notas, embora tivessem amanhecido na gandaia, ainda não tinham desembolsado nenhum tostão. Tinham crédito na casa boêmia, eram assíduos por ali. A meretriz chefe os conhecia muito bem, e eles sabiam, que se não liquidassem a fatura ela iria fazer plantão em frente à firma onde eles trabalhavam. Então, ela não tinha com que se preocupar, as despesas ainda não pagas, eram um dinheiro certo que entraria no caixa daquele conventilho.
Nas quatro pencas realizadas naquela tarde de sábado, com os três amigos fazendo apostas vultuosas, estufaram mais os bolsos. Começaram a pagar rodadas de bebidas para todos os que estavam por ali. A festa foi grande até noite adentro, quando então, voltaram para o prostíbulo. Lá, fuzarquearam mais um pouco. Exaustos, naquela noite somente ninaram com as damas. De manhã, com o hálito cheirando guarda-chuva velho, tomaram um forte chá de água de valeta, seguido por um cafezão feito pela gerentona da casa. Salgaram o peito na hora do almoço com uma canja de galinha. Sentindo-se melhores e com o porrete aos poucos sendo curado, deram um tchau para as meretrizes e foram novamente para raia, onde aconteceria a esperada penca entre um famoso cavalo, invicto até então, contra uma eguinha azarona. Fazendo valer o ditado “calça de veludo ou bumbum de fora”, fizeram a loucura e apostaram tudo o que tinham na eguinha, pois nos bastidores, após darem uma gorjeta ao jóquei, ficaram sabendo que ela estaria dopada. Ela era ruim de largada, mas em compensação era um supersônico no “tiro” de quinhentos metros. Estufaram tanto os bolsos, pois a eguinha ganhou pela língua de fora. Ferveu o tempo, o pau cantou, a meganha veio e o dono do cavalo perdedor aceitou a derrota, porque na foto de chegada se via centímetros da língua da eguinha à frente. Até para quem não conheciam, novas rodadas de bebidas foram pagas pelos três amigos.
Chegando a noitinha, a raia e arredores se esvaziou. Os amantes em briga de galos foram para o rinhadeiro, bem mais próximo da beirada do rio, onde uma dança de mulher pelada estava programada antes dos duelos galináceos. Frise-se, que um desses amigos, o Liocádio, era criador de galos de briga e considerado um “macaco velho” nesse ramo. Prova disso é que várias taças ganhas pelos seus galináceos enfeitavam a enorme estante da sua sala.
Já no rinhadeiro, Liocádio pagou uma gorja boa para que um jovem que estava por ali, não pelas brigas, mas para ver a dita mulher pelada, para que se deslocasse até a casa do Liocádio buscar o galo que ele tinha deixado em concentração, fechado dentro de uma pequena gaiola móvel. Ao chegar lá, o jovem viu que existiam duas gaiolas iguais com uma ave dentro. E, agora! Qual delas levaria? Devido ao breu da noite não conseguiu visualizar as aves. Escolheu e levou a gaiola que estava perto da porta de entrada daquele pequeno paiol. Entregou a gaiola para o Liocádio sem mencionar que das duas que encontrou no paiol, escolhera, aleatoriamente, uma.
Na penumbra enfumaçada daquele cômodo que abrigava a rinha, principalmente, dos “Mistura Fina” que a maioria fumava, percebia-se lá de fora pelas réstias através das paredes sem sarrafos, que aquele local estava superlotado. Viventes, que às risadas e gritos escolhiam o galo em que apostariam. Os jogos principais eram feitos, diretamente, entre os donos dos galos, que mesmo sem ver o adversário, confiando nas esporas de que o seu era melhor e mais valente, apostavam muito.
Ao atar uma luta, crendo muito que o seu super galo não era “mestiço”, e sim de raça, que julgava bem treinado e preparado, Liocádio falou para seus amigos Adelírio e Riobardinho, para que apostassem o que pudessem. Disse ele: – O meu galo é “bão”. Eles acreditaram e apostaram toda a grana que recheava os seus bolsos. Quando foi pegar o galo na gaiola para apresentar ao público apostador, o garrão de Liocádio amoleceu, porque o galo que tinha sido trazido não era o esperado. Era um galo que estava dentro da gaiola há vários dias para afrouxar a musculatura, pois iria para a panela na segunda-feira. Era um galo cego de um olho, de nascença, e o outro olho tinha sido vazado durante uma briga-treino. E, agora! Aposta feita, palavra dada, o fio de bigode tinha que ser mantido. Além da aposta alta entre os dois donos das aves, apostas de “mil por um” foram feitas, pois de cara, mesmo na penumbra daquela fumaceira, os apostadores conseguiram identificar que o galo do Liocádio, até para andar direito tinha dificuldade, mancava e tropeçava seguidamente.
Em um silêncio total, todos já esperando o final do duelo, pois o galo cego, no imaginário dos apostadores já tinha perdido o pugilato antes dele começar. O mediador apitou e no mesmo momento os donos dos galos os soltaram no meio da rinha. Levando pialada de todo o lado já no início do confronto, o galo cego estava prestes a ir para a lona de tanta esporada e bicada que levou. Liocádio, Adelírio e Riobardinho visualizavam em suas mentes, na segunda-feira, a dona do lupanar, na frente da firma fazendo a cobrança das duas noites de orgias. A casa cairia, literalmente. Com os três amigos se fitando, balbuciaram ao mesmo tempo como se fossem um conjunto musical: – “tomemo na tarraqueta”.
Esperando o fim da luta que por incrível que pareça se prolongava, fazendo com que aquele martírio demorasse, o galo cego não beijava a lona. Somente um milagre, se é que existissem milagres em briga de galos, poderia salvar os três amigos da bancarrota. Existia milagre sim! E, ele aconteceu. Não se entende até hoje como aquilo foi possível. Pescoço no pescoço, como fosse um combate de box, onde um dos lutadores tentasse travar a luta para não apanhar mais, o galo cego amorcegava e se preparava para levar o golpe fatal? Não! Adquirindo forças, talvez do além, ou por ver o seu dono desesperado, ele cravou o seu bico já meio estoporado no pescoço do seu oponente e não largou mais. E, buscando mais forças, acho que, através do farto milho que comeu ao estar sendo preparado para ir à panela, aplicou o único golpe que teve forças para fazê-lo, fatal, quando pulou no cangote do seu algoz e cravou as suas duas esporas no pescoço dele. Viu-se aquele jato de sangue dentro da rinha. O “galão” supostamente vencedor foi finando diante do “olhar do galo cego”, elevado à herói. Somente se ouviam os gritos de alegria dos três amigos quando começaram a recolher às apostas, enquanto os demais, com poeira no bolso se evadiam daquele local antes que a polícia chegasse, não acreditando na superação daquele maldito galo cego.
Passados anos, tratado a “pão de ló”, morria de causas naturais aquele galo cego. Foi enterrado em uma chácara lá pelos lados de Paula Freitas.
COISAS DA BOLA são fatos vividos por mim, histórias contadas por amigos e outras frutos da minha imaginação. Qualquer semelhança será puro acaso.
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COISAS DA BOLA
Mais uma de galo de briga
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Acadêmico da ALVI – Academia de Letras do Vale do Iguaçu.
Texto do livro prestes a ser lançado – Causos da vida de fato.
Um fulano de posses. Ele perambulava entre a elite e proletariado, mas entre a classe menos abastada é que se sentia à vontade.Amigo do peito dos amigos, sociável e de uma humildade a toda prova. Sempre que lhe solicitada uma ajuda, o fazia com gosto. Era muito conhecido em toda a região. Visto com um baita futuro político. Diziam, seria um prefeito, um deputado ou até um político nas mais altas esferas, por que não!Adorava uma caçada, tinha cães bem treinados. Corrida de cavalos, então, o fazia vibrar. Agora, em um rinhadeiro, seus galos de briga eram dos bons, muitos troféus faziam parte de sua galeria. Isso é um pouco do que era o Ivan. E, é sobre ele e briga de galo essa narrativa.
O povo entupia aquela rinha. Aquele ar enfastiado de catinga dos penosos, enfumaçado pelos paieiros feitos com fumo em corda, era conhecido daquela gente, que saído da raia de cavalos, ali do ladinho, já com muitas biritas pela cachola, vinha terminar aquele domingo assistindo a enorme e esperada peleja entre o invicto e famoso galo Branco, do Ivan. O oponente era um não menos famoso galo, também sem ter nunca conhecido um revés, da localidade conhecida como Três Barras, cidade vizinha da capital da erva-mate, Canoinhas.
Já ia para duas horas a luta, pau a pau. Era uma briga de gigantes, mas o galo visitante, tinhoso e técnico, até parecia que teve aulas, esporeava e dava bicadas certeiras. O galo Branco, após um pialocerteiro estava com um olho cegado, mas ainda peleava de igual para igual, até que, não deu mais para ele. Um contragolpe do visitante fez vazar a outra vista. Aí, foi uma verdadeira saraivada de golpes, mas resistia, e nas escuras tentava revidar. Seus golpes iam ao vazio, não achavam o seu algoz. Perto de três horas de uma verdadeira tunda, mas sempre em pé, valente, sangrando muito e só com a “capa da gaita”, o galo Brancotodo estoporado não atirava os panos. Não fazia parte da sua natureza se entregar. Então, o Ivan, com seu coração gemendo de pena, vendo tamanha judiaria, jogou a toalha e assumiu a derrota do galo Branco.
Zenóbio, um senhorzinho, amante inveterado de prélios galináceos, que não perdia de vista nenhuma contenda naquela rinha, pediu para si aquelegalo Branco, que na visão de todos por ali, tinha adquirido a aposentadoria por invalidez. Foi presenteado com o galo, e ouviu com tristeza do Ivan – faça um bom ensopado. Mas, Zenóbio, que pela experiência de vida, muitas vezes enxergava além muros, tinha outros planos para aquele galo. Vira nele uma raça fora do comum, pois aguentar em pé quase três horas de peleja, totalmente cego e levando pialo a briga toda, não merecia ir para a panela.
Antibióticos, banhos mornos, pomadas nas feridas, massagens com catinga de mulata e muito rango bem vitaminado, passou a ser o dia a dia daquele galo. Em três meses, com cegueira total, estava recuperado da sumanta levada no seu último combate. Foi fechado a sós em um pequeno galinheiro com uma galinha forte ebotadeira, que se achava a rainha da cocada preta. Fez valer o seu instinto de macho. Com a galinha tremendo e arrepiada, a cruza foi inevitável. No primeiro e único ovo daquela galinha periguete, deu o ar da graça neste mundo, um pintinho totalmente com penugens de uma brancura total, que a cada dia se via, saíra o focinho do papai.
O pinto cresceu e virou um galo porrudo. Zenóbio com seu vasto conhecimento o pôs em treinamento puxado. Vira naquele galo um futuro promissor, que poderia lhe dar muita mufunfa, mas não era só esse o seu interesse. Por intermédio de um telegrama enviado na Estação Ferroviária União, atou uma briga em altas cifras com aquele famoso galo de Três Barras, que ainda seguia invicto dando troféus e dinheiro para o seu dono.
Mais uma vez o rinhadeiro estava apinhado. Pulgas por ali se sentiriam espremidas. Tinha gente de todos os cantos e tocas das beiradas do Rio Iguaçu. Era a última briga daquele domingo. Mesmo sem terem visto o galo do Zenóbio, as apostas eram vinte e quatro contra um, favorável ao galo visitante, invicto e famoso. Como se fosse um prélio futebolístico alguém deu um apito para começar a renhida luta. Não foi renhida. Em poucas passadas, com golpes certeiros que pareciam igual a jogadas ensaiadas, o galão tresbarrensebeijou a lona e ficou estrebuchando. Era como se fosse uma vingança que estava engasgada, aquele galo vingara o galo pai.Zenóbio forrou a burra de tantas cédulas.
Abismado pela valentia daquele galo, Ivan quis saber de onde ele surgira. Zenóbioentão, contou toda a história, tintim por tintim e lhe deu de presente, pois aquele penoso era filho do cego galo que ele lhe dera para fazer um ensopado.
Naquela segunda-feira, ao viajar para o litoral para dar cuidados a uma de suas empresas, viajando tranquilo, Ivan teve o seu bilhete de passagem vencido, era a hora do seu desembarque. Do nada, uma encosta desmoronou e caiu sobre o seu auto. Ele desencarnou, e deste chão terreno, sob o comando de Zenóbio, não pode ver as glórias daquele galo, que passara a ser chamado de “Campeão”, do Ivan.
COISAS DA BOLA
Da inocência para o mundo cão
Ele tinha 17 anos, ela 16. Sempre que ele saía do treino, em frente da casa ela o esperava passar. Do outro lado da rua ele sorria, mas tinha receio de puxar uma prosa. Ela, espivetada, cansou de só ficar olhando. Puxou papo:
– Está com medo de mim?
Tímido. Criando coragem não sabe de onde, ele se achegou e proseou:
– Sim, tenho medo – nunca conversei com uma moça do teu naipe.
Pegou a mão direita dela, e com delicadeza beijou. Ela vermelhou toda. Ele sentiu ela tremer. Ela deu um beijo na bochecha dele. Emocionado, ele tremeu na base. E, foi desse jeito, que ataram um namoro.
Todo dia após o treino do esquadrão profissional, ela estava na frente de casa esperando por ele. Suspirava ansiosa quando ele demorava. Ele não via a hora de estar com ela. Ocultos por detrás do portão roubavam beijos. Os arroubos da juventude afloravam. A libido dele ia para a copa dos paus. Ela se umedecia nas partes íntimas.
Já não aguentavam aqueles encontros furtivos atrás do portão. Começaram a se encontrar num paiolzinho nos fundos da casa dela. O pai não queria de jeito nenhum que ela namorasse. Ela era nova de tudo. Namorar com um boleiro, jamais. O pai sempre estava de botuca, mas era logrado. Quando ia trabalhar, o namorico deles pegava fogo naquele paiol, mas não iam além de umas poucas bulinações.
O prélio pelo paranaense seria em Bandeirantes, contra o União. Na famosa Vila Maria. Viajando durante nove horas, ele matava a saudade ouvindo as músicas românticas nas fitas cassete que ela lhe emprestara junto com o seu gravador. Nessa viagem ele atinara. Estava perdidamente apaixonado. Na volta, ficaria nas barbas com o “sogro” e pediria para namorar de forma oficial. Se ele não deixasse, roubaria a filha.
A volta era muito esperada. Venceram o cotejo por um a zero. Ele fez o tento bimbando uma falta. Mais nove horas de viagem. Noite toda. Ele muito feliz e com saudades dela. O consolo foi ouvir as músicas românticas. Seis horas da manhã aportaram na Sede do esquadrão. Ele dormiu no colchão sobre um beliche até meio dia. De banho tomado, roupa nos trinques, recendendo desodorante Avanço, do lado do alojamentobombiava e esperava que o pai dela fosse trabalhar. Enfim! Ele foi. Na correria foi até lá. Pela primeira vez ela lhe abriu a porta da casa. Ele entrou afoitamente. Entre beijos e abraços, passou uma rasteira e ela se estirou ao chão. Ajeitou o couro no terreno e se preparou para atirar forte. Em cima dela. Beijos, beijos e mais beijos. Ele, ávido, rasgou aquela blusinha fina, retirou o sutiã e com a cabeça entre aqueles enormes seios, ora em um, ora em outro, chegou a revirar os olhos de tanto sugar.
Desconfiado, naquele dia, o pai fez que foi e, não foi trabalhar. Dando uma de “Migué”, lá na esquina ficou na espreita. Para sua própria desgraça armou um flagra. O que veria, nunca imaginou, talvez um futuro genro, “bezerrão”. Irado, enquanto correu para apanhar o machado lá no paiolzinho, o ex-futuro genro escafedeu-se, ouvindo que era um piá de bosta com os dias contados.
O caminho deixou de ser pela frente da casa dela. Recebeu de volta todas as cartas perfumadas escritas para ela. Junto na bolsa, veio um bilhete alertando-o. A par do flagrante, o irmão dela, um louco varrido, junto com um bando iriam canchá-lo de pau. Que se cuidasse. Ele se armou. Começou a andar berrado. Dando uma desculpa esfarrapada, emprestara de um amigo polícia um 38 de marca Schmidt. Andava com aquele caga-fogo escondido na parte detrás da cintura.
Armados de porretes, o bando lhe cercou. Quando foram lhe atacar, fez aquele trabuco cuspir fogo. Criou um rebuliço. Foi uma correria daquela turma. Nunca mais o importunaram. Mas, perdera de vez a namorada. Com muitas saudades, para conter o sofrimento, dentro da sua patente, vivia fazendo dedicação para ela usando os “cinco contra um”, imaginando estar sugando as suas enormes e duras tetas.
Sabedor que ela estava de mira com um grã-fino, com um calorão na testa começou a frequentar um balcão. Um amigo de paleta vendo a sua sofrência, convidou-o para ir junto em um casamento. Após emprestar um paletó, de peru, apareceu na festa do casório. Viu uma moça a fitá-lo. Com uns goles a mais, ele virou um poeta. Encantou-a e se encantou com ela. Ali, acabara de conhecer um grande amor da sua vida, não para todo o sempre, pois o para sempre não existe, um dia vira fumaça.
COISAS DA BOLA
A difícil peleia para se aposentar
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Perícia daqui e perícia de lá. Ele estava sendo julgado insano. Era mais um encostado pela previdência social. Voltar a trabalhar estava fora dos seus planos, nem a “pau juvenal”. Queria ser aposentado a qualquer custo.
A nova perícia estava próxima. Um dia antes, ele tomava uns goles de pinga misturada com pólvora. Juntos nessa mistura, dois comprimidos para dormir. Seu corpo começava a demonstrar que estava com algum mal. Seu coração parece que ia sair do peito. Tremeliques e palavras desconexas. Já fora da casinha, novamente ele circulava pelado pelo pátio do prédio. Imaginando ter nas mãos uma “maquina” de procurar ouro, afirmava que o fundo da fossa estava repleto dele. Aos gritos e plantando bananeira com o fiofó virado para a lua, ele via novamente a ambulância chegar para atendê-lo.
Famoso pelo ato, já era conhecido dos enfermeiros. Obedecia-os, e dentro da Van seguiam para a UPA dando risadas. Cara a cara com o médico de plantão, armava um banzé. Um sossega leão na veia levava-o ao sono tranquilizante. Um internamento era inevitável. Após dias, medicado, recebia alta hospitalar. A sua pretendida aposentadoria por invalidez, imaginava, caminhava a passos largos. Logo, logo pintaria. Voltar para o trampo, nem por misericórdia. Mas, eis, que, como um aborto da natureza, a sua cura apareceu do nada quando foi enviado para um sanatório.
Em uma noite, um dos plantonistas daquela casa para loucos não aguentando a fuzarca armada pelo pretendente à aposentadoria, resolveu ir para forra. Enquanto o interno dormia anestesiado o sono dos loucos, socou-lhe papel higiênico na boca e nos dois ouvidos. Também, com o interno deitado e amarrado na cama com a "busanfa" para cima, o enfermeiro tirou-lhe as pregas. Deflorou-o e gostou do ato. Toda noite o fato se repetia, mesmo com o interno acordado. Indefeso, só lhe restava chorar em silêncio. Algumas vezes reclamava, só que ninguém acreditava em suas palavras. Não aguentando mais aquelas sevícias, o louco de araque começou a se comportar. Melhorou do dia para a noite. Logo ganhou alta. Voltou a trabalhar no seu serviço público, mas lhe doía o botuqueiro quando entregava cartas sentado no selim de uma bicicleta.
Depois de anos, a sua tão esperada aposentadoria veio, não por invalidez, mas por tempo de serviço. Infelizmente ficara com sequelas - um de seus ouvidos ficou surdo e o seu fiote estava alargado. Só de imaginar em ouvir a palavra sanatório, ficava pianinho, e se escondia embaixo da cama. Quando encontrava aquele enfermeiro do sanatório, que virara seu vizinho de porta, suas vistas transbordavam em lágrimas.
Uma tarde para não se esquecer
Do escritor da periferia – Craque Kiko.
Um frio do capeta. Lá fora o vento ainda fraco, mas longe de ser somente uma brisa, balançava os pequenos galhos das duas pequenas palmeiras nos extremos do meu pequeno jardim retangular. O Sol há dias tinha deixado de nos visitar. Eu, parado frente da janela do meu museu-estúdio, olhava lá para fora querendo entender porque o Dom Bilu não parava de latir no grande portão. Naquela hora, ele deveria estar ninando dentro da sua casinha, lá nos fundos da garagem. De onde eu estava, só conseguia visualizar a metade do portão. Querendo descobrir o porquê da tamanha latição, colocando o chapéu, sai pela porta dos fundos e marquei presença junto dele na frente do dito portão. Descobri o motivo, e esquecendo o dia cinzento, frio e neblinoso, abri um enorme sorriso.
O motivo era justo e merecia aquele ganiçar, desde que fosse uma declaração de amor ou um elogio para ela. A cadelinha era linda, igual a sua dona que a segurava por uma pequena corda. A dona da, quem sabe futura namorada do Dom Bilu, foi-se dali levando a cachorrinha. Dom Bilu se acalmou, saiu na correria até a garagem lá no fundo do pátio e voltou trazendo na boca, aquele pedaço de dinossauro de borracha já meio esgaceado. Entendi de cara o que ele desejava. Então, jogando aquele toco de dinossauro da frente do portão até os fundos do pátio, cerca de 35 metros, iniciamos o preparo físico dele. Eu arremessava o pedaço daquele réptil, ele saía na correria, apanhava e trazia até mim. E, assim, após vinte arremessos, com ele já colocando a língua de fora, encerramos os trabalhos.
Para me recuperar, já sentado no banco do pergolado lá no fundo do quintal, enquanto eu bebia um café na xícara do Vasco, o Dom Bilu sentado ao meu lado, salgava o peito com uma iguaria feita pela minha esposa. A cada gole daquele café quente e gostoso, encarando o cãozinho, que também me encarava após uma dentada ou outra naquela perna de galinha, nós dirigíamos o nosso olhar lá para o portão da frente. O Dom Bilu na ânsia que aquela cachorrinha retornasse, e eu, esperando uma caminhonete de lenha picada, que recém tinha encomendado.
